Não ser e ser aceito

Recorte da obra: "Christ and the Rich Young Ruler" (c. 1889), de Heinrich Hofmann (1824–1911).

Fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.
Santo Agostinho (354-430)



Ansiamos profundamente por um olhar, um gesto, uma palavra — alguém que nos diga, de algum modo, “Muito bem, você é aceito!”. Não é à toa que somos presas fáceis de qualquer discurso motivacional (desde os golpes virtuais idealizados para capturar solitários carentes até os pregadores, religiosos ou não, em tons coaching).

Assim que nascemos, iniciamos nossa saga em busca de suprimento, tanto para necessidades físicas quanto emocionais/espirituais. Somos seres com necessidades. No seio da mãe buscamos mais que alimento para o corpo, queremos saciar a fome por aceitação. E assim seguimos vida afora, labutando por qualquer migalha que ao menos se pareça com aprovação.

Na escola, ainda no jardim de infância, queremos a aceitação dos professores, dos colegas… Nos esforçamos para parecermos dignos, pois lá no fundo desconfiamos que não o somos. Aprendemos a esconder defeitos — alguns de nós podem se tornar mestres numa longa carreira de mentiras para, aos olhos dos outros, parecermos dignos.

Tentamos investir em alguma área que nos leve ao pódio da aceitação. E se formos o mais inteligente? Talvez, o mais bonito, o mais gentil… quem sabe, o mais engraçado? o mais corajoso, o mais descolado… Ah!, como lutamos para ser “o mais” em qualquer coisa que nos dê credenciais para ouvirmos de alguém o tão almejado “Muito bem! Você foi aceito! Você é o máximo!”.
É em busca de aceitação que crianças se esforçam para serem comportadas ou se tornam “difíceis” como que a dizer “Eu não consigo, mas por favor, olhe para mim, veja que sou importante, me perceba, me ajude!”.

É o profundo desejo por aceitação, não saciado, que produz adolescentes rebeldes. O uso de drogas, a associação a gangues e a entrada para o mundo da criminalidade se dá justamente porque há no coração a necessidade de ser aceito, nem que seja no grupo dos marginalizados. É para sentir-nos aceitos que corremos por medalhas — certificados, poder de compra, corpo sarado, relacionamentos românticos, amizades e, em último caso, se nada der certo, partimos para opções do tipo “medalha de rebeldia” ou “eu não me importo” — quantos esbravejam autossuficiência para tentar esconder o buraco da carência mais profunda de atenção?

Não é à toa que aproveitamos a visibilidade das redes sociais para expor cada “conquista” com discursos que poderiam ser resumidos na sentença “Vejam: eu consegui! Eu sou um sucesso! Olhem minha medalha — meu diploma/casamento/amizade/carreira/aparência/rebeldia/originalidade/etc. Eu sou digno de aceitação!”

Mas, por mais que encontremos aplausos e reconhecimento humano, nunca será o suficiente para satisfazer nossa necessidade essencial de sermos aceitos diante de Deus. É dEle que o mais profundo do nosso ser anseia ouvir “Muito bem, você foi aceito!”. Enquanto não temos essa aprovação, nos arrastamos vida afora mendigando atenção de muitas maneiras.

Por outro lado, depois de sermos aceitos por Deus, nunca mais precisaremos mendigar aceitação humana. No lugar do temor dos homens (preocupação com o que os outros vão pensar de nós) passamos viver sob o temor de Deus — conscientes de que é diante do Senhor do Universo que estamos e é à Ele que prestamos contas. É claro que essa perspectiva é terrível, visto que Ele é Santo e nós pecadores. Entretanto, toda a esperança e consolo reside no fato de que a nossa aceitação diante de Deus é pelos méritos de Cristo, e não pelos nossos. É nEle e por Ele que vivo e sou transformada, a cada dia, pelo Seu poder, conforme Sua imagem e semelhança.
Posso ouvir do Senhor do Universo: “Muito bem, servo bom e fiel, você foi aceito! Olho para você e vejo a obra perfeita de meu Filho!”

Não, não preciso mais me arrastar vida afora, me escondendo aqui e forjando ali alguma credencial para angariar elogios, aplausos, curtidas ou qualquer migalha de aceitação humana. Nem preciso esbravejar minha suposta autossuficiência, tentando chocar os outros com minha coragem em deformar meu corpo e/ou quebrar regras. Minha carência mais profunda foi plenamente suprida nEle.

Glórias a Ele por tão maravilhosa graça, porque em mim mesma não há mérito algum. Com meus olhos focados nEle, posso desinteressar-me de mim, a não ser para encontrar Seus traços, visto que sou obra de Suas mãos.


Por Noeme Rodrigues de Souza Campos.
Publicado originalmente no website da Editora Ultimato, em 26 de março de 2021.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “Christ and the young rich ruler” (c. 1889), de Heinrich Hofmann (1824–1911).

Sobre a pintura e sua escolha:
A cena retrata o encontro entre Jesus e o jovem rico, narrado nos Evangelhos (Mt 19:16–22; Mc 10:17–22; Lc 18:18–23). Embora o episódio tenha como tema imediato o apego às riquezas, ele também revela algo mais profundo: o olhar de Cristo dirige-se ao coração humano, onde se encontram nossos verdadeiros anseios, medos e ídolos.

A escolha desta obra para ilustrar o presente artigo não pretende identificar seu conteúdo exclusivamente com o relato bíblico do jovem rico, mas destacar o contraste entre a busca pela aprovação humana e o chamado de Cristo. Enquanto o mundo nos impulsiona a construir credenciais para sermos aceitos, o Evangelho nos conduz à única aceitação capaz de satisfazer plenamente a alma: aquela que recebemos pela graça de Deus, em Cristo.




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