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	<title>Caio Machado, Autor em Cultura de Fato</title>
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	<description>Cultura para evocar inteligência, responsabilidade e ética!</description>
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	<title>Caio Machado, Autor em Cultura de Fato</title>
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		<title>Emanuelle</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Caio Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Sep 2023 04:08:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filosofia e História]]></category>
		<category><![CDATA[Dignidade Humana]]></category>
		<category><![CDATA[Esmola]]></category>
		<category><![CDATA[Moralidade]]></category>
		<category><![CDATA[Olavo de Carvalho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Há poucos dias testemunhei uma cena preocupante (...) a melhor forma de exorcizá-la é escrevendo. (...) Eu estava organizando alguns arquivos em um computador, e uma colega de trabalho atendia um casal. Depois de cinco minutos, enquanto a mulher experimentava uma cadeira cujo preço gira em torno de três mil reais, Emanuelle entrou na loja.”</p>
<p>O post <a href="https://culturadefato.com.br/emanuelle/">Emanuelle</a> apareceu primeiro em <a href="https://culturadefato.com.br">Cultura de Fato</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">“<em>A cortesia é irmã da caridade, que apaga o ódio e fomenta o amor.</em>”<br><span data-tooltip="Giovanni di Pietro di Bernardone (1182 - 1226), conhecido como São Francisco de Assis. Nasceu e faleceu em Assis (Itália)." data-tooltip-position="top">São Francisco de Assis</span> (1182 &#8211; 1226)</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide"/>



<br>



<p class="has-drop-cap">Há poucos dias testemunhei uma cena preocupante (para dizer o mínimo) que não sai da minha cabeça desde então — e a melhor forma de exorcizá-la é escrevendo.</p>



<p>Eu estava organizando alguns arquivos em um computador, e uma colega de trabalho atendia um casal. Depois de cinco minutos, enquanto a mulher experimentava uma cadeira cujo preço gira em torno de três mil reais, Emanuelle entrou na loja: uma menina de sete ou oito anos — mesma idade de minha filha —, linda e extremamente educada, vestindo roupas sujas e velhas, toda suada, com uma caixa de jujubas na mão. Ainda um pouco deslocada e fascinada com a beleza da loja de decoração, esqueceu-se por um minuto de seu objetivo e, caminhando lentamente, passou a admirar os móveis, a iluminação, os quadros… logo, porém, recobrou a consciência, provavelmente lembrando-se do motivo de ter entrado ali. Aproximou-se da cliente e disse:</p>



<p>— Bom dia, moça! Gostaria de comprar jujubas?</p>



<p>— Não tenho dinheiro, obrigada — respondeu a mulher, com frieza, depois de uma olhadela, e logo voltou a tatear os braços da cadeira.</p>



<p>— Sem problemas, moça! Eu aceito Pix! — retrucou Emanuelle, depois de ter ouvido essa mesma desculpa mil vezes só naquele dia.</p>



<p>— Eu não gosto de doces — disse a cliente, agora sem olhar nos olhos da criança.</p>



<p>— Sem problemas, moça! Tenha um ótimo dia — e, desta vez, ficou sem resposta.</p>



<p>São raras as oportunidades que alguém tem de ver um contraste tão grande, duas realidades completamente diferentes: enquanto uma realiza um sonho, a outra luta para sobreviver; de um lado, a abundância, de outro, a escassez. Mais discrepante do que a situação financeira é a destreza social: enquanto Emanuelle emanava elegância, a cliente da loja transbordava grosseria. Nem mesmo eu, que tenho mais de dez anos de experiência comercial, aceito uma rejeição com tanta sutileza. Pois a menina seguiu inabalável. Deveria ter, no máximo, um metro e vinte de altura, mas pequena, ali, era a mulher. Que ironia! Era exatamente a pessoa menos favorecida que demonstrava superioridade e saía de uma situação como essa tal qual uma verdadeira dama, com a fineza digna de uma rainha.</p>



<p>Depois do ocorrido, fui obrigado a ouvir essas frases imbecis que vemos estampadas em <em>outdoors</em> pela cidade, e outras salpicadas de ignorância popular, como: “Não dê esmola, dê oportunidade”, “esmola não resolve nada”, “o dinheiro nem vai para ela”, “a mãe deve ser viciada”. Acontece que a menina não estava pedindo absolutamente nada: ela comprou um produto honestamente, calculou a margem de lucro ideal e foi à luta. Ainda que estivesse pedindo esmola, tenho pena da alma que precisará explicar para Deus por que negou ajuda a uma criança.</p>



