O Conservador deve evitar a confusão entre “gênero” e “sexo”

Recorte da obra: "Relatividade" (1953), de M. C. Escher.

Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.
George Orwell (1903–1950)


Estando eu a ler um livro de autoria de uma pessoa conservadora, ligada à Igreja Católica, verifiquei que utilizava amiúde o termo “gênero” em lugar de “sexo”. Ou seja, até os mais conservadores já estão contaminados pela linguagem desconstrucionista do pós-modernismo (ou do marxismo cultural).

Convém recordar aqui um conceito de Eric Voegelin segundo o qual, para podermos criticar a linguagem ideológica (neste caso, a linguagem ideológica do marxismo cultural), temos que criar uma comunidade de linguagem:


Qualquer pessoa com uma mente informada e refletiva que viva no século XX a partir do fim da primeira guerra mundial — como é o meu caso — acaba por se se sentir cercada ― senão oprimida ― por todos os lados por uma inundação da linguagem ideológica.

Essa pessoa não consegue lidar com os utilizadores da linguagem ideológica como parceiros de uma discussão, mas terá antes que fazer destes o objeto de investigação.

Não existe uma comunidade de linguagem entre os representantes das ideologias dominantes. Por isso, a comunidade da linguagem que essa pessoa pretende usar para criticar os utilizadores da linguagem ideológica deve ser, em primeiro lugar, descoberta e, se necessário, estabelecida.


Ora, a nossa comunidade de linguagem não pode substituir o conceito de “sexo” pelo de gênero: o conservador que o faz cedeu já, na sua posição, em relação ao desconstrucionismo comunista ou cripto-comunista; já não é um conservador propriamente dito, mas antes é uma espécie de “progressista paralisado”.

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), “o gênero refere-se às características das mulheres, homens, raparigas e rapazes que são socialmente construídas. Isto inclui normas, comportamentos e papéis associados a ser mulher, homem, rapariga ou rapaz, bem como as relações entre as pessoas. Como construção social, o gênero varia de sociedade para sociedade e pode mudar ao longo do tempo”.

Ora, esta definição de “gênero” é “pau-para-toda-a-colher”, porque pode ser utilizada pelos desconstrucionistas para (tentar) desconstruir / destruir a própria Natureza Humana.

Porém, se tudo passa a ser construção social, então nada é construção social.




E se a noção de “construção social” é verdadeira (no sentido absolutista dado pelos neomarxistas), então segue-se que a noção de “construção social” é, ela própria, uma construção social.

E quando alguém diz que “o gênero é uma construção social e que pode ser mudado para acomodar a igualdade de gênero”, então segue-se que a “igualdade de gênero” é também uma construção social. E sendo a “igualdade de gênero” uma construção social, temos também o direito de a rejeitar seguindo os mesmos pressupostos de quem a defende.

Quando se diz que o gênero é uma construção social, o que se pretende dizer é que o gênero é uma convenção. A convenção opõe-se à Natureza. E toda a convenção pressupõe a linguagem, e por isso, pressupõe já a sociedade.

No sentido lógico e comum, “gênero” é o termo que designa uma categoria de realidades ou de ideias que os seus caracteres essenciais comuns autorizam a reagrupar sob a mesma denominação geral (por exemplo, na gramática, os “diferentes gêneros” literários).

Porém, o que está implícito no conceito de “gênero é uma construção social”, é que “o gênero é independente do sexo biológico” — o que é um absurdo lógico, porque o gênero não pode ser simultaneamente dependente e independente do sexo biológico: ou é independente do sexo biológico, ou é dependente deste. É óbvio, e mesmo evidente, que o “gênero” depende da categoria do sexo biológico.

Em determinadas culturas (fora da Europa), os homens podem ser temporariamente considerados “mulheres”, ou determinadas mulheres ser consideradas “homens”.

Mas, nessas sociedades, essa “troca de papéis de gêneros” acontece por razões funcionais e de interesse coletivo — ou seja, essa “troca de papéis de gêneros” entre os dois sexos é convencionada, por um lado, e por outro esse fenómeno cultural revela que a “troca de papéis de gêneros”, entendida em si mesma, significa que o “normal desejável” não são os gêneros trocados, mas antes que o que é normal é a coincidência simbólica entre o gênero e o sexo.

Nessas culturas, a “troca de papéis de gêneros” é uma exceção circunstancial que serve exclusivamente o interesse coletivo; nessas culturas, as funções, códigos e estatutos estão em primeiro plano, e o indivíduo apaga-se diante dos sistemas que o clã, a tribo ou a família formam; nessas culturas, as relações entre seres humanos são nitidamente menos individualizadas e menos personalizadas, quando comparadas com a cultura europeia e ocidental.

Na cultura europeia, de raiz cristã, onde a dimensão afetiva e individual é muito importante, a relação de cada um com a sua identidade pessoal tem uma importância enorme. Na cultura ocidental (de origem cristã), ser “homem” ou “mulher” não pode ser produto de uma decisão do grupo social.

Na cultura ocidental, em que o indivíduo (enquanto tal) ganha uma importância que não existe em outras culturas, não podemos dizer — como dizem os intelectualóides neomarxistas — que “o meu gênero é construído pelos outros”. Ademais, a ideia de que “o gênero não é senão uma construção social” (ou seja, é uma convenção) é anticientífica.

Vários estudos científicos recentes sugerem que os comportamentos individuais feminino e/ou masculino não são um mero reflexo de pressões sociais (ou de convenções). Tanto a biologia como a sociedade afectam o comportamento de meninas e meninos.

Quando se categoriza os “gêneros” masculino e feminino de acordo com os respectivos sexos biológicos, fazemos isso em consequência da própria categorização de sexo que a Natureza determina desde o início da existência. Por isso é que, por exemplo, damos o nome de Maria a uma menina, e de Manuel a um menino: ao distinguir a nomenclatura em função dos dois sexos, nada mais fazemos do que seguir a categorização sexual que a própria Natureza já determinou a priori.




Ao contrário do que diz o marxismo cultural — que diz defender a validade da diferença entre seres humanos — este debate acerca da identificação entre o “gênero” e o “sexo” é sintoma da nossa atual dificuldade cultural em assumir a diferença.

Dizer que a diferenciação implica discriminação, ou que hierarquia é sinónimo de desigualdade, corrobora a ideia de “Totalitarismo Doutoral” de Alexis de Tocqueville (a que eu chamo de “Totalitarismo de Veludo”) em que indivíduos intermutáveis formam uma massa indistinta — por exemplo, a “intermutabilidade dos dois gêneros” conduz necessariamente à negação da existência dos dois sexos…!, através da confusão propositadamente criada entre “gênero” e “sexo”. Tudo isto tem a sua âncora ideológica no conceito de “família” de Engels… é preciso ir às origens!

Em suma: todo o conservador deve evitar a confusão, induzida na nossa cultura pelos neo-marxistas, entre “gênero “ e “sexo”.


Por Orlando Braga.
Originalmente publicado em 28 de abril de 2026, no website do autor.


Nota da editoria:

Recorte da obra (litografia): “Relatividade” (1953), de M. C. Escher (1898-1972). Para visualizá-la integralmente, clique aqui.

A escolha da obra justifica-se por representar um espaço em que múltiplas lógicas incompatíveis coexistem simultaneamente, produzindo uma realidade apenas aparentemente coerente. Tal como na litografia de Escher, em que diferentes orientações gravitacionais se sobrepõem sem síntese possível, também no uso ideológico da linguagem se observa a justaposição de conceitos mutuamente contraditórios, que dissolvem a distinção entre o que é e o que se diz ser.




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