Excerto da obra “As Grandes Teses da Filosofia Tomista”

Recorte da obra: "A Seated Man Contemplating a Sunlit Mountain Valley" (c. 1825), de Jakob Alt (1789-1872).

Há textos que explicam uma ideia. Outros nos fazem perceber que havíamos esquecido perguntas fundamentais.

Nós, da Cultura de Fato, consideramos particularmente admirável a importância dos conceitos desenvolvidos na obra “As Grandes Teses da Filosofia Tomista”, de A. D. Sertillanges, e a maneira como o autor os apresenta. Neste trecho, ele expõe, com extraordinária profundidade, a relação entre o homem e o conhecimento.

É um excerto do primeiro capítulo da obra. Será de grande valia se esta leitura o fizer abandonar esta tela e procurar, nas páginas do livro, aquilo que nenhum fragmento publicado na internet pode substituir.



A filosofia diante do real, é um pensamento diante do caos.

É que as coisas, embora externamente regidas por uma ordem maravilhosa que nos faz supor, na íntima constituição delas, uma ordem ainda mais admirável, são, de fato, para nós um caos. É que essa ordem que nelas reconhecemos ou supomos nos escapa em tantos pormenores que a inteligência fica sempre insatisfeita; e, mais ainda, mesmo nas suas linhas gerais, escapa-nos nas modalidades mais íntimas, de modo que, quanto mais observamos, mais perdidos no mistério nos vemos. E, apesar disso, o apetite de conhecer não se extingue. Embora certas expressões da nossa constituição originária, que é um “eu” antes do nosso “eu”, pareçam sugerir o contrário, este instinto é, de fato, o mais insaciável de todos. Desejaríamos que o nosso conhecimento fosse exaustivo; o nosso ideal seria, como o de Mallarmé, fazer do “Livro”, expressão da nossa ciência, “o hino das relações entre todas as coisas”; e invejamos o “espírito esférico” de Amiel, que vê tudo e sabe tudo porque tudo abarca. A nossa aspiração, na aparência mais modesta, mas de fato idêntica, e por isso mesmo sempre parcialmente frustrada, é reduzir o mundo à sua perfeita unidade e, ao mesmo tempo, apreendê-lo em cada um dos seus valores e em cada um dos cambiantes de beleza, vinculando-o ao seu Deus.

É este o objeto da ciência.

À medida que o ser se revela, este objeto vai-se definindo e subdividindo, mostrando-se sob várias formas; mas, apesar dessas metamorfoses, as inquietações do espírito acabam sempre por se reduzir aos seguintes problemas: Qual é o elemento fundamental de que são formadas todas as coisas? Esse substrato será o mesmo em todos os seres, ou será a realidade composta de partes heterogêneas? — Quais os princípios de organização a que a natureza obedece? — Que ideias, e que ideia fundamental, resplandecem nela? — De onde provém a ação que nela se exerce e sob que formas? Não terá este cenário explicação em algum maravilhoso mecanismo? Em suma: com que finalidade se move tudo isto? Que obra se realizará em cada uma das partes e no conjunto?

Capa da obra As Grandes Teses da Filosofia Tomista”, de A. D. Sertillanges.Estas diversas interrogações levantam o problema das causas nos seus quatro aspectos possíveis, os quais, tratando-se, por exemplo, de uma estátua, se resumiriam nestas quatro perguntas: — de que é feita? — que representa? — quem a esculpiu? — a que fim se destina?

Na resposta a estas perguntas está o segredo do mundo. Examinar a substância, analisá-la e interpretá-la em sua contextura, observar os segredos da técnica e identificar o artista, conhecer, além disso, o fim que se tem em vista, não constituirá um conhecimento integral?

Resta, porém, ainda outro ponto que deve ser completamente esclarecido com a resposta a uma nova pergunta. Como se explicaria que fizéssemos aquelas perguntas se não tivéssemos já algum conhecimento das coisas? Não haverá certa correlação entre a natureza das coisas e o conhecimento que delas possuímos? Começamos a suspeitar que, neste caso, o meio para chegar à descoberta coincide com a própria descoberta; porque o conhecimento é uma apropriação, uma adaptação, e toda adaptação é recíproca.

Olhamos para o mundo; e que significa olhar? — Pensamos; e que é pensar? — Além disso, que somos nós? — Que realidade é esta, que vê e pensa, precisamente enquanto vê e enquanto pensa? Que relação existe entre o conhecedor e o conhecido, no próprio ato de conhecer, e anteriormente na capacidade de conhecer e de ser conhecido?

Eis um velho problema que já Platão tomou como ponto de partida e Aristóteles retomou e debateu profundamente; e, no fim das contas, embora criticando o mestre, reeditou fundamentalmente o platonismo.

Veio Santo Tomás de Aquino, recolheu esses estudos, completou-os, corrigiu-os e, desde então, ninguém apresentou síntese mais perfeita que a desses três gênios reunidos. Os nossos esforços devem agora limitar-se, se não queremos afastar-nos da verdade, a determinar melhor certos pormenores que, neste assunto, podem ter imensa importância e, principalmente, a aprofundar por nós mesmos aquilo que pode ser aprofundado sempre mais e, até, sendo possível, enriquecer a tese.


Extraído da obra As Grandes Teses da Filosofia Tomista,
escrita por A. D. Sertillanges (1863–1948).


Nota da Editoria:

A imagem da capa é um recorte da aquarela sobre grafite em papel intitulada “A Seated Man Contemplating a Sunlit Mountain Valley” (c. 1825), de Jakob Alt (1789–1872).




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