O Brasil está gastando o que não sabe repor

Recorte da obra: "Evening" (1860), de Jules Breton (1827–1906).

“O melhor programa social é um emprego.”
Ronald Reagan (1911-2004)



Alguns me chamam de pessimista. Pode ser, embora eu tenha a desagradável impressão de que, no Brasil, costumamos chamar de pessimismo aquilo que os fatos insistem em confirmar.

Meu pessimismo, porém, é menos econômico do que pedagógico. Preocupa-me o dinheiro que estamos gastando, claro, mas me inquieta muito mais o modelo de brasileiro que estamos ajudando a produzir.

Durante gerações, famílias ensinaram aos filhos uma coleção pouco sofisticada de virtudes. Estudar, trabalhar, poupar, cumprir a palavra, suportar frustrações, levantar depois de cair, não gastar o que não se tem e não esperar que terceiros resolvam aquilo que podemos resolver. Chamávamos isso de educação. Hoje, dependendo do auditório, a lista quase exige pedido de desculpas.

Há anos martelo essa rocha porque nos tornamos extraordinariamente competentes em explicar os vícios do fracasso e cada vez mais constrangidos em defender as virtudes do sucesso.

Não sou suficientemente ingênuo para negar circunstâncias ou injustiças. O problema começa quando a explicação do passado recebe procuração para governar o futuro.

Abandonar quem genuinamente precisa de proteção não é liberalismo. É apenas crueldade com pretensão teórica.

Mas a dependência prolongada pode funcionar como anestesia, primeiro alivia, depois acomoda e, finalmente, pode tornar assustadora a hipótese de viver sem ela. É quando proteção se transforma em destino e o cativeiro ganha o nome respeitável de compaixão.

Ninguém precisa decretar o fim da autonomia no Diário Oficial. Basta encarecê-la. Quando trabalhar mais ameaça a segurança, empreender significa colecionar obstáculos, prosperar desperta suspeita e responsabilidade individual provoca constrangimento moral, os incentivos fazem silenciosamente aquilo que nenhum decreto teria coragem de admitir.

Nossa tragédia não é apenas tolerarmos privilégios, mas desejarmos trocar de lado no balcão. Quem amaldiçoa a fila nem sempre deseja acabar com ela. Às vezes está apenas furioso porque ainda não descobriu quem distribui as senhas.

E os modelos educam muito antes dos professores. Jovens não aprendem apenas com aquilo que lhes ensinamos, mas sobretudo observando quem recebe o prêmio, quem paga a conta, o que uma sociedade admira e aquilo que prefere desculpar. Antes de abandonar uma virtude, uma sociedade deixa de admirá-la; depois constrange quem ainda a defende e, finalmente, perde a capacidade de reproduzi-la.

É a descapitalização moral, um empobrecimento que nenhum PIB sabe medir.

O Estado pode transferir renda, mas não transfere disciplina, iniciativa, coragem, responsabilidade ou desejo de independência. Pode redistribuir os frutos dessas virtudes enquanto houver quem os produza. Depois, nem o Diário Oficial faz milagre.

Por isso, uma política social séria deveria perseguir uma medida aparentemente absurda de sucesso, perder clientes para a prosperidade. 

Precisamos conhecer nossa taxa de emancipação, não apenas quantos brasileiros foram protegidos, mas quantos conquistaram autonomia suficiente para dispensar a proteção.

Meu medo não é somente que um dia falte dinheiro para distribuir. 

É que, muito antes disso, comece a faltar quem ainda considere uma virtude produzi-lo.


Escrito por Alex Pipkin, PhD.
Publicado originalmente no website de Percival Puggina, em 3 de outubro de 2026.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “O entardecer” (1860), de Jules Breton (1827–1906).

A escolha de O entardecer traduz o espírito do texto: o trabalho pode ser árduo e cansativo, mas é dele que nascem a autonomia, a dignidade e a prosperidade que sustentam uma sociedade.




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