<p>É realmente impressionante a capacidade que o brasileiro tem de isentar-se completamente de sua responsabilidade diante de uma situação particular, usando toda sorte de cenários hipotéticos, como, por exemplo, na famosa desculpa “não dou dinheiro porque ele vai beber”. Não ajuda de forma alguma, sai crente de ter feito seu papel e, para fechar com chave de ouro, ainda consegue fazer com que alguém com disposição para ajudar sinta-se mal por tê-lo feito. Ora, será mesmo impossível que Emanuelle tenha uma ótima mãe? Suspeito que traquejo social como o dela não venha de uma mãe desinteressada. Ou será também impossível que elas estejam mesmo passando por um momento difícil? Lembre-se de sua própria vida há dez ou quinze anos e perceba como muito pouco — ou nada — de sua atual situação foi planejado ou mesmo resultado de esforços direcionados a um fim específico. Estamos o tempo todo à deriva no mar da vida, entregues à fortuna e ao destino, rezando para que Deus nos guie e proteja. Mal uma tempestade se encerra e já podemos avistar outra no horizonte. Quantos desencontros, injustiças, traições e decepções você já sofreu? Responda com sinceridade: quantos meses sem receber salário algum são necessários para fazê-lo ir morar na rua e ver-se obrigado a vender jujubas? Quem garante que a mãe de Emanuelle não seja também uma vítima dessa má fortuna? Por que o primeiro impulso é o de desconfiar da honestidade alheia? O que eu faço da vida é assim tão superior ao que Emanuelle faz? Uma simples formalidade contratual é capaz de revestir meu trabalho com o manto da dignidade?</p>



<p>Ainda existe, é claro, o problema de ser uma criança trabalhando, mas não estou sugerindo que possamos, num passe de mágica, resolver toda sua vida; em um mundo perfeito, ela não trabalharia, mas de tanto pensarmos no mundo perfeito, acabamos por esquecer o real. O que sugiro é que tentemos, de alguma forma, seja comprando a jujuba, seja demonstrando compaixão, melhorar o dia dessa criança. Quão curto não seria seu dia de trabalho, se todos ajudassem! Mas, além de trabalhar, ela ainda precisa ser forte para aguentar a indiferença e a frieza do ser humano. O que mais me incomodou em toda aquela cena foi o desprezo com que a mulher tratou a menina. Ainda acredito que se você não tem dois reais para contribuir, talvez precise repensar sua gestão financeira, mas, mesmo assim, ao menos olhe nos olhos da criança, dê um sorriso, pergunte seu nome, pergunte o que ela gosta de fazer, do que gosta de brincar, qualquer coisa! Se fosse um cachorro de rua, era bem capaz da desgraçada se ajoelhar no chão para lhe dar carinho.</p>



<p>Há um trecho do famoso artigo <em><a href="https://olavodecarvalho.org/pobreza-e-grossura/" target="_blank" rel="noreferrer noopener nofollow">Pobreza e grossura</a></em>, do filósofo Olavo de Carvalho, que me sinto obrigado a reproduzir aqui:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“O brasileiro de classe média e alta está virando uma gente estúpida que clama contra a miséria no meio da abundância porque cada um não quer usar seus recursos para aliviar a desgraça de quem está ao seu alcance, e todos ficam esperando a solução mágica que, num relance, mudará o quadro geral. Sofrem de platonismo à outrance: crêem na existência de um geral em si, dotado de substância metafísica própria, independente dos casos particulares que o compõem.”</p>
</blockquote>



<p>Apenas para desfecho deste breve capítulo na vida de Emanuelle, e longe de querer me colocar como o paladino da caridade (pois bem sei que, nos quesitos de caráter e virtudes, estou mais próximo daquela mulher fria do que da garotinha), digo que comprei todas as jujubas — a caixa toda; vinte pacotes; nem sei o que fazer com tantas jujubas —, mas apenas para poder informá-los de que a menina saiu da loja realizada e com um sorriso de orelha a orelha. Quando disse que era uma ótima vendedora e que ela própria me convencera a comprar as jujubas, vocês desejariam ter visto seus doces olhinhos verdes enchendo-se de alegria! Se o dinheiro vai ajudar Emanuelle de alguma forma, eu não sei; se tenho a capacidade de resolver todos os problemas que ela enfrenta, posso garantir que não; mas o simples sorriso de uma criança deveria ser argumento suficiente para convencer alguém a ajudá-la.</p>



