Hiperativos, mas passivos

Recorte da obra: "The Noonday Rest" (c. 1865-1867), de Jean-François Millet (1814 - 1875).

O mundo de hoje carece de pausa, de interrupções, em suma, de negatividade.
Byung-Chul Han, A sociedade do cansaço



Muitos reconhecem que Albert Einstein formulou a Teoria da Relatividade; pouquíssimos sabem como. O fez enquanto assistia ao extinto programa de auditório, SuperPop, comandado por Luciana Gimenez — ele não queria perder nenhuma fala do entrevistado, Jair Messias Bolsonaro, que anos mais tarde se tornaria presidente do Brasil. Mas as curiosidades não param por aí: enquanto dava forma à complexa teoria, Einstein simultaneamente configurava seu smartphone, respondia mensagens de WhatsApp e, mesmo estando em casa, atendia às solicitações do Escritório Federal Suíço de Patentes, que insistia em cobrar alguns relatórios.

O parágrafo acima é absurdo, porém reflete a dinâmica dos dias atuais. Reagir a tudo não nos torna como Albert Einstein, apenas nos aproxima dos animais — quanto menos uma ação for guiada pela razão e pela reflexão, mais próxima ela estará do instinto. O homem pode, por exemplo, submeter-se voluntariamente a algo desagradável — como uma cirurgia — porque é capaz de refletir que aquilo que é ruim ou doloroso no presente poderá ser benéfico no futuro.

Entretanto, além de exaltar reações condicionadas e contrárias à capacidade de reflexão, a dinâmica contemporânea também frequentemente nos induz a lidar simultaneamente com múltiplos afazeres, mesmo que não sejamos multitarefa — apenas alternamos entre trabalhos, desperdiçando tempo a cada mudança e amplificando as chances de erro.

Contudo, pessoas hiperativas comumente são passivas. Dizer “não” é uma ação, portanto não significa ser inerte; aliás, normalmente ocorre o contrário: dizer “não” exige esforços abissais, como interromper fluxos, gerenciar conflitos e explicar pontos ignorados por muitos. Em outras palavras, há uma diferença enorme entre “recebi, vou analisar” e “recebi, vou fazer” (podendo significar “recebi, vou me livrar”). Permita-me ilustrar.

Certa vez fui escalado para gerenciar uma equipe que estava muito atrasada na construção de um sistema que, depois de certificado, funcionaria uma única vez para atualizar e transferir milhares de documentações de uma plataforma para outra. Antes de assumir, o gestor que eu iria substituir disse: “Só há uma ‘ovelha negra’. A equipe é ótima”!

No primeiro dia de minha gestão fiz uma longa e inevitável reunião, na qual busquei reconhecer em que ponto estávamos e quais os possíveis fatores poderiam nos retardar ainda mais. Porém, todos eram extremamente otimistas; não fossem as observações da “ovelha negra”, ficaria difícil reconhecer os reais motivos do atraso.

Problemas técnicos e comportamentais se fundiam, algo que confirmei em uma reunião ocorrida no segundo dia. Eles estavam utilizando uma tecnologia recentemente homologada pela empresa e por eles desconhecida — não desejavam aplicá-la por ser a mais adequada, queriam usá-la para aprendê-la —; estavam decifrando suas tarefas individualmente e ignorando as integrações entre elas, portanto desprezavam a complexidade do conjunto; como aquele projeto era de uso único, em paralelo, estavam buscando e assumindo outras responsabilidades; por fim, eles não falavam o que realmente deveria ser dito, mas apenas aquilo que seria agradável aos ouvidos dos gestores; claro, a “ovelha negra” era a exceção, sendo, na verdade, um “Veríssimo”.

