A burrice de Espinosa

Recorte da obra: "O monge à beira-mar" (c. 1808-1810), de Caspar David Friedrich (1774–1840).

Se compreendes, não é Deus.
Santo Agostinho (354-430)

* Notas da editoria



A essência do pensamento de Espinosa é a defesa da possibilidade de o ser humano alcançar, por meio do exercício da Razão (ou da ciência), a unidade com a substância única (panteísmo), à qual ele chama “Deus”.

“Os homens, as mulheres, as crianças — todos, na verdade — podem igualmente obedecer, mas não ser sábios. Se dizemos que não é necessário compreender os atributos de Deus, mas acreditar nisso com toda simplicidade e sem demonstração, estamos em pleno sonho; pois as coisas invisíveis, que não são senão objeto do espírito, não podem ser vistas sob outra perspectiva além da demonstração. Por isso, quem não a possui não vê absolutamente nada dessas coisas…”

Deus requer ignorância do fiel

Isso seria semelhante a um cientista contemporâneo defender a ideia de que é possível ao ser humano, por meio do exercício da Razão (ou seja, da ciência), compreender todo o universo — incluindo a essência da antimatéria, da matéria escura, dos buracos negros, da física quântica etc. Um cientista ateu dirá que sim, que “é possível ao ser humano compreender todo o universo… talvez daqui a 25 bilhões de anos!”.

O cientista ateu é muito otimista e romântico.

Quem estudou filosofia suficientemente sabe que Espinosa foi um gnóstico (ver gnose). O gnosticismo parasitou o cristianismo desde sua fundação, isto é, desde a Antiguidade Tardia, e esse parasitismo continuou ao longo da Idade Média — por exemplo, com Joaquim de Fiore, Espinosa e muitos renascentistas —, avançou pela Idade Moderna com Hegel e outros românticos alemães; depois, Nietzsche; e, mais tarde, passou a dominar parte significativa do pensamento contemporâneo dos séculos XX (por exemplo, Heidegger e o pós-modernismo) e XXI.

A diferença entre um gnóstico medieval, por um lado, e um cristão propriamente dito, por outro, está no fato de que a gnose (ou gnosticismo) consiste em uma doutrina metafísica de salvação religiosa por intermédio do conhecimento intelectual, e, portanto, sem o dom direto da Graça Divina; ao passo que o cristianismo pressupõe o dom direto da Graça de Deus (“graça” deriva do grego kharis, que significa “benevolência” ou “encanto”: trata-se da dádiva proveniente de Deus relativa à salvação da alma, à remissão dos pecados e à perseverança na provação).

A diferença entre Espinosa e um cristão comum é que Espinosa acredita ser possível abarcar a compreensão do conceito de Deus (ou do universo) por meio da Razão humana, enquanto o cristão adota uma postura mais humilde e realista, pois sabe que o ser humano jamais conseguirá colocar o universo inteiro dentro de um laboratório.

Ou seja: Espinosa é burro, mas costuma ser classificado pelos intelectuais como “brilhante”; já o cristão é intelectualmente mais prudente, embora frequentemente seja tratado como “ignorante”.

E não há mais nada a dizer acerca de Espinoza.


Por Orlando Braga.
Originalmente publicado em 9 de maio de 2026, no website do autor.


Notas da editoria:

Artigo minimamente modificado. A versão original foi escrita em português de Portugal, para acessá-la clique aqui. Subir com fundo cinza

A imagem de capa é um recorte da obra “O monge à beira-mar” (Der Mönch am Meer, c. 1808–1810), de Caspar David Friedrich (1774–1840). Subir com fundo cinza

Sobre a imagem e o motivo de nossa escolha: a pintura apresenta uma figura humana solitária diante da vastidão quase infinita do mar e do céu. A desproporção entre o homem e a imensidão da paisagem transmite uma poderosa sensação de limite, silêncio e contemplação metafísica. Inserida no contexto do romantismo alemão, a obra expressa não apenas a pequenez humana diante do universo, mas também a impossibilidade de a realidade absoluta ser plenamente reduzida à compreensão racional. A escolha da imagem dialoga diretamente com o tema central deste texto: os limites da razão humana diante do mistério de Deus e da totalidade do ser. Subir com fundo cinza




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