<p>Enfim, Emanuelle obteve ainda uma última vitória: será sempre lembrada neste pequeno artigo, ao menos enquanto a internet existir; já a mulher da loja — cujo nome fiz questão de omitir —, que caia no esquecimento.</p>



<br>



<p class="has-text-align-right">Por&nbsp;<a href="https://culturadefato.com.br/author/caiomachado/">Caio Machado</a></p>



<br>



<p class="has-background has-very-light-gray-background-color"><strong>Nota da editoria:</strong><br><br>Imagem da capa: “<em>Jelly Beans</em>”, por Michael Martin.</p>



<br>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots"/>



<br></p>



<p>Em complemento, ouça Salomão Schvartzman (1934 – 2019) recitando artigo de de Martha Medeiros, que expõe outras características sobre os “<em><a href="https://culturadefato.com.br/os-ricos-pobres/">ricos-pobres</a></em>”:</p>



<figure class="wp-block-audio"><audio controls src="https://culturadefato.com.br/downloads/artes_e_literatura/2020/ricospobres_pobresricos.mp3"></audio></figure>



<br>
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		<title>O perigo das ideias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Caio Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Aug 2023 03:00:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filosofia e História]]></category>
		<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Aborto]]></category>
		<category><![CDATA[Ateísmo]]></category>
		<category><![CDATA[Christopher Nolan]]></category>
		<category><![CDATA[Comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra Cultural]]></category>
		<category><![CDATA[Moralidade]]></category>
		<category><![CDATA[Movimento Gay]]></category>
		<category><![CDATA[Politicamente Correto]]></category>
		<category><![CDATA[Relativismo Cultural]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria da Evolução]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Sabemos que no campo de batalha da guerra cultural as principais armas são as ideias... (...) Contra os adultos usam artilharia ostensiva, bombardeio pesado; quando querem nos enfiar alguma ideia goela abaixo, atiram de todos os lados: redes sociais, televisão, jornais, livros, músicas, filmes e peças de teatro, o tempo todo, sem parar, vinte e quatro horas por dia.”</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">“<em>A idéia que não é perigosa, não merece ser chamada de idéia.</em>”<br><span data-tooltip-position="bottom" data-tooltip="Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde (1854 - 1900) foi escritor e poeta irlandês, expoente da literatura inglesa durante a Era Vitoriana.">Oscar Wilde</span> (1854 &#8211; 1900)</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide"/>



<br>



<p class="has-drop-cap">No longa de ficção científica <em><a href="https://www.adorocinema.com/filmes/filme-143692/" target="_blank" rel="noreferrer noopener nofollow">A origem</a></em> (“<em>Inception</em>”), de 2010, <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="Christopher Nolan é diretor de cinema, roteirista e produtor britânico.">Christopher Nolan</span> apresenta o conceito da extração de informações do subconsciente de um indivíduo através dos sonhos. Nosso protagonista <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="Dom Cobb é interpretado pelo ator norte-americano Leonardo DiCaprio.">Dom Cobb</span> é especializado nesse tipo de trabalho: invadir o sonho de uma pessoa e manipular seu subconsciente para que ela mesma entregue a informação desejada, que pode ser a senha de um cofre, uma informação sigilosa, um segredo de estado, o que for.</p>



<p>A trama se intensifica quando Cobb recebe uma oferta para realizar um trabalho mais complexo: agora, em vez de extrair, ele precisa inserir uma ideia. O trabalho parece impossível a seu parceiro <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="Arthur é interpretado pelo ator norte-americano Joseph Leonard Gordon-Levitt.">Arthur</span>, mas Cobb confessa já tê-lo realizado antes, quando ele e sua esposa viviam juntos em um sonho compartilhado, sonho este do qual o protagonista decidira acordar, voltando para a realidade. A única forma de fazê-lo era morrer no mundo dos sonhos, o que era um problema para sua esposa, que, após passar tanto tempo sonhando, já havia perdido completamente a conexão com a realidade, acreditando ser aquele o mundo real. É aí que Cobb realiza a inserção de uma ideia: a ideia de que o mundo em que ela vive não é real. O procedimento funciona e ela decide confiar nele, cometendo “suicídio” no mundo dos sonhos para, então, retornar à realidade. O problema é que essa ideia, essa “semente”, não parou de crescer, e mesmo estando agora no mundo real, tudo não passava de um sonho para Mal, que comete suicídio novamente — dessa vez, um suicídio verdadeiro.</p>



