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	<title>Machado de Assis, Autor em Cultura de Fato</title>
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	<description>Cultura para evocar inteligência, responsabilidade e ética!</description>
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	<title>Machado de Assis, Autor em Cultura de Fato</title>
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		<title>O dicionário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Machado de Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 16 Oct 2021 03:00:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artes e Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Aníbal]]></category>
		<category><![CDATA[Apeles]]></category>
		<category><![CDATA[Garção]]></category>
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		<category><![CDATA[Jacob Cornelisz]]></category>
		<category><![CDATA[Machado de Assis]]></category>
		<category><![CDATA[Rafael]]></category>
		<category><![CDATA[Rubens]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Leia (ou releia) o atual conto <em>O dicionário</em>, de Machado de Assis, e baixe gratuitamente o livro <em>Linguagem e estilo de Machado de Assis, Eça de Queirós e Simões Lopes Neto</em>, de Aurélio Buarque de Holanda.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">“<em>O segredo do demagogo é de se fazer passar por tão estúpido quanto a sua plateia,</em><br><em>para que esta imagine ser tão esperta quanto ele.</em>”<br>Karl Kraus (1874 – 1936), escritor austríaco.</p>



<hr class="wp-block-separator is-style-wide"/>



<br>



<p class="has-drop-cap">Era uma vez um <span data-tooltip="Profissional que conserta ou faz tonéis, tinas, dornas, barris, pipas e outros vasilhames semelhantes." data-tooltip-position="top">tanoeiro</span>, demagogo, chamado Bernardino, o qual em cosmografia professava a opinião de que este mundo é um imenso tonel de marmelada, e em política pedia o trono para a multidão. Com o fim de a pôr ali, pegou de um pau, <span data-tooltip="Excitar, provocar." data-tooltip-position="top">concitou</span> os ânimos e deitou abaixo o rei; mas, entrando no <span data-tooltip="Residência de rei." data-tooltip-position="top">paço</span>, vencedor e aclamado, viu que o trono só dava para uma pessoa, e cortou a dificuldade sentando-se em cima.</p>



<p>— Em mim, bradou ele, podeis ver a multidão coroada. Eu sou vós, vós sois eu.</p>



<p>O primeiro ato do novo rei foi abolir a <span data-tooltip="Oficina. Onde o tanoeiro faz ou conserta tonéis ou outras vasilhas semelhantes." data-tooltip-position="top">tanoaria</span>, indenizando os tanoeiros, prestes a derrubá-lo, com o título de Magníficos. O segundo foi declarar que, para maior lustre da pessoa e do cargo, passava a chamar-se, em vez de Bernardino, Bernardão. Particularmente encomendou uma genealogia a um grande doutor dessas matérias, que em pouco mais de uma hora o entroncou a um tal ou qual general romano do século IV, Bernardus Tanoarius; – nome que deu lugar à controvérsia, que ainda dura, querendo uns que o rei Bernardão tivesse sido tanoeiro, e outros que isto não passe de uma confusão deplorável com o nome do fundador da família. Já vimos que esta segunda opinião é a única verdadeira.</p>



