Nosso PIB per capita caiu pela metade

Obra: "Café" (1935), de Candido Portinari (1903 - 1962).

A riqueza de uma nação se mede pela riqueza do povo e não pela riqueza dos príncipes.
Adam Smith (1723 – 1790)



Ao longo dos últimos 40 anos, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro apresentou crescimento em termos absolutos.

No entanto, esse crescimento foi amplamente impulsionado pelo aumento populacional.

Quando analisado sob a ótica do PIB per capita, o indicador mais relevante para mensuração de bem-estar e produtividade média, o país sofreu uma queda estrutural significativa.

Houve uma redução real próxima de 50% em termos relativos, quando comparada à média global.

Em 1984, o Brasil ocupava a 40ª posição no ranking mundial de PIB per capita.

Caso tivesse mantido essa colocação até 2023, que atualmente é ocupada por Portugal, o país teria atingido uma renda média de aproximadamente US$ 27 mil per capita.

Entretanto, o Brasil caiu para a 84ª posição, com um PIB per capita estimado em US$ 10 mil, menos da metade do valor português.

Se você está achando esse valor de US$ 10 mil alto, é porque nossos economistas costumam calcular o PIB per capita antes dos impostos. Não encontrei o valor da Renda Per Capita Disponível, que é substancialmente mais baixo.

Essa perda de posição relativa evidencia uma deterioração competitiva persistente, amplamente ignorada tanto pela grande imprensa quanto por parcela significativa da comunidade econômica nacional.

O foco excessivo em indicadores agregados, sem comparações internacionais, tem mascarado a realidade do desempenho brasileiro em termos de produtividade individual e renda média.

Na ciência da administração, é impensável avaliar o desempenho de uma organização sem estabelecer benchmarks e comparações relevantes.

Contudo, avaliar o crescimento de uma empresa sem compará-lo ao de seus concorrentes resulta em decisões míopes, e o mesmo raciocínio deveria ser aplicado à análise macroeconômica.

Há quatro décadas o Brasil segue sob o domínio de uma visão técnica limitada, centrada no controle da inflação e na estabilidade nominal, em detrimento de uma estratégia sistêmica de aumento da produtividade e da competitividade internacional.

O país foi entregue a formuladores de políticas que confundem estabilidade com desenvolvimento, uma disfunção técnica que tem custado caro.

Enquanto continuarmos promovendo agentes econômicos e intelectuais que se concentram em variáveis parciais e desconsideram métricas internacionais comparadas, não há perspectiva real de convergência com os países desenvolvidos.

O mais preocupante é que, mesmo diante desse declínio visível, a percepção coletiva de fracasso ainda não se consolidou.

A inércia analítica pode muito bem prolongar esse ciclo por mais 40 anos.

Assustador!


Por Stephen Kanitz.
Publicado no blog do autor em 27 de junho de 2025.


Nota da editoria:

Imagem da capa: “Café” (1935), de Candido Portinari (1903 – 1962).


Mais do autor:



Artigos relacionados

5 1 vote
Classificação
Inscrever-se
Notifique-me sobre
guest
0 Comentários
 mais antigos
mais recentes  mais votado
Comentários
Visualizar todos os comentários
0
Adoraríamos receber sua crítica. Por favor, escreva-a!!x