<p>A princípio, tudo isso pode parecer fantasioso demais, e é possível encontrar várias interpretações para o filme, seja de ordem simbólica ou através de uma simples análise da narrativa. Mas uma fala específica revela algo mais profundo: “<em>Qual é o parasita mais resistente? Uma bactéria? Um vírus? Não. Uma ideia! Resistente e altamente contagiosa</em>”. Existe aí um conceito que podemos ver com frequência na vida real: inserção e manipulação de ideias.</p>



<p>Uma ideia, teoria, ideologia ou conceito pode ser algo muito poderoso e capaz de moldar nosso modo de agir e pensar. Podemos basear todo o nosso modo de viver em uma simples ideia. Veja, por exemplo, quanto ateísmo nos rendeu a Teoria da Evolução, quanta censura, falsidade e mentira nos rendeu o “<a href="https://culturadefato.com.br/as-origens-do-politicamente-correto/">politicamente correto</a>”, quantas injustiças não foram causadas pela ideia de que traficantes, ladrões e assassinos são vítimas da sociedade, e toda a crise moral gerada pelo relativismo. Imagine a frustração de uma pessoa que cresceu ouvindo de seus pais que “pode ser o que quiser” ao se deparar com suas limitações e as circunstâncias inesperadas da vida, ou o caos mental causado nas crianças pela ideologia de gênero. E o que será delas, que vivem enfiadas no celular, consumindo entretenimento o tempo todo ou ouvindo <em>funks</em> de conotação sexual, sendo frequentemente fuziladas por ideias imorais?</p>



<p class="img-direita"><a href="https://culturadefato.com.br/tecnicas-de-manipulacao-psicologica/"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="520" height="300" class="wp-image-14022" src="https://culturadefato.com.br/wp-content/uploads/2022/10/Cerebro_Pequeno.jpg" alt="Cérebro"></a>Veja o poder hipnotizante de uma ideia como o comunismo, que já foi refutada inúmeras vezes e de cuja implantação temos documentos históricos comprovando todas as atrocidades cometidas, as mentiras, censuras, perseguições religiosas, a pobreza instaurada em seus países por todos os seus líderes, em diferentes lugares do globo, em épocas diferentes, sem exceções… em sua forma mais simples, propositalmente travestida de justiça e igualdade, será plantada, em momento oportuno, na cabeça de uma pessoa que teve sua inteligência reprimida desde o ensino fundamental, e que, agora contaminada, não apenas irá defendê-la com unhas e dentes, como também irá ignorar a própria realidade para não admitir estar errada. São esses que caem em contradições absurdas, que pregam tolerância ao mesmo tempo em que são os primeiros a atacar qualquer um de opinião contrária, pregam democracia enquanto defendem perseguição à oposição, e pregam liberdade de expressão enquanto defendem a censura. Não é preciso muito esforço para descobrir que o comunismo é uma ideia diabólica; um pouquinho só de cristianismo já seria suficiente para se entender que a desigualdade e a injustiça não só estão presentes em toda a natureza, mas também são partes integrantes da própria estrutura da realidade. Este mundo não é perfeito ou justo, e nunca o será. Jó não me deixa mentir: perfeito, mesmo, só Deus o é — o que, evidentemente, não é desculpa para não se fazer nada, mas uma bela oportunidade para demonstrarmos virtudes como caridade, amor ao próximo, doação, serviço e sacrifício. Mesmo assim, o comunismo ainda é o movimento político que mais recruta defensores e militantes em todo o mundo.</p>



