Manifesto contra as cidades

Recorte de reprodução da obra: "Angelus" (1858), de Jean-François Millet (1814-1875).

“Toda a infelicidade dos homens provém de uma só coisa:
não saberem permanecer em repouso em um quarto.”
Blaise Pascal (1623–1662)



Há lugares onde Deus já não passa. Não porque não queira, mas porque não pode permanecer.

A cidade grande se tornou um território onde até o silêncio foi desalojado. As motocicletas rasgam as ruas, os motores gritam, os freios choram, as sirenes se sobrepõem às vozes, o barulho constante sobe aos céus como uma fumaça espessa que sufoca qualquer prece antes que esta termine de nascer. Mas não é, aqui, apenas o barulho que perturba: eis o pensamento apressado, aflito, nervoso das pessoas, vibrando como uma corrente elétrica que tudo atravessa. A mente urbana não descansa, e esse ruído invisível também afasta o sagrado.

Na cidade, a violência se tornou rotina. Tal afirmação é já velha e costumeira, mas não me refiro apenas à violência do corpo, e sim também à violência do olhar desconfiado, do passo acelerado, da pressa que empurra, da indiferença que endurece. Os homens passam uns pelos outros como se fossem obstáculos, e não semelhantes. As janelas se fecham, as portas se trancam, os rostos se desviam. O medo é o soberano senhor das calçadas, exigindo que todo passante o reconheça antes de seguir caminho.

As orações feitas na cidade sobem fracas, cansadas, fragmentadas. Competem com as buzinas, com as propagandas luminosas, com as incessantes notificações dos telefones celulares. Deus, que fala no sussurro, já não encontra quem consiga escutá-lo no meio dessa avalanche de estímulos. Em sentido inverso, não foi Ele quem deixou de ouvir as orações; foi a cidade que se tornou incapaz de falar com clareza.

O concreto tomou o lugar da terra. O céu agora é um recorte estreito entre os prédios, impossível de ser visto por inteiro, em toda sua magnitude. A noite perdeu as estrelas, o dia perdeu o horizonte — e quando o homem deixa de ver o horizonte, deixa também de se lembrar de que há algo maior que ele mesmo.

Por isso Deus se retirou.

Não por cólera, nem por castigo: retirou-se apenas para o silêncio. Retirou-se para onde ainda é possível ser ouvido. Deus foi para o campo.

Sim, lá onde o vento tem espaço para caminhar sem esbarrar em paredes e divisórias, onde a luz do sol toca a pele sem pedir licença, onde a terra ainda respira, onde o tempo não se mede nos relógios, mas no lento deslocar das sombras. Lá onde ainda se escuta o canto dos pássaros ao amanhecer, como uma oração que não precisa de palavras, canto que atravessa o ar puro, sem resistência, alcançando alturas que a cidade já não conhece.

No campo, o homem ouve antes de falar. Observa antes de agir. Sente antes de desejar. Ali, o silêncio não é ausência, mas presença — presença de Deus. Presença da vida tal como pensada por Ele.

No campo, o medo não vigia as portas, a noite não ameaça. O céu é inteiro, as estrelas ensinam a humildade, colocam os homens em seu devido lugar sempre que se atrevem a contemplá-las. O vento ensina a paciência, a terra ensina a gratidão. E Deus, ali, não precisa disputar espaço: Ele simplesmente está.

E talvez Ele espere mesmo isto: que os homens se lembrem do caminho de volta, que abandonem a pressa que adoece, o barulho que ensurdece, a violência que endurece, e retornem ao lugar onde o coração consegue bater no ritmo certo, onde a alma não precisa gritar para ser ouvida. A cidade prometeu conforto, mas entregou cansaço. Prometeu conexão, mas entregou solidão. Prometeu segurança, mas empoderou o medo. E, sem perceber, transformou-se em uma prisão feita não só de grades visíveis, mas de hábitos, de dependências, de ruídos constantes que impedem qualquer fuga.

Sonha o prisioneiro que escreve estas linhas desesperançosas conseguir, um dia, saltar a muralha, vencer os portões invisíveis, atravessar a fronteira do concreto para pisar outra vez a terra viva e reencontrar o Autor da Vida onde Ele sempre esteve: no campo — esperando, paciente, que os homens voltem para casa.


Por Douglas Alfini Jr.
Douglas é autor das obras Crônicas do Invisível (2021), Âmbar Gris (2023), O Ufanista (2024) e Teratomaquia (2025):


Capa da obra: "Teratomaquia", escrita por Douglas Alfini Jr.
Capa da obra: "O Ufanista", de Douglas Alfini Jr. ISBN-10: 6501036194 / ISBN-13: 978-6501036199.


Notas da editoria:

A imagem da capa é um recorte de uma reprodução da obra: “Angelus” (1858), de Jean-François Millet (1814-1875).

Sobre a imagem: Dois camponeses interrompem o trabalho no campo ao entardecer para rezar. Em meio à vastidão silenciosa da paisagem, o gesto simples revela uma ordem mais profunda: a vida humana submetida a um ritmo que não é o da pressa, mas o da contemplação. A cena traduz a presença do sagrado no cotidiano, onde o silêncio não é vazio, mas espaço de escuta — um contraste direto com a agitação e a fragmentação da vida urbana.



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