<p class="img-direita"><a href="https://culturadefato.com.br/downloads/artes_e_literatura/2020/LinguagemEstilo.pdf"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="473" height="596" class="wp-image-10040" src="https://culturadefato.com.br/wp-content/uploads/2021/09/LinguagemEstilo_MachadoAssisEcaQueirosSimoesNeto.jpg" alt="Obra “Linguagem e estilo de Machado de Assis, Eça de Queirós e Simões Lopes Neto”"></a>Como era calvo desde verdes anos, decretou Bernardão que todos os seus súbditos fossem igualmente calvos, ou por natureza ou por navalha, e fundou esse ato em uma razão de ordem política, a saber, que a unidade moral do Estado pedia a conformidade exterior das cabeças. Outro ato em que revelou igual sabedoria, foi o que ordenou que todos os sapatos do pé esquerdo tivessem um pequeno talho no lugar correspondente ao dedo mínimo, dando assim aos seus súbditos o ensejo de se parecerem com ele, que padecia de um calo. O uso dos óculos em todo o reino não se explica de outro modo, senão por uma oftalmia que afligiu a Bernardão, logo no segundo ano do reinado. A doença levou-lhe um olho, e foi aqui que se revelou a vocação poética de Bernardão, porque, tendo-lhe dito um dos seus dois ministros, chamado Alfa, que a perda de um olho o fazia igual a <span data-tooltip="Anibal Barca (247 a. C. - 183 a. C): general e estadista cartaginês. É considerado um dos maiores estrategas militares da história." data-tooltip-position="top">Aníbal</span>, – comparação que o lisonjeou muito, – o segundo ministro, Omega, deu um passo adiante, e achou-o superior a <span data-tooltip="Homero (750 a. C. - 898 a. C.): poeta épico da Grécia Antiga, ao qual tradicionalmente se atribui a autoria dos poemas épicos Ilíada e Odisseia." data-tooltip-position="right">Homero</span>, que perdera ambos os olhos. Esta cortesia foi uma revelação; e como isto prende com o casamento, vamos ao casamento.</p>



<p>Tratava-se, em verdade, de assegurar a dinastia dos Tanoarius. Não faltavam noivas ao novo rei, mas nenhuma lhe agradou tanto como a moça Estrelada, bela, rica e ilustre. Esta senhora, que cultivava a música e a poesia, era requestada por alguns cavalheiros, e mostrava-se fiel à dinastia decaída. Bernardão ofereceu-lhe as coisas mais <span data-tooltip="Que é de um luxo extremo. " data-tooltip-position="top">suntuosas</span> e raras, e, por outro lado, a família bradava-lhe que uma coroa na cabeça valia mais que uma saudade no coração; que não fizesse a desgraça dos seus, quando o ilustre Bernardão lhe acenasse com o principado; que os tronos não andavam a rodo, e mais isto, e mais aquilo. Estrelada, porém resistia à sedução.</p>



<p>Não resistiu muito tempo, mas também não cedeu tudo. Como entre os seus candidatos preferia secretamente um poeta, declarou que estava pronta a casar, mas seria com quem lhe fizesse o melhor <span data-tooltip="Pequena composição poética em que, engenhosa e galantemente, se celebra uma dama." data-tooltip-position="top">madrigal</span>, em concurso. Bernardão aceitou a cláusula, louco de amor e confiado em si: tinha mais um olho que Homero, e fizera a unidade dos pés e das cabeças.</p>



<p>Concorreram ao certame, que foi anônimo e secreto, vinte pessoas. Um dos madrigais foi julgado superior aos outros todos; era justamente o do poeta amado. Bernardão anulou por um decreto o concurso, e mandou abrir outro; mas então, por uma inspiração de insigne maquiavelismo, ordenou que não se empregassem palavras que tivessem menos de trezentos anos de idade. Nenhum dos concorrentes estudara os clássicos: era o meio provável de os vencer.</p>



<p>Não venceu ainda assim porque o poeta amado leu à pressa o que pôde, e o seu madrigal foi outra vez o melhor. Bernardão anulou esse segundo concurso; e, vendo que no madrigal vencedor as locuções antigas davam singular graça aos versos, decretou que só se empregassem as modernas e particularmente as da moda. Terceiro concurso, e terceira vitória do poeta amado.</p>



<p>Bernardão, furioso, abriu-se com os dois ministros, pedindo-lhes um remédio pronto e enérgico, porque, se não ganhasse a mão de Estrelada, mandaria cortar trezentas mil cabeças. Os dois, tendo consultado algum tempo, voltaram com este alvitre:</p>



<p>— Nós, Alfa e Omega, estamos designados pelos nossos nomes para as coisas que respeitam à linguagem. A nossa ideia é que Vossa Sublimidade mande recolher todos os dicionários e nos encarregue de compor um vocabulário novo que lhe dará a vitória.</p>



