Em tempos nos quais a palavra “igualdade” ocupa lugar central nos discursos políticos, ideológicos e sociais, surpreende a precisão com que Santo Tomás de Aquino, no século XIII, distinguia conceitos que hoje frequentemente se confundem.
No excerto a seguir, extraído da “Suma Teológica”, o filósofo e teólogo discute a igualdade entre as três Pessoas da Santíssima Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo —, procurando demonstrar como podem ser distintas e, ao mesmo tempo, perfeitamente iguais.
Embora sua reflexão seja de natureza teológica, seu raciocínio também nos convida a pensar sobre questões que ultrapassam esse âmbito: igualdade significa ausência de diferenças? E, afinal, quando afirmamos que duas coisas são iguais, de que igualdade estamos falando? Atente que raramente nos referimos a uma igualdade absoluta em todos os aspectos.
Talvez dessa confusão decorram outros problemas atuais, como a dificuldade de compreender que tolerar não significa concordar, mas aceitar aquilo que discordamos. Como observa o escritor Alexandre Costa, dois torcedores de times de futebol diferentes que chegam a brigar ao se encontrarem na rua talvez sejam extremamente parecidos em inúmeros aspectos, sendo a preferência por um time de futebol uma das poucas coisas que os distinguem.
Enfim, os poucos parágrafos a seguir suscitam inúmeras reflexões, algumas das quais o próprio Santo Tomás nos ajuda a esclarecer. Quem sabe, por intermédio dessas meditações, este pequeno fragmento não lhe acenda a centelha que o levará a ler a “Suma Teológica” integralmente? Aliás, a obra está disponível em nossa seção de downloads.
Art. 1 – Se a igualdade convém às Pessoas divinas.
O primeiro discute-se assim. – Parece que a igualdade não convém às pessoas divinas.
1. – Pois, a igualdade supõe a unidade quantitativa, como está claro no Filósofo. Ora, em Deus não há nem a quantidade contínua intrínseca, chamada grandeza; nem a quantidade contínua extrínseca chamada lugar e tempo; nem a igualdade fundada na quantidade discreta, pois duas pessoas são mais que uma. Logo, às pessoas divinas não convém à igualdade. ![]()
2. Demais. – As pessoas divinas têm a mesma essência, como se disse. Ora, a essência é expressa como forma. Ora, a conveniência pela forma não produz a igualdade, mas, a semelhança. Logo, às pessoas divinas devemos atribuir a semelhança e não a igualdade. ![]()
3. Demais. – Quaisquer seres iguais o são entre si, pois, chamamos igual ao igual ao igual. Ora, as pessoas divinas não podem se considerar iguais entre si. Porque, como diz Agostinho, a imagem, que perfeitamente reproduz o ser de que é imagem, deve-lhe ser igual a ele, e não, ele a ela. Ora, imagem do Pai é o Filho, e portanto não é o Pai igual ao Filho. Logo, nas pessoas divinas não há igualdade. ![]()
4. Demais. – A igualdade é uma determinada relação. Ora, nenhuma relação é comum a todas as pessoas; pois, pelas relações é que as pessoas se distinguem umas das outras. Logo, a igualdade não convém às pessoas divinas. ![]()
Mas, em contrário, diz Atanásio, que as três pessoas são entre si coeternas e coiguais.
Solução
É forçoso admitirmos a igualdade das pessoas divinas. Pois, segundo o Filósofo, o igual é uma quase negação do menor e do maior. Ora, não podemos, nas pessoas divinas, introduzir o conceito de maior nem de menor; porque, como diz Boécio, a diferença de divindade resulta da opinião dos que a aumentam ou a diminuem, como os Arianos que, fazendo variar a Trindade pelos graus dos méritos, a destroem e introduzem nela a pluralidade. E a razão disso está em não poderem seres desiguais ter a mesma quantidade numérica. Ora, a quantidade em Deus não é senão a sua essência mesma. Donde resulta, que se existisse qualquer desigualdade nas pessoas divinas, elas não teriam a mesma essência e, portanto, não constituiriam um só Deus, o que é impossível. Logo, devemos admitir a igualdade das pessoas divinas.