<p>Quer outro exemplo? Perceba o estrago feito pela simples ideia de chamar um bebê que ainda está em desenvolvimento na barriga de sua mãe de “feto”; esse simples jogo de palavras, a troca de “bebê” para “feto”, foi o suficiente para desumanizar o indefeso bebê em formação, dando carta branca para matá-lo; foi assim rebaixado do <em>status</em> de ser humano para o de coisa, uma coisa sem vida. Não é preciso ser um gênio para perceber o absurdo. Mas se você, quando se recolhe para o mais íntimo de sua alma, quando está sozinho, naquele lugar do qual somente você e Deus conhecem os caminhos, onde encontra sua essência, no mais profundo de seu ser, não se comove, se sua alma não se enche de escuridão e desesperança ao imaginar uma vida humana sendo aniquilada no mesmo lugar em que deveria gozar de segurança, amor e calor materno, e, pior ainda, traída e morta pela própria mãe — assassinada no ventre, indefesa e inofensiva, cheia de potência, morrendo sem conhecer a luz do dia, a possibilidade humana, a felicidade e a tristeza, o amor e a liberdade —, se nem assim, ao imaginar tamanha perversidade, você se comove, e se não vê o crime cometido pela mãe traidora, então é porque já levaram o que você tinha de melhor: seu coração. Maldita ideia! Prevalece, ainda que não faltem relatos dessas mesmas mães dizendo o quanto se arrependem de ter matado o próprio filho. É assim, nesses jogos de palavras, que perdemos a sensibilidade.</p>



<p>Sabemos que no campo de batalha da guerra cultural as principais armas são as ideias, ou, ao menos, deveríamos saber. A esquerda em todo o mundo não apenas sabe muito bem disso como essa é sua arma mais utilizada. Em meio a esta guerra, eles estão armados até os dentes, com munição e soldados de sobra, montados em seus tanques de guerra, enquanto o outro lado tem, quando muito, um estilingue e algumas mamonas, poucos soldados e uma desorganização tremenda, sem falar nos agentes duplos infiltrados nas trincheiras, fazendo-se de soldados amigos apenas para, mais tarde, apunhalar a todos pelas costas. Além de todo o arsenal, a esquerda ainda desfruta de mais algumas vantagens, como estratégia e paciência. Contra os adultos usam artilharia ostensiva, bombardeio pesado; quando querem nos enfiar alguma ideia goela abaixo, atiram de todos os lados: redes sociais, televisão, jornais, livros, músicas, filmes e peças de teatro, o tempo todo, sem parar, vinte e quatro horas por dia. Não cessam até que nos vejam de joelhos, pedindo perdão e acenando a bandeira branca, rendendo-nos às suas exigências. Os inocentes que são pegos no fogo cruzado acabam baleados e se calam por medo, ou, pior ainda, alistam-se no exército esquerdista e compram uma briga que não entendem. Sabem, porém, ser também discretos quando necessário; um exemplo é quando estão em seu território preferido (as escolas), com suas vítimas preferidas (as crianças): são bem mais precisos e cirúrgicos, como um <em>sniper</em>, utilizando as versões mais simples das ideias desejadas, para que floresçam naturalmente. Não acredita? Acompanhe o movimento <em>gay</em> nas ruas dos EUA e escute-os gritando orgulhosamente: “<em>We’re here, we’re queer, we’re coming for you children</em>” (ênfase no <em>children</em>, meus amigos). Além disso, note o fetiche dessa gente por escrever livros infantis, ou o tanto que amam o “ensino obrigatório e para todos”; é ali que eles vencem a guerra sem enfrentar qualquer resistência.</p>



<p>Eu mesmo não escapei e já fui, um dia, contaminado por essas e outras ideias da mesma espécie. A boa notícia é que podemos escolher com quais ideias nos contaminar; por isso, deixo aqui a minha tentativa de inserção de uma ideia que, em tempos de inversão de valores, perseguição e censura, nessa antessala da ditadura na qual vivemos, acredito que nos servirá muito bem: aquela que São Severino Boécio escreveu durante o martírio, quando lhe sobrava tempo entre as sessões de tortura: “<em>É possível abalar a resolução de um espírito firme e perturbar sua tranquilidade? Um tirano que pensasse poder fazer, por meio da tortura, um homem livre denunciar os pretensos cúmplices de uma rebelião contra ele veria o seguinte procedimento: o homem livre e honesto morderia a própria língua, parti-la-ia e a cuspiria no rosto do tirano. Assim, as torturas que o tirano considerasse instrumentos de crueldade e pavor tornar-se-iam para o sábio uma oportunidade de mostrar sua virtude</em>”.</p>



<br>



<p class="has-text-align-right">Por <a href="https://culturadefato.com.br/author/caiomachado/">Caio Machado</a></p>



<br>



<p class="has-background has-very-light-gray-background-color"><strong>Nota da editoria:</strong><br><br>Imagem da capa: “<em>Crispin and Scapin</em>”, por Honoré Daumier (1808 – 1879).</p>



