“A mente entorpecida eleva-se à verdade através das coisas materiais.”
Abade Suger de Saint-Denis (c. 1081–1151)
Nesta perspectiva, e para voltarmos ao objeto mais preciso deste livro, uma igreja não é simplesmente um monumento: é um santuário, um templo. A sua finalidade não é apenas «reunir fiéis», mas criar para eles um ambiente que permita à Graça a sua melhor manifestação; […] O santuário das grandes épocas — e é a ele que devemos reportar-nos para recolhermos um ensinamento conforme aos princípios, eventualmente aplicáveis a novas produções — é um «instrumento» de recolhimento, de alegria, de sacrifício e de elevação.
[…]
Estas observações podem dar-nos uma ideia do modo como as épocas de alta intelectualidade tiveram o cuidado de tornar sensível a harmonia existente entre o mundo sensível e o mundo espiritual.
[…]
Outro motivo ornamental: a roda [ver fotos]. Nos monumentos mais antigos e até à época carolíngia, essa roda era uma cruz dentro de um círculo ou, na maioria dos casos, o monograma de Cristo igualmente inscrito num círculo: […] Este signo é análogo à roda cósmica, que não é senão o diagrama do próprio mundo, concebido no seu movimento cíclico. […] Este símbolo, gravado no lintel das portas muito sóbrias das igrejas carolíngias, explicitava a assimilação da Porta a Cristo. Ora, foi ela que, por combinação com o oculus oriental, deu origem à rosácea, cujo carácter de roda cósmica é atestado pelo fato de ter com frequência doze raios e de os signos do Zodíaco ou os doze apóstolos estarem figurados em medalhões em redor, enquanto o centro, o cubo imóvel, é ocupado pelo Cristo glorioso.
[…]
A admirável realização que é a igreja das épocas antigas não é produto de um sentimento, ou mesmo de uma intuição puramente estética. Inspirada pela teologia, é também apoiada pela cosmologia. […] Os grandes vitrais descrevem, em geral, a história do mundo na sua relação com o mistério da Redenção. […] Por essa razão, a disposição dos vitrais será estudada de molde a estar em harmonia com o ritmo solar que marca o escoar do dia. Assim, por exemplo, na Sainte-Chapelle, os vitrais serão «lidos» a partir da parede norte, passando pela ábside e pela parede sul, até chegar à rosácea ocidental.
[…]
Percorre-se assim a história do mundo, da Criação à Parusia, acompanhando o ritmo do dia. […] A rosácea da cidade santa está situada a oeste, onde o Sol visível se põe, porque essa descida do Sol no final do dia simboliza igualmente o fim deste mundo e o aparecimento do mundo novo, onde não haverá necessidade do Sol, porque o próprio Cordeiro será o astro luminoso.
Excerto da obra O Simbolismo do Templo Cristão, de Jean Hani (1917-2012).
Publicado pela Editora Almedina, sob ISBN 978-9724406381, em janeiro de 1999.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “The Interior of the Abbey Church of Saint Denis” (c. 1891), de Paul César Helleu (1859–1927).
Fotos:

Sainte-Chapelle, Paris, França. Construída entre 1242 e 1248, por ordem do Rei São Luís IX, é uma das obras-primas da arquitetura gótica.

Sainte-Chapelle, Paris, França.

Sainte-Chapelle, Paris, França.

A Roda

Rosácea gótica da Catedral de Notre-Dame, Paris, França. Notre-Dame é uma das maiores expressões da arquitetura gótica medieval.

Rosácea gótica da Catedral de Notre-Dame, Paris, França.

Catedral de Orvieto, Itália. Iniciada em 1290, é uma das grandes realizações da arquitetura religiosa medieval italiana.

Catedral de Palma de Mallorca, Espanha. Iniciada no século XIII, destaca-se por sua monumental arquitetura gótica e sua extraordinária rosácea, uma das maiores do mundo gótico.

Catedral de León, Espanha. Construída a partir do século XIII, é uma das grandes expressões da arquitetura gótica espanhola.