No terceiro dia, fiz uma reunião que persistiu durante todo o expediente, solicitei que desenhassem o fluxo de suas tarefas e anotassem diversos detalhes. Foram solícitos; mal fiz esse pedido, e eles começaram a avaliar quais as aplicações usariam para tanto. Porém, naquele momento deixei-os na sala, fui até a impressora e peguei uma resma de papel A3 e muitos lápis (talvez, uma grosa), voltei para a sala e disse que aquelas seriam as tecnologias que usaríamos até compreender claramente o que deveríamos fazer. Aquela “reunião” prosseguiu também no dia seguinte.

Foram dois dias repletos de reclamações entre eles; contudo, outro gestor me disse: “Você não deveria ter tomado esta decisão; se este projeto falhasse, ninguém iria lhe aborrecer (estava fadado ao fracasso), mas agora, qualquer ‘tropeço’ irá lhe gerar problemas”.

Porém, contrariando todas as previsões, o trabalho foi concluído com êxito e entregue uma semana antes do previsto, graças à “quebra” de alguns vícios daqueles colaboradores.

Agiam como caçadores de métricas, eram demasiadamente otimistas, adoravam trabalhar enquanto aprendiam coisas novas, não sabiam dizer “não” e jamais contradiziam gestores. Enfim, só possuíam orgulho da quantidade de trabalhos realizados e da quantidade de conhecimentos acumulados, nunca refletiam ou contemplavam seus feitos. Não notavam que, assim como só é possível realmente amar a justiça, odiando a injustiça; só é possível estar verdadeiramente comprometido com alguma coisa se estiver descomprometido com outras.

Talvez o problema fique ainda mais claro expondo um pequeno diálogo que recentemente tive com um marceneiro, que contratei para um trabalho residencial, portanto particular.

Apresentei um espaço para Maciel — o marceneiro — e solicitei que ele sugerisse ideias para que ali fosse construída uma mesa de trabalho, mais prateleiras ou estantes para armazenar livros. Ele fotografou aquele espaço, me deu algumas sugestões e me disse que, no dia seguinte, depois de pensar um pouco mais, iria me sugerir algo mais concreto. Todavia, o que realmente chamou minha atenção foi sua fala quase ao término daquela visita: “Gosto de trabalhar assim. Tem cliente que nunca pede sugestão, mas solicita ‘um canto arredondado’, depois, outro ‘com ângulo reto’, um nicho, depois uma prateleira e assim sucessivamente até o final do projeto. Quando o trabalho é concluído, nem considero que seja realmente o ‘meu trabalho’ — não dá vontade nem de publicar no Instagram. Sua mesa e suas estantes ou prateleiras, se você permitir, colocarei nas redes sociais”.

Fatidicamente, quando o sujeito reflete e contempla aquilo que ele realmente está fazendo, deixa de enxergar a obra como mera execução de uma ou mais demandas e passa a estabelecer uma relação pessoal com a obra. Naquele projeto, chamavam Veríssimo de “ovelha negra” quando, na realidade, era o único que parava para contestar, parava para reclamar e também para contemplar.

Quem trabalha como uma máquina não para, portanto não contempla nem reclama. Por esses motivos Veríssimo e Maciel são verdadeiros Albert Einstein para os dias atuais.


Por Eric M. Rabello.


Nota do autor: A data de criação do arquivo deste artigo aponta 18 de janeiro de 2022. Ou seja, depois de criado, ele foi abandonado. Porém, as observações que relatei eram recorrentes para além do projeto aqui reportado; entretanto, eu ainda não havia pesquisado o tema o suficiente para encontrar fundamentos que sustentassem minha percepção de que a hiperatividade pode assumir a forma de hiperpassividade ou de que o excesso de otimismo e de desempenho pode, em determinadas circunstâncias, produzir efeitos mais prejudiciais do que benéficos. Mais recentemente, li A sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, e encontrei na obra uma reflexão que estabelece uma fortíssima conexão com o conceito que aqui expus.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “The Noonday Rest” (c. 1865-1867), de Jean-François Millet (1814-1875).




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