<p>Bernardão assim fez, e os dois meteram-se em casa durante três meses, findos os quais depositaram nas augustas mãos a obra acabada, um livro a que chamaram Dicionário de Babel, porque era realmente a confusão das letras. Nenhuma locução se parecia com a do idioma falado, as consoantes trepavam nas consoantes, as vogais diluíam-se nas vogais, palavras de duas sílabas tinham agora sete e oito, e vice-versa, tudo trocado, misturado, nenhuma energia, nenhuma graça, uma língua de cacos e trapos.</p>



<p class="img-direita"><a href="https://culturadefato.com.br/a-carteira/"><img decoding="async" width="571" height="327" class="wp-image-10038" src="https://culturadefato.com.br/wp-content/uploads/2021/09/CarteiraPerdida.jpg" alt="Carteira Perdida"></a>— Obrigue Vossa Sublimidade esta língua por um decreto, e está tudo feito.</p>



<p>Bernardão concedeu um abraço e uma pensão a ambos, decretou o vocabulário, e declarou que ia fazer-se o concurso definitivo para obter a mão da bela Estrelada. A confusão passou do dicionário aos espíritos; toda a gente andava atônita. Os <span data-tooltip="Pessoa galhofeira, fanfarrona." data-tooltip-position="top">farsolas</span> cumprimentavam-se na rua pela novas locuções: diziam, por exemplo, em vez de: Bom dia, como passou? – <em>Pflerrgpxx, rouph, aa</em>? A própria dama, temendo que o poeta amado perdesse afinal a campanha, propôs-lhe que fugissem; ele, porém, respondeu que ia ver primeiro se podia fazer alguma coisa. Deram noventa dias para o novo concurso e recolheram-se vinte madrigais. O melhor deles, apesar da língua bárbara, foi o do poeta amado. Bernardão, alucinado, mandou cortar as mãos aos dois ministros e foi a única vingança. Estrelada era tão admiravelmente bela, que ele não se atreveu a magoá-la, e cedeu.</p>



<p>Desgostoso, encerrou-se oito dias na biblioteca, lendo, passeando ou meditando. Parece que a última coisa que leu foi uma sátira do poeta <span data-tooltip="Pedro António Correia Garção (1724 - 1772): poeta português. Frequentou a Universidade de Coimbra, mas não terminou os estudos." data-tooltip-position="top">Garção</span>, e especialmente estes versos, que pareciam feitos de encomenda:</p>



<p>O raro  <span data-tooltip="Apeles de Cós (370 a. C. 306 a. C.): renomado pintor da Grécia Antiga." data-tooltip-position="right">Apeles</span>,</p>



<p><span data-tooltip="Peter Paul Rubens (1577 - 1640): pintor brabantino do estilo barroco." data-tooltip-position="right">Rubens</span> e <span data-tooltip="Rafael Sanzio (1483 - 1520): mestre da pintura e da arquitetura da escola de Florença durante o Renascimento italiano, celebrado pela perfeição e suavidade de suas obras." data-tooltip-position="right">Rafael</span>, inimitáveis</p>



<p>Não se fizeram pela cor das tintas;</p>



<p>A mistura elegante os fez eternos.</p>



<br>



<p class="has-text-align-right">Escrito por <span data-tooltip="Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908): escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil." data-tooltip-position="top"><a href="https://culturadefato.com.br/author/machadodeassis/">Machado de Assis</a></span> (1839 – 1908).</p>



<br>



<p class="has-background has-very-light-gray-background-color"><strong>Nota da editoria:</strong><br><br>Imagem de capa: “<span data-tooltip="Laughing fool, em português: ''tolo rindo''." data-tooltip-position="top"><em>Laughing Fool</em></span>”, possivelmente criada por <span data-tooltip="Jacob Cornelisz van Oostsanen (1470 - 1533): pintor e desenhista de xilogravuras holandês, um dos primeiros grandes artistas a trabalhar em Amsterdã, na Renascença flamenga." data-tooltip-position="top"><a href="https://www.museothyssen.org/en/collection/artists/cornelisz-van-oostsanen-jacob" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Jacob Cornelisz</a></span> (1470 &#8211; 1533).</p>



