O texto desta postagem foi encontrado em um antigo arquivo do Microsoft Word (formato “.doc”) contendo diversas colagens (séries de parágrafos coesos, mas cada qual tratando de assuntos distintos). No final do trecho aqui reproduzido havia a indicação “G. K. Chesterton”. Contudo, o conteúdo não parece corresponder a um escrito autêntico de Chesterton, mas sim a uma síntese de seu pensamento. Por essa razão, optamos por não atribuir o texto a nenhum autor específico.
Quando abri meus olhos neste mundo pela primeira vez, tanto quanto posso recordar, não me encontrei no topo de uma montanha, mas no fundo de um poço escuro. O mundo era um grande poço, e o céu era uma pequena abertura. Eu precisava lutar para sair do poço e olhar o mundo. O mundo, eu pensava, era muito maior do que os elementos que estavam imediatamente ao meu redor; e isso despertou em mim um sentimento que ainda permanece hoje: o desejo de compreender a vastidão das coisas e a pequenez de nós mesmos.
Minhas primeiras impressões estão repletas da ideia de assombro, e acredito que esse senso de maravilha nunca me abandonou. Lembro-me de sentir espanto não apenas diante de estrelas e montanhas, mas também de pedras e poeira. Tudo era exaltado. Tudo era estranho. As convenções aceitas eram o inesperado; e o inesperado parecia natural. Era como se todo o universo fosse uma performance teatral selvagem, e eu tivesse entrado sem pagar.
Mesmo criança, eu tinha o mais forte impulso não apenas de ver as coisas, mas de vê-las como maravilhosas. O fato de uma árvore dar frutos era tão surpreendente quanto o fato de uma árvore produzir rodas. Eu não sabia a verdadeira razão pela qual as árvores davam frutos; mas sentia instintivamente que, se dessem locomotivas, não seria mais miraculoso.
Eu sentia nos ossos que o mundo não se explica por si mesmo. Pode ser um milagre com uma explicação sobrenatural; pode ser um truque de ilusionismo com uma explicação natural. Mas a explicação, seja qual for, não elimina o milagre. O sol nasce todas as manhãs; eu não me levanto todas as manhãs. A inconsistência é o sinal da magia; como toda magia, é incalculável. Posso acordar e encontrar o sol nascendo; inversamente, posso acordar e me encontrar transformado em um sapo.
Todos nós esquecemos o que realmente somos. Todos nós esquecemos que o cosmos é algo estranho e surpreendente. Todos nós esquecemos que estamos de pé sobre uma estrela errante, girando pelo vazio como uma tocha gigantesca lançada por uma mão invisível. E, porque esquecemos isso, caímos naquela doutrina sombria de que o universo é comum.
Para o homem comum, o mundo não é imortal; nem mesmo é sério. É uma piada, e ele faz parte da piada. Apenas quando sente que a piada é algo grande demais ou terrível demais para ele é que começa a levar o universo a sério. Apenas quando vê que a piada é, na verdade, uma zombaria cósmica feita contra si, começa a perguntar por que tal zombaria existe.
Autor desconhecido.
Revisado pela Editoria da Cultura de Fato.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “Caminhante sobre o mar de névoa” (1818), de Caspar David Friedrich (1774 – 1840).