<br>
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		<title>Hipocrisia arquitetônica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Caio Machado]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 21 Jul 2023 03:26:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filosofia e História]]></category>
		<category><![CDATA[Política e Economia]]></category>
		<category><![CDATA[Agostinho da Silva]]></category>
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		<category><![CDATA[Ortega y Gasset]]></category>
		<category><![CDATA[Sorocaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Se, por exemplo, você acredita ser um marido virtuoso porque é fiel à sua esposa, mas não tem sequer a oportunidade de traí-la, pois não há uma única mulher louca o suficiente para olhar na sua direção, é preciso perguntar: que virtude imaginária é essa que você está pondo em prática?”</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">“<em>A política tem sido a arte de obter a paz por meio da injustiça.</em>”<br><span data-tooltip-position="top" data-tooltip="George Agostinho Baptista da Silva (1906 - 1994), filósofo e escritor luso-brasileiro.">Agostinho da Silva</span> (1906 &#8211; 1994)</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-wide"/>



<br>



<p class="has-drop-cap">Na calada da noite, acontece secretamente uma reunião de um certo grupo de pessoas, todas com os bolsos cheios de dinheiro, donas de carros luxuosos, ostentando joias e relógios de marcas caras. Entre um gole e outro de vinho, uma petiscada e outra de queijo brie e <em>prosciutto di Parma</em>, discutem sobre como atrair mais negócios e lucrar mais, sobre quem ainda não recebeu sua tão merecida propina e sobre quem está à venda, mas ainda não faz parte da folha de pagamento dos chefões.</p>



<p>Talvez o leitor tenha imaginado uma reunião entre mafiosos ou até entre políticos, mas o que tenho para contar é bem menos prepotente e bem mais desprezível. Mais desprezível do que políticos corruptos? Ora, pelo menos ainda podemos dizer que estes sofrem algum tipo de tentação, aquela com que todos os brasileiros sonham: a de mudar de vida pelo preço de um pecado só; afinal, o que é mais um no meio de tantos, não é mesmo? “Levo embora esta maleta recheada de dinheiro, sumo daqui, e depois é só alegria; faço uma doação generosa e Deus há de me perdoar.” Mas não posso dizer que são atormentados pelo mesmo comichão os tipos que venho expor aqui.</p>



<p>Se, por exemplo, você acredita ser um marido virtuoso porque é fiel à sua esposa, mas não tem sequer a oportunidade de traí-la, pois não há uma única mulher louca o suficiente para olhar na sua direção, é preciso perguntar: que virtude imaginária é essa que você está pondo em prática? Da mesma forma, os políticos ao menos são tentados de alguma maneira; mas e nós, que, na primeira oportunidade de ganhar qualquer tipo de vantagem ou benefício, por mais idiota que seja, jogamos todas as nossas crenças e valores janela afora, como se fôssemos prostitutas baratas? Por estas, aliás, tenho o maior respeito; afinal de contas, além de realizarem um trabalho extremamente desagradável — creio eu —, não existe contrato velado ou obscuro com uma prostituta. Ambas as partes estão de acordo e sabem muito bem o que vai acontecer (ainda não ouvi falar de nenhum pobre coitado que tenha ido até a delegacia do consumidor denunciar sua profissional do sexo).</p>



<p>Mas, de volta para a reunião: estão sentados à minha frente os proprietários de diversas lojas de diferentes segmentos. O dono da loja de móveis de alto padrão na qual trabalho como vendedor — ou “consultor”, quando se quer passar a impressão de expertise —, o de uma loja de automação residencial, um outro que vende churrasqueiras americanas, mais um de móveis planejados e, finalmente, aquele da loja de tintas. Para mim, isso já é corriqueiro, mas é natural que surjam algumas perguntas em sua cabeça: “Por que esse povo está se reunindo?”, ou, ainda, “e eu com isso?!” — chegaremos lá.</p>