<br>
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		<title>A carteira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Machado de Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Aug 2021 03:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artes e Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Machado de Assis]]></category>
		<category><![CDATA[Moralidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este conto de Machado de Assis foi publicado originalmente no jornal <em>A Estação</em>, em 15 de março de 1884. Acesse para fazer o <em>download</em> do exemplar digitalizado.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">Este conto foi publicado originalmente no jornal <em>A Estação</em>, em 15 de março de 1884.<br>Para fazer o <em>download</em> do exemplar digitalizado, <a href="http://www.culturateca.com.br/wp-content/uploads/2015/11/AEstacao15031884.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">clique aqui</a> ou na imagem abaixo.</p>



<hr class="wp-block-separator is-style-wide"/>



<br>



<p class="has-drop-cap">…De repente, Honório olhou para o chão e viu uma carteira.</p>



<p>Abaixar-se, apanhá-la e guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.</p>



<p style="padding-left: 30px;">— É verdade, concordou Honório envergonhado.</p>



<p>Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que não havia remédio senão ir descontando o futuro.</p>



<p>Endividou-se. Começou pelas contas de lojas e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, uma <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="Abismo.">voragem</span>.</p>



<p style="padding-left: 30px;">—Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C…, advogado e familiar da casa.</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Agora vou, mentiu o Honório.</p>



<p>A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="Proporcionar o que é preciso a.">monta</span>, e constituintes remissos; por desgraça perdera ultimamente um processo, com que fundara grandes esperanças. Não só recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo caso, andavam <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="Infeliz. Acanhado. Avarento. Turbulento. De mau gênio.">mofinas</span> nos jornais.</p>



<p>D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia uma ou duas <span data-tooltip-position="top" data-tooltip="Graça. Faceto. Malícia disfarçada que um dito ou um escrito encerra.">pilhérias</span>, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.</p>



<p>Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Nada, nada.</p>



<p>Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria.</p>



<p class="img-direita"><a href="https://culturadefato.com.br/downloads/artes_e_literatura/2020/a-estacao-de-15-de-Marco-de-1884.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><img decoding="async" width="376" height="560" class="wp-image-9323" src="https://culturadefato.com.br/wp-content/uploads/2021/08/JornalAEstacao.jpg" alt="Jornal “A Estação”, de 15 de março de 1884"></a>Mas as esperanças voltavam com facilidade. A ideia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para a luta. Estava com, trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou: emprestado, para pagar mal, e a más horas.</p>



<p>A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde.</p>



<p>Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua. da Assembleia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.</p>



<p>Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, — enfiou depois pela Rua da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão irônica e de censura. Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida?</p>



<p>Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a <span data-tooltip-position="right" data-tooltip="Casa onde se guardam carruagens. Local onde se alojam cavalos.">cocheira</span>. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.</p>



<p>Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos mil-réis, algumas de cinquenta e vinte; calculou uns setecentos mil-réis ou mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes. Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.</p>



<p>Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar para quê? era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório teve um calafrio.</p>



<p>Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um anjo… Honório teve pena de não crer nos anjos…</p>



<p>Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou de ver se havia na carteira algum sinal.</p>



<p class="img-direita"><a href="https://culturadefato.com.br/lei-do-certo-e-do-errado/"><img loading="lazy" decoding="async" width="439" height="255" class="wp-image-9326" src="https://culturadefato.com.br/wp-content/uploads/2021/08/JusticaPeq.jpg" alt="Estátua da justiça"></a>“Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do dinheiro,” pensou ele.</p>



<p>Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?… Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.</p>



