“No ensino básico, me ensinaram que um sapo transformando-se num príncipe era um conto de fadas.
Na universidade, me ensinaram que um sapo transformando-se num príncipe era um fato!”
Ron Carlson
O homem não vai ver uma caverna porque pensa que ela explicará o homem. Ele vai ver uma caverna porque pensa que ela explicará a caverna. Contudo, para os modernos, é a caverna que explica o homem. E há, de fato, algo de “homem das cavernas” em toda essa negação e explicação moderna. Estão sempre cavando e minando a dignidade e a virtude humanas. Tudo que é nobre eles escavam como se fosse apenas uma caverna; tudo que é heroico eles negam como mito; tudo que é puro rejeitam como sonho. E tentam o tempo todo provar que o homem é apenas um animal: um pouco mais peludo ou menos peludo, mas, de qualquer modo, um bruto.
Mas esse bruto se comportou de modo muito diferente de todos os outros. Não apenas fez coisas: fez aquilo que chamamos arte. Não apenas desenhou um animal; desenhou um espírito. Mesmo em seus desenhos infantis já existe um abismo, um fosso, entre ele e as feras. Pois as feras não pintam animais; não pintam nem a si mesmas.
Este é o primeiro fato fundamental diante de todas as tentativas modernas de considerar o homem como mera evolução dos animais. O homem não é apenas diferente das feras: ele é o único ser que tem consciência de ser diferente. Não é apenas criador; é crítico. Não apenas existe; sabe que existe. E esse simples fato vai muito mais fundo do que qualquer conversa trivial sobre o uso de ferramentas.
Por mais fundo que cavemos, por mais longe que voltemos no tempo, não encontramos uma raça meio humana ou meio racional. Encontramos animais — e encontramos o homem. Encontramos feras — e encontramos o ser que se curva diante de um deus, ou que zomba de um deus, ou que inventa um deus; mas, em qualquer caso, um ser que conhece a ideia de Deus. O homem da caverna pode ter adorado um monstro; pode ter temido um demônio; mas já lidava com algo que nenhum animal jamais concebeu. Pois as feras não adoram; e no momento em que encontramos adoração, encontramos o homem.
Há algo que o homem possui desde o começo e que nenhum animal jamais adquiriu — o senso de que existe algo acima dele. Esse senso é a escada pela qual o homem subiu. E, se procuramos aquilo que marca a primeira elevação do homem, o primeiro passo humano, a primeira centelha da alma, devemos buscar o momento em que ele levantou os olhos para o céu.
Dizer que esse olhar para o alto foi uma ilusão é admitir que o homem começou com loucura. Dizer que esse senso do divino foi uma doença é dizer que a humanidade começou doente. Mas a verdade é exatamente o contrário. A humanidade começou com o primeiro gesto da mente que se elevou acima do material. E esse gesto continua sendo a marca da humanidade até hoje. O homem sempre foi mais do que matéria. Sempre foi mais do que pó. Sempre foi mais do que um bruto. E esse fato é a primeira e maior evidência do divino.
Excerto do primeiro capítulo, O homem em cavernas, da obra O Homem Eterno
(The Everlasting Man, 1925), de G. K. Chesterton (1874 – 1936).
Obra em domínio público. Tradução da Editoria Cultura de Fato.
Nota da editoria:
Pintura parietal da Caverna de Lascaux (Montignac, Dordogne, França). Painéis atribuídos ao Magdaleniano (~17.000 a. C.). Descoberta em 12 de setembro de 1940 por Marcel Ravidat, Jacques Marsal, Georges Agnel e Simon Coencas. (Fonte: Centre des Monuments Nationaux / Ministère da Cultura da França).














