“Atacar alvos civis” não é a mesma coisa que “atacar civis”

Recorte da obra: "The Surrender of Breda" (c. 1635), de Diego Velázquez (–1660).

A finalidade da guerra é a paz.
Santo Agostinho (354-430)

* Notas da editoria



Circula, na grande mídia, a ideia segundo a qual os Estados Unidos não devem atacar alvos civis no Irã — por exemplo, pontes, usinas de energia etc. — alegadamente porque esses ataques constituem “crimes de guerra”.

Temos aqui um argumento sinistro transformado em norma do direito internacional, porque o que distingue as duas (ou mais) facções de uma guerra é saber quem está se defendendo (legítima defesa), por um lado, e quem pretende ocupar um território sem a legitimidade necessária para fazê-lo (“legitimidade” não é necessariamente “legalidade”), por outro.

O argumento de “não atacar alvos civis” retira de quem se defende os meios necessários para alcançar a vitória.

Na Segunda Guerra Mundial, os Aliados — Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália — só tiveram sucesso porque destruíram cidades alemãs inteiras, como Dresden, que ficou em ruínas. Hamburgo foi bombardeada até a Idade da Pedra, e a monumental catedral de Colônia só escapou por mero acaso, embora também tenha sido atingida.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ninguém considerava que atacar alvos civis fosse algo ilegal ou desnecessário.

Porém, uma coisa é atacar alvos civis; outra é atacar civis.

“Alvos civis” são infraestruturas, paredes, muros, pontes etc.; “civis” são seres humanos. Convém não confundir as duas coisas.

A pergunta que se faz é a seguinte: os Estados Unidos pretendem ocupar (fisicamente) o território do Irã? A resposta é não. Os Estados Unidos apenas pretendem impedir que o regime totalitário do Irã disponha de uma arma nuclear; e, nesse contexto, é legítimo o ataque dos Estados Unidos a infraestruturas iranianas (o que não significa “ataque a pessoas”).

Há quem seja estúpido o suficiente para fazer comparações estúpidas — como, por exemplo: “os russos também atacam infraestruturas ucranianas”. Só um estúpido faz uma comparação dessas.

Em primeiro lugar, os russos atacam deliberadamente hospitais ucranianos. Sublinho deliberadamente, porque, numa guerra, sempre podem existir “danos colaterais” que matem pessoas. Depois, os russos atacam deliberadamente edifícios residenciais — não se trata aqui de um ataque a infraestruturas, mas de ataques diretos contra pessoas. E, por último, a Rússia conduz uma guerra de agressão ilegítima para ocupar território alheio, nos moldes do que a Alemanha nazista fez com a Polônia, a Tchéquia, a Bélgica, a Dinamarca e a França.

A Rússia é hoje o que de mais parecido temos com a Alemanha nazi.


Por Orlando Braga.
Originalmente publicado em 26 de julho de 2026, no website do autor.


Notas da editoria:

Artigo minimamente modificado. A versão original foi escrita em português de Portugal, para acessá-la clique aquiSubir com fundo cinza

Sobre a imagem de capa e sua escolha:
A imagem da capa é um recorte da obra: “The Surrender of Breda” (c. 1635), de Diego Velázquez (1599-1660). Subir com fundo cinza

A pintura retrata a rendição da cidade holandesa de Breda às tropas espanholas em 1625. Em vez de exaltar a violência da batalha, Velázquez representa o momento da capitulação com dignidade e respeito entre vencedor e vencido, enfatizando que até mesmo a guerra pode estar submetida a princípios. A obra foi escolhida por dialogar com a reflexão proposta no artigo acerca da legitimidade da guerra e dos limites morais do emprego da força. Subir com fundo cinza




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