A vertigem que perdemos

Recorte da obra: "The Questioner of the Sphinx" (1863), de Elihu Vedder (1836–1923).

O último passo da razão é reconhecer que há uma infinidade de coisas que a ultrapassam.
Blaise Pascal (1623–1662)



Há poucos dias subi a um lugar muito alto. Instintivamente olhei para baixo. Meu corpo enrijeceu, as pernas balançaram e senti aquela velha sensação de que a própria altura nos lembra de recuar. Quem estava comigo também olhou para baixo. Nenhum de nós conseguiu ignorar a altura.

Voltei para casa pensando que a natureza criou um mecanismo extraordinário. Quanto maior a altura, maior a cautela. A vertigem não existe para impedir que subamos. Existe para impedir que esqueçamos onde estamos.

Foi então que me ocorreu uma pergunta.

Por que esse mecanismo desativa justamente quando a altura deixa de ser física e passa a ser intelectual?

Já passei dos sessenta anos. Li milhares de páginas, lecionei por mais de trinta e cinco anos e continuo estudando todos os dias.

Se existe uma conclusão à qual todo esse tempo me conduziu, ela é quase um paradoxo.

O conhecimento não elimina a ignorância, apenas ilumina suas fronteiras. Cada resposta revela perguntas que antes sequer existiam. Aprender não é acumular certezas, mas ampliar, continuamente, a consciência daquilo que ainda desconhecemos.

Descobri também que estudar produz um efeito inesperado. Não nos transforma em proprietários da verdade. Apenas reduz nossa arrogância diante dela. Continuamos sem saber exatamente o que fazer em muitas situações, mas passamos a reconhecer, com muito mais clareza, aquilo que repetidamente não deveria ser feito. A maior utilidade do conhecimento não é eliminar a dúvida, mas impedir que deixemos de duvidar.

Talvez por isso as pessoas mais preparadas dificilmente são as sempre mais categóricas.

O curioso é que vivemos exatamente a época oposta.

Nunca foi tão fácil encontrar especialistas instantâneos. Pessoas que jamais estudaram geopolítica distribuem certezas sobre conflitos milenares. Quem nunca abriu um tratado de economia apresenta soluções definitivas para países inteiros. Jovens que mal começaram a viver falam da vida como quem já escreveu o último capítulo.

Quase ninguém demonstra a menor vertigem.

O conhecimento amplia o horizonte, e a inteligência nunca consistiu na ausência de dúvidas, mas na capacidade de conservar a vertigem diante daquilo que pensamos saber.


Escrito por Alex Pipkin, PhD.
Publicado originalmente no website de Percival Puggina, em 31 de julho de 2026.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “The Questioner of the Sphinx” (1863), de Elihu Vedder (1836–1923).

A pintura foi escolhida por representar a postura que inspira este ensaio: a de quem compreende que o conhecimento não consiste em possuir todas as respostas, mas em conservar a humildade diante das perguntas que permanecem sem resposta.




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