<p class="img-direita"><img decoding="async" width="532" height="306" class="wp-image-16832" src="https://culturadefato.com.br/wp-content/uploads/2023/07/CarteiraPerdida_Peq.jpg" alt="Carteira Perdida (Tamanho Pequeno com Cantos Esfumaçados)">Estamos na zona nobre de Sorocaba, interior de São Paulo. Melhor do que aqui, só em outra cidade, pois, por estas bandas, estamos no melhor ponto. É claro que quando digo “melhor” estou levando em conta apenas o aspecto econômico da coisa, uma vez que se considerarmos o aspecto moral, posso afirmar ter visto mais ética e menos imoralidade em uma biqueira dentro de uma favela, às três da madrugada. Enfim, permita-me explicar como as coisas funcionam no comércio de alto padrão: o cliente, que batalhou a vida toda, construiu seu próprio negócio, empregou um monte de gente, pagou uma tonelada de impostos, levou processos trabalhistas a torto e a direito, quebrou, e tornou a fazer toda essa loucura outra vez apenas por uma obstinação quase que doentia, decide que vai usar seu dinheiro, que não é pouco, contratando uma arquiteta para ajudá-lo a construir sua casa dos sonhos, aquela com a disposição de espaços ideal para o dia a dia de sua família, com a decoração alinhada à sua personalidade, com cores e obras de arte que alimentem seu espírito. Finalmente, um lugar para chamar de lar, para receber os amigos, ter paz, se divertir e descansar: o sonho tão sonhado. O que o sujeito não imagina é que essa mesma arquiteta, que já vai receber uma grana mais do que justa por este serviço, receberá também uma generosa “premiação” de todos esses lojistas que estão, agora mesmo, em minha frente, dando prosseguimento à bendita reunião, discutindo sobre como trazer mais dessas “profissionais” para a loja. Até aí, não há qualquer problema; o lojista tem todo o direito de buscar alternativas para encontrar mais parceiros, assim trazendo mais clientes e lucro para sua empresa, certo? Errado — adivinhe só quem é que paga essa conta… isso mesmo: o cliente.</p>



<p>Essa premiação, incentivo, comissão ou reserva técnica (RT), chame como quiser (propina ou suborno também definem), gira em torno de 10% do valor da compra, e é embutido no preço que o cliente vai pagar. Antes mesmo de que ele apareça na loja, seu confiável arquiteto já avisou o gerente, que avisou o vendedor, que já superfaturou os preços e está só esperando para dar um desconto especial, único, imperdível — e, obviamente, falso —, de modo a despertar no comprador um sentimento de vitória sobre o lojista, nessa disputa que chamamos de negociação, mas que está mais para um jogo de cartas marcadas. O cliente acredita ter feito o melhor negócio de sua vida, e jura que pode até indicar a loja para seus amigos e familiares, mas que nenhum deles conseguirá fechar um negócio tão bom quanto o dele; afinal, até o gerente teve de ir à mesa para melhorar o valor a ser pago, depois ligou para o supervisor das lojas, que ligou para o dono, que autorizou a aplicação de um “desconto especial” — obviamente impraticável e do qual até a mais ingênua das almas desconfiaria. É um teatrinho barato, mas o cliente gosta. E isso se repete em todas as compras realizadas durante a obra: materiais de construção, esquadrias, mármores, móveis planejados, decorações e assim por diante, do tijolo ao sofá, do cimento ao espelho do banheiro do Pedrinho. Ao final de uma obra milionária, quem sai montado no dinheiro é o arquiteto.</p>



<p>Isso é crime? Sim. Alguém já foi preso ou multado por essa prática? Veja, denunciar um arquiteto ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) por receber RT seria como denunciar o Lula à CUT por corrupção. Vai acabar em churrasco, de preferência de picanha e, de preferência, pago pelo cidadão, ou, nesse caso, pelo consumidor.</p>



<p>Pode ser que eu tenha passado a impressão de que me importo com o dinheiro extra que o milionário está desembolsando para manter o estilo de vida pueril de seu arquiteto, como se o acesso semanal a almoços, jantares, bebidas e eventos gratuitos já não o mimassem o suficiente, tudo em nome da boa e velha puxação de saco: quem não é visto não é lembrado, não é mesmo? Mas não é no bolso do meu cliente que está meu ponto de interesse, pelo menos não agora.</p>



<p>O real problema, aqui, não é o crime cometido, o jogo político entre lojistas e arquitetos, a condescendência do CAU, nem muito menos a cegueira quase que voluntária do consumidor. O buraco é mais embaixo. Os mais atentos já perceberam que é possível traçar um paralelo entre o comércio e a política do nosso país, entre os lojistas e os políticos, arquitetos e empreiteiras, clientes e povo. Normalmente, quando se abre a boca para falar dos problemas do Brasil, o primeiro ponto levantado é sempre o da economia, dando a impressão de que somos um país pobre; mas se fôssemos assim tão pobres, não haveria tanto dinheiro para ser roubado. A grana existe, só não chega no povo, ou melhor, não volta para o povo. O segundo ponto é o da corrupção, mas nunca falam disso desde um ponto de vista moral — nunca vi uma discussão moral em toda a minha vida de brasileiro —, mas sempre num tom de “onde é que está esse lamaceiro que nunca nos respinga?”. Quem nunca ouviu um amigo falar, sobre seu candidato, que “todos roubam, mas ele pelo menos faz alguma coisa”? Ou seja, desde que nos sobre alguma esmola, o senhor governo pode nos roubar o quanto quiser.</p>



