O triste fim da Grécia. Uma grande lição

A Escola de Atenas, pintada por Rafael Sanzio (1483 - 1520).

É o espírito que conduz o mundo e não a inteligência.”
Antoine de Saint-Exupéry (1900 – 1944).

Notas da editoria



Toda a gente conhece o triste fim da Grécia. Esse país tinha descoberto as maravilhas da inteligência humana e tinha-se elevado a um grau de pureza e plenitude que constitui, a nossos olhos, um verdadeiro milagre. Uma vez vencida pela Macedônia, e depois por Roma, a Grécia deixou-se em seguida arrastar para uma lenta e humilhante decadência. Numerosas são as causas desta grande queda, mas não se pode negar que intelectualidade em excesso, que caracterizava o temperamento grego, com as suas consequências, a vertigem da discussão, o formalismo e a desagregação moral e social foram a razão mais profunda dessa queda.

Na Europa moderna, onde a herança da Grécia se espalhou mais ou menos por todos os povos, há um cujas afinidades com ela são notavelmente acentuadas. Há um país que ama a inteligência, sútil e harmoniosa, senhora da beleza e da vida, e cujos sucessos mais felizes, em todos os campos, têm muitos pontos de contato com os da Hélada antiga e um país que, durante dois séculos e meio, tem feito da razão o valor supremo, e lhe tem prestado, sob o nome de Filosofia, e depois sob o nome de ciência , um verdadeiro culto, chegando a colocá-la sobre os altares das suas igrejas, e que quis, sistematicamente conformar com ela sua política e a sua educação. Sabe-se que este país, a França, se vê hoje a braços com uma derrubada que lhe causa pasmo, e cuja profundidade ainda não mediu bem. Há quem negue o perigo dessa derrocada, apoiando-se na vitalidade da cultura que ainda lá floresce. Mas os espíritos lúcidos não se deixam iludir até esse ponto. Sabe perfeitamente que, quando a Grécia foi vencida por Filipe da Macedônia, tinha Aristóteles e Demóstenes, e que um artista desconhecido esculpia nessa ocasião a Vênus de Milo. Sabem também que, quando Roma triunfou, a Grécia possuía ainda Arquimedes e Políbio e que, ainda depois, possuiu alguns dos seus grandes homens e produziu muitas das suas obras primas. Poderia ser essa também a sorte da França e haveria muitos que se contentariam com isso.

Mas a alma dum povo é o seu moral e a cultura é apenas um fruto desse mesmo moral. E o espetáculo do moral atual da França confrange o coração daqueles que conhecem a grandeza secular deste país e que ainda o amam. O aniquilamento da vontade, a imprevidência, o desleixo, o aviltamento dos costumes e dos caracteres, a validade e o prazer, tanto no povo como nas classes superiores, são sintomas da mesma gravidade. As causas morais não se encontram submetidas às mesmas alternativas que os supostos acasos da guerra. Estes acabam por se voltar no sentido das forças que os utilizam, e uns perdem mesmo as vitórias, ao passo que outros ganham as derrotas.

Capa da obra: "O Mito Moderno da Ciência", por por A. D. Sertillanges (1863 – 1948).Somos, portanto, levados a procurar saber se não haverá uma verdadeira relação de causa para efeito entre este intelectualismo e esta derrocada, relação essa que seja válida para todos os tempos e para todos os povos. Dar-se-á o caso de que, por um encadeamento progressivo e fatal, o culto da inteligência pura traz consigo a abstração crítica, a divisão, o formalismo e o desinteresse do egoísmo, para vir a terminar numa desmoralização, que não é apenas escândalo requintado, como pretende André Gide ou um nada poético, como quer Paul Valéry, mais sim — é necessário dizê-lo — a mais baixa e abjeta vulgaridade, um desmoronamento e uma escravidão? Por outras palavras; o exercício do espírito, desde que seja elevado ao máximo, conterá em si um germe de morte, funesto para todo aquele que com ele se embriaga? Rousseau, Nietzsche e até alguns psicólogos ‘científicos’, assim o sustentarem e preciso estudar a fundo esta questão, da qual depende o futuro da França. Há, na verdade, um declive fatal por onde o espírito arrasta os seres vivos, indivíduos e sociedades, de tal forma que lhes seja impossível saírem desse abismo?

Podemos, a tal respeito, citar uma declaração extremamente curiosa do mais fervoroso apóstolo da religião da ciência. Ernest Renan, que em 1848 escrevia o seguinte: “A França representa eminentemente o período analítico, revolucionário, profano e irreligioso da humanidade. Pode ser que um dia este país, tendo cumprido sua missão, venha a tornar-se um obstáculo ao progresso da mesma humanidade e desapareça, porque as missões são inteiramente distintas. Aquele que faz a análise, faz a síntese. A cada um está reservado o seu papel: tal é a lição da história” (1). O país destinado a realizar a síntese —Renan pô-lo diz no mesmo capítulo — é a Alemanha, seriam proféticas estas palavras?

Confrontemos com isto o que se diz noutra página, aparecida em novembro de 1940 no primeiro número da Nouvelle Revue Française, publicado depois da ocupação. O principal animador da literatura “moderna”, André Gide, consciente da obra dissolvente a que ele mesmo presidira, longe de renegar essa obra e persistindo na sua atitude, ao mesmo tempo clarividente, lógica e cínica (três características muito helênicas), declara: “Acusa-se hoje a nossa literatura … Acusam-na de ter trabalhado para nos enfraquecer as energias. Não seria mais prudente reconhecer que toda literatura avançada, seja ela qual for, tende a esgotar aquilo que a produziu? A flor da civilização se dá, se abandona e se sacrifica. Se fosse mais florescente, a Alemanha teria sido menos forte”.


Extraído da obra O Mito da Ciência Moderna, escrita por A. D. Sertillanges (1863 – 1948).
Publicado pela Livraria e Editora Progresso em 1959.


Subir com fundo cinza Notas da editoria:

1. O título desta postagem (O triste fim da Grécia. Uma grande lição) foi baseado no primeiro parágrafo deste excerto. Não faz parte de nenhuma epígrafe do livro, o qual é composto por uma série de ensaios.

2. Este artigo foi originalmente publicado neste website em 3 de agosto de 2020. A data de 17 de maio de 2024 corresponde à última edição.

3. A imagem associada a esta publicação (topo Subir com fundo cinza) denomina-se Escola de Atenas, é uma das mais famosas pinturas do artista italiano e renascentista Rafael Sanzio (1483 – 1520). Trata-se de um afresco criado entre 1509 e 1511, que ocupa uma das paredes do que foi a biblioteca e o escritório do Papa Júlio II no Palácio Apostólico do Vaticano. Para obter a imagem desta obra em alta definição, clique aqui.

4. Repare que disponibilizamos para download a obra que originou esta postagem. Para obtê-la clique na imagem do livro ou aqui.


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