Donde a resposta à primeira objeção
Há duas sortes de quantidade. Uma a chamada de massa ou dimensiva, só existente na matéria, e, portanto não nas pessoas divinas. Outra é a quantidade de virtude, assim chamada por se fundar na perfeição de uma natureza ou forma. E essa nós a designamos quando dizemos que um corpo é mais ou menos cálido segundo tiver o calor mais ou menos perfeitamente. Ora, esta quantidade virtual é considerada, primeiro, radicalmente, isto é, quanto à perfeição mesma da forma ou da natureza; e nesse sentido falamos em grandeza espiritual, como chamamos grande ao calor que o é pela sua intensidade e perfeição. Por isso, diz Agostinho, que, em coisas que não são grandes pela massa, ser maior é o ser melhor; pois, melhor se diz o que é mais perfeito. Em segundo lugar, a quantidade é considerada virtual, pelos efeitos da forma. Ora, o primeiro efeito da forma é o ser, pois, cada coisa tem o ser pela sua forma. E o segundo efeito é a ação, pois todo agente age pela sua forma. Por onde, a quantidade virtual se funda no ser e na ação. No ser, porque as coisas de natureza mais perfeita são de maior duração. E na ação, porque as coisas de natureza mais perfeita têm maior poder de agir. E assim, como diz Agostinho, entende-se que há igualdade no Pai, no Filho e no Espírito santo, porque nenhum deles precede pela eternidade, excede pela grandeza ou supera pelo poder. ![]()
Resposta à segunda
Considerada relativamente à quantidade virtual, a igualdade inclui em si a semelhança e ainda mais, porque exclui o excesso. Pois, todos os seres que comunicam pela mesma forma, podem ser chamados semelhantes, mesmo se participarem desigualmente dessa forma; como se se disser que o ar é semelhante ao fogo, pelo calor. Mas não se podem chamar iguais se um participar da forma mais perfeitamente que os outros. Ora, como não somente é a mesma a natureza do Pai e do Filho, mas também em ambos há igualdade perfeita, podemos dizer que o Filho é semelhante ao Pai,para excluirmos o erro de Eunômio; mas também podemos dizer que é igual, para excluirmos o erro de Ario. ![]()
Resposta à terceira
A igualdade ou a semelhança em Deus podem ser expressas de dois modos: por nomes e por verbos. Quando expressa por nomes, dizemos que há nas pessoas divinas mútua igualdade e semelhança; porque o Filho é igual e semelhante ao Pai, e inversamente. E isto por não ser a essência divina mais do Pai do que do Filho. Por onde, assim como o Filho tem a grandeza do Pai, que o torna igual a este, assim o Pai tem a do Filho, que também o torna igual a ele. Mas nas criaturas, como diz Dionísio, não há conversão da igualdade em semelhança. Pois, as coisas causadas se dizem semelhantes às causas por terem as formas destas; não, porém, inversamente, porque a forma está principalmente na causa e secundariamente, no causado. Os verbos, porém, significam a igualdade com movimento. E embora não haja movimento em Deus, pode ele todavia receber. Pois, pelo Filho receber do Pai o que o torna igual ao Pai, e não, inversamente, por isso dizemos que o Filho é o igual ao Pai, e não inversamente. ![]()
Resposta à quarta
Nas pessoas divinas não devemos considerar senão a essência em que comunicam, e as relações pelas quais se distinguem. Mas a igualdade supõe uma e outra coisa: a distinção das pessoas, porque nada é igual a si mesmo; e a unidade de essência, pois as pessoas são iguais entre si por terem a mesma grandeza e a mesma essência. É, porém, manifesto que uma coisa não se refere a si mesma por nenhuma relação real. E também nenhuma relação se refere a outra por qualquer terceira relação. Quando, pois, dizemos que a paternidade se opõe à filiação, essa oposição não é uma relação média entre a paternidade e a filiação, porque de um e outro modo a relação se multiplicaria ao infinito. Por onde, a igualdade e a semelhança, nas pessoas divinas, não é nenhuma relação distinta das relações pessoais, mas no seu conceito incluem tanto as relações distintivas das pessoas como a unidade de essência. Por isso o Mestre das Sentenças diz, que em Deus a apelação é somente relativa. ![]()
Excerto da obra Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino (1225-1274).
Para efetuar download da obra, em formato PDF, clique aqui.
Notas da editoria:
Imagem de capa: “The Holy Trinity” (Século XVII), de Francisco Caro (1627–1667).

