“Desvalorização da inteligência”

Recorte da obra: "A advinha" (provavelmente década de 1630), de Georges de La Tour (1593–1653)

A ignorância está nas duas extremidades do conhecimento.
Autor desconhecido



No início do século passado, um empreendedor, mesmo tendo pouco estudo, poderia obter sucesso nos seus empreendimentos. Naquele tempo, isso dependia muito de sua perspicácia. Pessoas que tinham mais estudos e conhecimentos geralmente eram guindadas a cargos mais importantes. Existiam também aqueles que já herdavam fortunas ou cargos e, por isso, não lhes era exigido muito esforço para se manterem bem estabelecidos. Os tempos evoluíram e hoje dificilmente uma pessoa com poucos conhecimentos consegue obter sucesso nos negócios. O conhecimento é imprescindível para que se faça a boa administração de uma empresa.

Na política não era diferente. Os vereadores, prefeitos, deputados e senadores muito dificilmente não tinham conhecimentos bem acima da média da população. Mas estas exigências parecem não fazer mais sentido na nossa realidade. Começamos por ver vereadores sendo eleitos por serem figuras folclóricas e até louvadas por seu pouco conhecimento, mas de “boa paz”. Eram elevados ao cargo e conseguiam se manter por terem alguém com mais conhecimentos que os assessorava. Não demorou muito e estes personagens obtiveram cargos mais importantes: prefeitos, deputados e, em estados menos civilizados, até a senadores chegaram.

Um presidente da República, para ser eleito, deveria preencher certos requisitos para se habilitar ao cargo: qualidades e conhecimentos bem acima daqueles que ele vai governar. Um rei não é eleito. Não precisa demonstrar ao povo que tem condições de exercer o cargo. Este é herdado; portanto, independentemente de ter ou não conhecimentos atinentes ao cargo, lá ele estará se for o herdeiro. Não precisa, portanto, se esforçar para isso. D. Pedro II falava vários idiomas, conhecia botânica, física e estudava muito. Traduzia obras clássicas, como a Odisseia, do grego para o português; fazia comparações com outras traduções do francês ou alemão.

E daí eu pergunto: como foi que conseguimos involuir a tal ponto de termos, como governantes, pessoas que não dominam corretamente sequer a língua pátria? E, se a própria ignorância não fosse o suficiente para nos causar constrangimento, temos que ver este fato ser exaltado como virtude. O orgulho que tínhamos dos nossos governantes foi agora substituído pelo culto à ignorância. Ao contrário do magnetismo, em que os opostos se atraem, na política o efeito é o inverso. Sabendo disso, os nossos governantes tratam de multiplicar os que com eles se parecem. Infelizmente para o nosso país, esta é a regra que está sendo seguida. Pior: com estrondoso sucesso. Mário Ferreira dos Santos, em sua obra “Invasão Vertical dos Bárbaros”, já alertava. Pena que em vão.


Por Afonso Pires Faria.
O autor é titular do blog kacetadasdoafonso.blogspot.com.


Nota da Editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “A advinha” (provavelmente década de 1630), por Georges de La Tour (1593–1653).

Sobre a imagem e sua escolha: a obra retrata um jovem tão concentrado na consulta à adivinha que não percebe estar sendo enganado e roubado. A cena simboliza, portanto, a diferença entre possuir conhecimento e ser capaz de perceber e compreender a realidade — tema central deste artigo.




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