Montello, Petrucciani e a vergonha.

Recorte da obra: "The Voyage of Life Manhood" (1842), de Thomas Cole (1801–1848).

A coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério.
Albert Einstein (1879 – 1955)



Há algumas semanas venho me dedicando a ler a obra de Josué Montello — ou, ao menos, aquilo que consigo encontrar. A culpa, se é que se pode chamar assim, é de meu amigo Daniel Marcondes.

Foi ele quem me falou, com entusiasmo raro, sobre “O Labirinto de Espelhos”. Dizia-se maravilhado com a maneira como o escritor maranhense navegava pela língua portuguesa, conduzindo o leitor por suas páginas com tal domínio que, por vezes, nos fazia sentir quase analfabetos. Era uma brincadeira, claro. Mas, como toda boa brincadeira, carregava uma verdade.

Sempre atento às indicações de quem realmente sabe indicá-las, fui atrás de Montello. Como prefiro fazer, comecei pelos sebos. Não encontrei o livro recomendado por Daniel. Encontrei outro. O título também me era desconhecido, mas a sinopse me fisgou de imediato. “Antes que os Pássaros Acordem”.

E que descoberta.

Ambientado em Paris durante a Segunda Guerra Mundial, o romance confirmou com exatidão as impressões de meu amigo. Josué Montello é um dos grandes gênios de nossa literatura. Mais do que isso: é um daqueles autores que nos fazem perguntar como passamos tanto tempo sem conhecê-los. Confesso que senti certa vergonha ao perceber que seu nome havia permanecido tanto tempo fora de meu horizonte de leitor.

Por isso, faço aqui uma recomendação simples: não cometam o mesmo erro. Procurem Josué Montello. Leiam-no. Permitam-se o espanto. Assim que terminei aquele livro, comecei imediatamente a procurar outros. E pretendo continuar fazendo isso enquanto houver um volume seu que eu ainda não tenha lido.

Mas as boas descobertas não vivem apenas nas estantes.

Em um daqueles dias menos inspirados para a leitura, eu procurava músicos de jazz no Spotify. Queria apenas uma trilha sonora para acompanhar algumas horas de escrita solitária. As músicas se sucediam naturalmente, preenchendo a casa sem exigir atenção, até que uma delas me obrigou a interromper tudo.

Corri até o celular para descobrir o que estava ouvindo.

Era “Caravan”, interpretada por Michel Petrucciani.

Eu não conhecia a música. Tampouco conhecia o músico.

Mas aquela melodia provocou em mim exatamente a mesma sensação das primeiras páginas de Montello: a impressão de estar diante de algo raro. Algo diferente dos sons e das palavras comuns do mundo. Diferente do trivial, do corriqueiro, do descartável.

Como faço sempre que encontro algo que me impressiona, fui investigar.

E aí começou uma segunda descoberta.

Longe de ser um conhecedor profundo de jazz, imaginei, levado pelo sobrenome, estar diante de algum pianista italiano. Descobri que Petrucciani era francês. Descobri também que sofria de osteogênese imperfeita, a chamada doença dos ossos de vidro. Sua condição limitava severamente seu crescimento e seus movimentos. Tinha pouco mais de um metro de altura e enfrentava dificuldades físicas que tornavam até o ato de sentar-se diante do piano um desafio.

E, ainda assim, quando tocava, parecia tornar o instrumento a coisa mais simples do mundo.

Morreu cedo, aos 36 anos. Mas deixou gravações que bastam para atravessar décadas e continuar surpreendendo desconhecidos em tardes comuns, como aconteceu comigo.

Mais uma vez fui tomado por uma espécie de vergonha.

A vergonha de não conhecer o maranhense que escrevia sobre Paris como quem descreve o quintal de casa em São Luís.

A vergonha de nunca ter ouvido falar do francês de sobrenome italiano que, apesar das limitações físicas, alcançou uma grandeza artística capaz de desafiar qualquer explicação racional.

Mas talvez essa seja uma das melhores vergonhas que existem.

Vivemos cercados pela falsa impressão de que já conhecemos o essencial. Acreditamos ter lido os autores importantes, ouvido as músicas indispensáveis, assistido aos filmes fundamentais. Então, de repente, surge um amigo que nos indica um livro. Ou um algoritmo distraído que nos entrega uma canção. E percebemos que o mundo continua infinitamente maior do que nosso repertório.

Hoje, penso que continuo lendo, ouvindo música e procurando arte justamente por causa dessas pequenas humilhações. Procuro novas vergonhas. Procuro o próximo autor extraordinário que desconheço. O próximo músico genial cujo nome jamais ouvi. O próximo livro esquecido numa prateleira de sebo que me fará perguntar onde ele esteve escondido durante toda a minha vida.

Talvez o verdadeiro privilégio não seja acumular conhecimento, mas conservar a capacidade de se surpreender.

E, se tenho algum receio, não é o de encontrar novas obras-primas. É exatamente o contrário.

Tenho medo de que um dia elas deixem de me encontrar.

Tenho medo de acordar numa manhã em que nenhuma indicação desperte curiosidade, em que nenhum livro desconhecido me chame da estante, em que nenhuma melodia inesperada me obrigue a interromper o que estou fazendo para descobrir quem a criou.

Porque, enquanto existirem Josués Montellos escondidos nas páginas que ainda não li e Michels Petruccianis tocando nas músicas que ainda não ouvi, haverá sempre a possibilidade de espanto.

E talvez seja justamente disso que a vida intelectual é feita: da permanente alegria de descobrir, tarde demais, aquilo que jamais deveríamos ter demorado tanto para conhecer.


Por Douglas Alfini Jr.
Douglas é autor das obras Crônicas do Invisível (2021), Âmbar Gris (2023), O Ufanista (2024) e Teratomaquia (2025):


Capa da obra: "Teratomaquia", escrita por Douglas Alfini Jr.
Capa da obra: "O Ufanista", de Douglas Alfini Jr. ISBN-10: 6501036194 / ISBN-13: 978-6501036199.


Notas da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “The voyage of life: Manhood” (1848), de Thomas Cole (1801–1848).

Sobre a imagem: The Voyage of Life é uma série alegórica composta por quatro pinturas que representam as etapas da existência humana. Nesta terceira fase, Manhood (Maturidade), o viajante navega por águas turbulentas, cercado por ameaças e incertezas, mas segue adiante guiado por uma luz que rompe as nuvens. A escolha da obra para ilustrar este texto relaciona-se à ideia de que a vida intelectual é também uma jornada de descoberta: quanto mais avançamos, mais percebemos a vastidão do que ainda desconhecemos. Assim como o navegante de Cole, o leitor é convidado a seguir viagem, não em busca de certezas definitivas, mas do permanente espanto diante de novos horizontes.



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