Das quatro coisas que produzem grande paz

Recorte da obra: "A Anunciação" (1442-1443), de Fra Angelico (aprox. 1395-1455).

Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós.
Santo Agostinho (354-430)



O texto a seguir reproduz o capítulo XXIII da obra Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, intitulado “Das quatro coisas que produzem grande paz”, seguido de orações e reflexões de São Francisco de Sales uma exclusividade à edição consultada e por nós indicada.

É válido esclarecer: quando Kempis escreve “Jesus: Filho, vou agora ensinar-te…”, não está registrando uma fala histórica de Jesus. Trata-se de uma meditação espiritual, escrita em forma de diálogo e colocada pelo autor na voz de Cristo.




Das quatro coisas que produzem grande paz


  1. Jesus: Filho, vou agora ensinar-te o caminho da paz e da verdadeira liberdade.
  2. A alma: Fazei, Senhor, o que dizeis, que muito grato me é ouvi-lo.
  3. Jesus: Filho, trata de fazer antes a vontade alheia que a tua. Prefere sempre ter menos que mais. Busca sempre o último lugar e sujeita-te a todos. Deseja sempre e roga que se cumpra plenamente em ti a vontade de Deus. O homem que assim procede penetra na região da paz e do descanso.
  4. A alma: Senhor, este vosso discurso é breve, mas encerra muita perfeição. Poucas são as palavras, cheias, porém, de sabedoria e de copioso fruto. Se eu as praticasse fielmente, não me deixaria perturbar com tanta facilidade. Pois, todas as vezes que me sinto inquieto e aflito, verifico que me desviei desta doutrina. Vós, porém, que tudo podeis e desejais sempre o progresso da alma, aumentai em mim a graça, para que possa guardar vossos ensinamentos e levar a efeito minha salvação.

Oração contra os maus pensamentos


  1. Senhor, meu Deus, não vos aparteis de mim, meu Deus, dignai-vos socorrer-me (Sl 70,13). Pois me invadem vários pensamentos, e grandes temores afligem minha alma. Como escaparei ileso, como poderei vencê-los?
  2. Capa da obra: "Imitação de Cristo", de Tomás de Kempis. Edição Editora Vozes.Diante de ti, são palavras vossas, irei eu e humilharei os soberbos da terra (Is 14,1); abrir-te-ei as portas do cárcere e te revelarei mistérios recônditos.
  3. Fazei, Senhor, conforme dizeis e dissipe vossa presença todos os maus pensamentos. Esta é a minha única esperança e consolação: a vós recorrer em toda tribulação, em vós confiar, invocar-vos de todo o coração e com paciência aguardar a vossa consolação.

Oração para pedir o esclarecimento do espírito


  1. Iluminai-me, ó bom Jesus, com a claridade da luz interior e dissipai todas as trevas que reinam em meu coração. Refreai as dissipações nocivas e rebatei as tentações, que me fazem violência. Pelejai valorosamente por mim, e afugentai as más feras, essas traiçoeiras concupiscências, para que se faça a paz por vossa virtude, e ressoe perene louvor no templo santo, que é a consciência pura. Mandai aos ventos e às tempestades; dizei ao mar: aplaca-te, e ao tufão: não sopres; e haverá grande bonança.
  2. Enviai vossa luz e vossa verdade (Sl 42,3), para que resplandeçam sobre a terra; porque sou terra vazia e estéril, enquanto não me iluminais. Derramai sobre mim vossa graça e banhai o meu coração com o orvalho celestial; abri as fontes de devoção, que reguem a face da terra, para que produza frutos bons e perfeitos. Erguei meu espírito abatido pelo peso dos pecados e dirigi meus desejos para as coisas do céu, para que, antegozando a doçura da suprema felicidade, me aborreça em pensar nas coisas da terra.
  3. Desprendei-me e arrancai-me de toda transitória consolação das criaturas, porque nenhuma coisa criada pode consolar-me plenamente ou satisfazer meus desejos. Uni-me convosco pelo vínculo indissolúvel do amor, porque só vós bastais a quem vos ama, e sem vós tudo o mais é vaidade.

Reflexões


O meio de adquirir esta disponibilidade para fazer a vontade do outro é fazer muitas vezes, na oração, atos de desprendimento e depois colocá-los em prática quando a ocasião se apresentar. Porque não basta despojar-se diante de Deus, pois isto se faz apenas com a imaginação e sem grande dificuldade. Mas quando é preciso fazê-lo efetivamente e, acabando de nos doar totalmente a Deus, encontramos uma criatura que nos dá ordens, aí a coisa é bem diferente. É neste caso que é preciso mostrar nossa coragem. Esta bondade e condescendência com a vontade do próximo é uma virtude de muito valor. Ela é símbolo da oração de união, porque, como esta oração não é outra coisa senão uma renúncia de nós mesmos em Deus, quando a alma diz com toda sinceridade que não tem mais vontade senão a vontade do Senhor, então ela está totalmente unida a Deus. Da mesma forma, renunciando à nossa vontade para fazer sempre a vontade do próximo, temos então a verdadeira união com o próximo, e é preciso fazer tudo isto por amor de Deus (Xe Entretien, III, 399).

Permanece em paz com um singular amor à vontade e Providência divina. Permanece com nosso Salvador crucificado, plantado no meio do teu coração. Eu vi, há algum tempo, uma jovem que trazia um balde de água na cabeça, no meio do qual ela havia colocado um pedaço de pau; eu queria saber por que o fizera, e ela me disse que era para deter o movimento da água, para que ela não derramasse. Então eu lhe disse: doravante é preciso colocar a cruz no meio de nossos corações, para deter os movimentos de nossas afeições nesse madeiro e por esse madeiro, a fim de que elas não se espalhem para outro lugar, para as inquietações e perturbações de espírito (94e lettre spirit., X, 303).


Por Tomás de Kempis (1380-1471),
capítulo 23 obra A imitação de Cristo.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “A Anunciação” (1442 – 1443), de Fra Angelico (c. 1395–1455).




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