<p>Quem ainda acredita que nosso problema é puramente político ou econômico não poderia estar mais enganado. Vivemos uma crise muito pior, uma crise moral. Vemos em todos os níveis de nossa sociedade a reprodução do <em>jeitinho brasileiro</em>, do qual tanto nos orgulhamos, sabe lá Deus o porquê. E como é esse jeitinho? É ser malandro, astuto, traiçoeiro e egoísta, notas que nos rebaixam à barbárie, a um estado animalesco, ao individualismo e ao materialismo. Será que é pedir demais um Brasil no qual aquilo pelo que somos lembrados mundo afora sejam valores superiores, nos elevando ao que o ser humano tem de melhor a oferecer, como honra, lealdade, coragem e justiça? Valores que sejam maiores do que nós mesmos, que nos transcendam, que nos lembrem que existe algo para além do cargo público e da casa em condomínio fechado, que somos seres dotados de alma e espírito, que nosso bom Deus, o Bem Supremo, em sua misericórdia infinita, decidiu nos presentear com a existência eterna: é pedir demais?</p>



<p>O desafio está feito para os mais corajosos, aqueles que não temem a solidão, o isolamento, o exílio, que têm a bravura de enfrentar toda a sujeira que encontramos em nosso dia a dia, dentro da nossa família, do trabalho, e, mesmo assim, voltar para casa limpos, de consciência tranquila, sabendo que rejeitaram todos os “benefícios” que uma vida de malandro pode trazer, decidindo por manter sua integridade, sua honra, e não permitindo que o dinheiro se tornasse seu senhor. Pois nós temos essa capacidade, nós podemos escolher o lado do bem, o lado que lance uma nova esperança, que lembre a todos de que somos mais do que animaizinhos em busca dos mais baixos prazeres terrenos.</p>



<p>A única forma de tirar o ser humano de seu estado de selvageria e torná-lo civilizado é através da cultura, esta que Cícero definia como <em>o cultivo do espírito</em>. Há uma herança cultural que nossos antepassados nos deixaram. A maior perda do povo brasileiro não foi o dinheiro; o dano mais grave que nos causaram, o que nos levaram de mais valioso, foi a alta cultura, e é preciso resgatá-la. <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="José Ortega y Gasset (1883 – 1955): filósofo espanhol.">Ortega y Gasset</span> também fala sobre isso:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“É o típico ‘homem do seu tempo’, que despreza o passado e, seguro de que o mundo seguirá em linha reta, abandona a preocupação com o futuro, colocando-se definitivamente no presente. Porém o ser humano é herdeiro de seus antepassados, difere dos outros animais também por possuir memória. O homem tem direito à continuidade. Um tigre é sempre igual ao primeiro tigre, tem que começar de novo, como se não tivesse havido outro tigre antes dele. Mas o homem tem uma herança incalculável de acertos e erros do passado ao seu alcance. Dizer-se um ‘homem do seu tempo’ é uma desculpa de não poder tomar nenhuma medida corretiva, pois o seu mal é um mal do seu tempo, compartido por todos seus contemporâneos.”</p>
</blockquote>



<p>Mas onde fico eu em toda essa história? Como já disse, sou vendedor e estou enfiado nessa bagunça moral todos os dias; o que me conforta é que, apesar do meu trabalho ser extremamente desagradável, meu negócio com o consumidor é bastante claro, e ambas as partes estão sempre de acordo.</p>



<p>Em meio a todas as analogias aqui utilizadas, eu sou o menos pior: eu sou a prostituta.</p>



<br>



<p class="has-text-align-right">Por <a href="https://culturadefato.com.br/author/caiomachado/">Caio Machado</a></p>



<br>



<p class="has-background has-very-light-gray-background-color"><strong>Nota da editoria:</strong><br> <br>Imagem da capa: “<em>At the Antique Dealer&#8217;s Shop</em>” (1919), de Carl Johann Spielter (1851 &#8211; 1922).</p>



<br>
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