Excertos da obra “Pensamentos“, de Blaise Pascal (1623 – 1662).
“Pensamentos“ refere-se a uma coleção de fragmentos, notas e ensaios redigidos
pelo próprio matemático, físico, inventor, filósofo e teólogo francês. Pascal começou
a trabalhar nesses textos por volta de 1656, mas a obra nunca foi concluída devido à sua morte
prematura, em 1662. Postumamente, os manuscritos foram organizados e publicados por seus amigos e colaboradores.
Há os falsos e os verdadeiros. É preciso uma marca para conhecê-los; do contrário, seriam inúteis. Ora, não são inúteis, e são, ao contrário, fundamentos. É preciso que a regra que se nos dá seja tal que destrua a prova que os verdadeiros milagres dão da verdade, que é o fim principal dos milagres.
Se não houvesse falsos milagres, haveria certeza. Se não houvesse regra para discerni-los, os milagres seriam inúteis, e não haveria razão para crer.
Moisés deu uma, que é quando o milagre conduz à idolatria (Deuteronômio XIII, 1–3); e Jesus Cristo, uma: “Aquele”, disse ele, “que faz milagres em meu nome não pode, ao mesmo tempo, falar mal de mim” (Marcos IX, 38).
De onde se conclui que quem quer que se declare abertamente contra Jesus Cristo não pode fazer milagres em seu nome. Assim, se os fizer, não será em nome de Jesus Cristo e não deve ser escutado. Eis marcadas as ocasiões de excluir a fé nos milagres. É preciso não fazer outras exclusões: no Antigo Testamento, quando vos desviarem de Deus; no Novo, quando vos desviarem de Jesus Cristo. Portanto, logo que se vê um milagre, é preciso ou submeter-se, ou ter estranhas marcas do contrário; é preciso ver se aquele que o faz nega a Deus, ou Jesus Cristo, ou a Igreja.
Toda religião é falsa quando, em sua fé, não adora a Deus como princípio de todas as coisas e, em sua moral, não ama um só Deus como objeto de todas as coisas. Toda religião que não reconhece agora Jesus Cristo é notoriamente falsa, e os milagres não podem servir-lhe de nada.
Os judeus tinham uma doutrina de Deus, como nós temos uma de Jesus Cristo, confirmada por milagres, e que proíbe que se creia em todo fazedor de milagres, assim como ordena que se recorra aos grandes sacerdotes e que se fique com eles. E assim, todas as razões que temos para recusar crédito aos fazedores de milagres, eles as tinham em relação aos seus profetas.
No entanto, eles eram bem culpáveis quando recusavam os profetas por causa dos seus milagres — e também Jesus Cristo — e não teriam sido culpáveis se não tivessem visto os milagres: Si opera non fecissem in eis quae nemo alius fecit, peccatum non haberent (João XV, 24). “Se eu não tivesse feito entre eles obras que jamais nenhum outro fez, eles não teriam pecado.”
Donde se conclui que ele julgava que os seus milagres eram provas certas do que ensinava, e que os judeus tinham obrigação de crer nele. E, com efeito, eram particularmente os milagres que tornavam os judeus culpáveis em sua incredulidade. As provas que Jesus Cristo e os apóstolos tiram da Escritura não são demonstrativas. Com efeito, dizem somente que Moisés disse que um profeta viria; mas não provam por isso que este seja aquele — e era toda a questão. Essas passagens só servem, pois, para mostrar que não é contrário à Escritura e que não se lhe tem repugnância, mas não que haja acordo.
As profecias, por si sós, não podiam provar Jesus Cristo durante sua vida; e, assim, não se teria tido culpa de não crer nele antes de sua morte, se os milagres não tivessem bastado sem a doutrina. Ora, os que não criam nele ainda vivo eram pecadores, como ele próprio o diz, e sem escusa. Portanto, era preciso que tivessem uma demonstração à qual resistissem. Ora, eles não tinham a exposição, mas só os milagres. Portanto, bastam eles, quando a doutrina cristã não é contrária — e se deve crer neles.
Jesus Cristo verificou que ele era o Messias nunca verificando sua doutrina sobre a Escritura e as profecias, mas sempre pelos milagres.
Os milagres serviram à fundação e servirão à continuação da Igreja até o Anticristo, até o fim.
Ou Deus, a fim de conservar essa prova em sua Igreja, confundiu os falsos milagres — ou os predisse. E, por um e outro, elevou-se acima do que é sobrenatural em relação a nós e nos elevou a nós mesmos.
Acontecerá o mesmo no futuro: ou Deus não permitirá falsos milagres, ou proporcionará maiores. Pois os milagres têm tal força, que foi preciso que Deus advertisse que não se pensasse neles — quando fossem contra Ele —, de tal maneira é claro que há um Deus; sem o que, eles teriam sido capazes de perturbar.
E assim, está muito longe de que essas passagens do terceiro capítulo do Deuteronômio, que dizem que é preciso não crer nem escutar os que fizerem milagres e se desviarem do serviço de Deus, e de que a de São Marcos: “Elevar-se-ão falsos Cristos e falsos profetas, que farão coisas assombrosas, até seduzirem, se possível, os próprios eleitos” (Marcos XIII, 22), e algumas outras semelhantes, façam algo contra a autoridade dos milagres, cuja força por nada mais do que isso é marcada.
Por Blaise Pascal (1623 – 1662).
Trechos da obra Pensamentos.
Nota da editoria:
Imagem da capa: “O Casamento em Caná” (1563), de Paolo Caliari Veronese (1528 – 1588).