<p>A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.</p>



<p>“Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer.” Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado e a própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Nada.</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Nada?</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Por quê?</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Mete a mão no bolso; não te falta nada?</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso.</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Sabes se alguém a achou?</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Achei-a eu, disse Honório entregando-lhe.</p>



<p>Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe as explicações precisas.</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Mas conheceste-a?</p>



<p style="padding-left: 30px;">— Não; achei os teus bilhetes de visita.</p>



<p>Honório deu duas voltas, e foi mudar de toalete para o jantar.</p>



<p>Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.</p>



<br>



<p class="has-text-align-right">Escrito por <span data-tooltip="Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908): escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil." data-tooltip-position="top"><a href="https://culturadefato.com.br/author/machadodeassis/">Machado de Assis</a></span> (1839 – 1908).</p>



<br>



<p class="has-background has-very-light-gray-background-color"><strong>Adendo</strong>: <br><br>O <em>website</em> da <span data-tooltip="ABL: Academia Brasileira de Letras." data-tooltip-position="top">ABL</span> dispõe de um conteúdo denominado Índice do Vocabulário de Machado de Assis (IVMA). Acesse-o <a href="https://www.academia.org.br/nossa-lingua/indice-do-vocabulario-de-machado-de-assis" target="_blank" rel="noreferrer noopener">clicando aqui</a> ou na imagem.</p>



<br>
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		<title>Um apólogo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Machado de Assis]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 18 Jul 2020 22:15:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artes e Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Machado de Assis]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Leia a clássica, pequena e sempre atual parábola dos objetos de costura: "Um Apólogo". Escrito pelo fundador e primeiro presidente unânime da ABL (Academia Brasileira de Letras): Machado de Assis.</p>
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<p class="has-text-align-center">“<em>A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal.</em>”,<br><span data-tooltip="Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908): escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil." data-tooltip-position="bottom">Machado de Assis</span> (1839 – 1908).</p>



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<p class="has-drop-cap">Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:</p>



<p>— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?</p>



<p>— Deixe-me, senhora.</p>



<p>— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.</p>



<p>— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.</p>



<p>— Mas você é orgulhosa.</p>



<p>— Decerto que sou.</p>



<p>— Mas por quê?</p>



<p>— É boa! Porque <span data-tooltip="Dar pontos de agulha em." data-tooltip-position="right">coso</span>. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?</p>



<p>— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?</p>



<p>— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…</p>



<p>— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando…</p>



<p>— Também os batedores vão adiante do imperador.</p>



<p>— Você é imperador?</p>



<p>— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…</p>



<p>Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os <span data-tooltip="Exímia caçadora da mitologia grega que possuía cães farejadores que iam à frente farejando a caça." data-tooltip-position="top">galgos de Diana</span> — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:</p>



<p>— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.</p>



<p>A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o&nbsp;<em>plic-plic plic-plic</em>&nbsp;da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.</p>



<p>Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para <span data-tooltip="Fazer escárnio." data-tooltip-position="right">mofar</span> da agulha, perguntou-lhe:</p>



<p>— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.</p>



<p>Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:</p>



<p>— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.</p>



<p>Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!</p>



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<p class="has-text-align-right">Escrito por <span data-tooltip="Joaquim Maria Machado de Assis (1839 - 1908): escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil." data-tooltip-position="top"><a href="https://culturadefato.com.br/author/machadodeassis/">Machado de Assis</a></span> (1839 – 1908).</p>



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<p class="has-background has-very-light-gray-background-color">Vale mencionar: o <em>website</em> da <span data-tooltip="ABL: Academia Brasileira de Letras." data-tooltip-position="top">ABL</span>, dispõe de um conteúdo denominado Índice do Vocabulário de Machado de Assis (IVMA). Acesse-o <a href="https://www.academia.org.br/nossa-lingua/indice-do-vocabulario-de-machado-de-assis" target="_blank" rel="noreferrer noopener">clicando aqui</a> ou na imagem.</p>



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