Páginas esquecidas

Recorte da obra: "Campo de Trigo com Corvos" (1890), de Vincent van Gogh (1853-1890).

Em texto publicado n’O Globo de 18 de dezembro de 1969, Gustavo Corção já meditava sobre a miséria espiritual humana e sobre a insuficiência dele próprio diante dela.

Corção constrói a imagem do mundo como um grande campo em tempo de colheita. As “almas maduras” caem como frutos de uma árvore sacudida pelo vento: pessoas sofrendo, perdidas, desesperadas, espiritualmente abandonadas.

Em “A gente vai andando, vai andando, e tropeça nas almas maduras. E pisa as almas caídas”, o autor descreve a convivência cotidiana com o sofrimento humano. As pessoas passam umas pelas outras sem saber como ajudar verdadeiramente. Há ali quase um sentimento de culpa coletiva — por isso a interrupção súbita: “E eu aqui a escrever; e você aí, a ler. Envergonhemo-nos, leitor.”

Outro ponto marcante surge quando escreve: “Queimar por queimar, antes no amor que na justiça.” A ideia é a de que, se inevitavelmente seremos consumidos por algo, que seja pelo amor de Deus e pela caridade, e não pelo juízo frio da justiça divina.



Ah! Esse mundo cheio de aflições! A gente vai andando, vai andando, e esbarra nas almas. E tropeça nas almas. E não sabe o que fazer e o que dizer às almas caídas. E eu aqui a escrever; e você aí, a ler. Envergonhemo-nos, leitor.

M u n d o, mundo, triste mundo. Parece que ventou. Parece que a enorme árvore sacudida atira seus frutos no chão. Onde estão os operários da colheita, que encham seus cestos, e que ao entardecer voltem cantando à casa do Senhor? A gente vai andando, vai andando, e tropeça nas almas maduras. E pisa as almas caídas. E eu agora a escrever; e você agora a ler; enquanto lá fora se ergue o vento do grande outono.




Como se explica, leitor, que nosso coração não se abrase e não se consuma, que nosso sono não encurte, que nosso zelo não cresça mais, não cresça sempre, quando corremos os olhos por essa imensa planície juncada de aflições?

Como se explica que não peçamos a Deus que ainda mais nos ensine a pedir, a pedir que nos atire na fogueira de seu coração?




Queimar por queimar, antes no amor que na justiça. Antes aqui e agora. No dia. Na hora. No momento de arder. No momento de dar com alegria. Como se explica, leitor, que não peçamos a Deus, mais e mais, que nos ensine a pedir, que nos ensine a pedir para dar, que nos ajude a desejar, a desejar um desejo maior, e que nos tome nas mãos, galho inútil, galho seco, e nos atire assim mesmo, inútil e seco, na grande fogueira de seu amor?




Antes queimar assim, por aflição das aflições. Antes torcer-se na chama, dançar na chama, com estalidos e crepitações de quem se consuma e se gaste, nas aflições!




M u n d o, mundo, triste mundo — eu aqui a escrever, você aí a ler, ó leitor — e o vento lá fora derrubando as almas maduras!


Por Gustavo Corção (1896–1978).
O Globo, 18 de dezembro de 1969.


Nota da editoria:

Imagem da capa: “Campo de Trigo com Corvos” (1890), de Vincent van Gogh (1853-1890).


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