“Oh, mia patria sì bela e perduta!
Oh, membranza sì cara e fatal!”
Giuseppe Verdi (1813-1901), na ópera Nabucco (informal hino italiano).
Levei dois dias inteiros sem conseguir escrever uma linha sequer sobre o que aconteceu no dia 25 de outubro. Repetidas vezes tentei reunir o Gabinete de Crise que me atende nessas encrencas, mas meus botões nem saíram de suas casas. Já não reconhecia o meu país — “Oh, lembrança tão querida e fatal!” … Via-me exilado bíblico em terra estranha, Babilônia distópica, onde se consumira minha liberdade.
Nos primeiros minutos da proclamação do resultado, afirmei aos meus botões ainda bons ouvintes: será bem-feito que os crentes nas bravatas de Lula e os carentes que compraram, com voto, o escandaloso e multibilionário pacote das ilusões vendidas paguem pelo erro que cometeram! Quanta decepção os aguarda! Teriam sido também sete, os minutos dessa raivosa reflexão? Terão eles transcorrido simultaneamente com a expedição da ordem a Flávio Bolsonaro para entregar passaportes? Em seguida, porém, lembrei-me dos injustiçados, dos presos políticos, dos exilados, dos foragidos, dos heróis e das vítimas do arbítrio e dos abusos. E rezei por todos para que tenham força na longa travessia.
Enquanto as horas fluíam, eu ouvia insistentes questionamentos sobre o resultado das urnas. Onde se escondia a verdade? As sociedades convivem muito mal com a imprevisibilidade e, convenhamos, isso é meritório. A previsibilidade é fator de segurança e a insegurança tem preço. Pode custar muito caro, e o inesperado vem de todo lado. Um dia, a inesperada paradinha na contagem de votos, que alguns já aguardam olhando o relógio; no outro, a esticadinha. Um dia, decisão autorizando a censura em nome da verdade; no outro, decisão autorizando a mentira em nome da liberdade. Um dia, o STF se intromete em decisões de competência do TSE; no outro, o que vale para alguns não vale para todos. E vice-versa.
Em fins dos anos 80, quando coordenei a assessoria à bancada do PFL na Assembleia Legislativa do RS, procurei promover palestras sobre temas de democracia liberal. Com esse intuito, precisava agendar o uso de uma das salas de comissão existentes no prédio do parlamento gaúcho. Sabe o leitor qual era a dificuldade? Conseguir qualquer uma que a bancada do PT já não tivesse, antecipadamente, agendado para seu uso. O partido reunia constantemente a militância segundo suas várias correntes internas ou em grupos com interesses e pautas específicas.
Nos anos seguintes, esse ativismo produziu sucessos eleitorais surpreendentes para uns, mas previsíveis por outros. Após quatro vitórias consecutivas em eleições à prefeitura de Porto Alegre, entre 1998 e 2004, o partido foi derrotado. Lembro que logo após, em declaração à imprensa, um dirigente recomendou a seus companheiros e camaradas que voltassem a ler a obra de Antonio Gramsci. Essa leitura leva ao que já tinha acontecido e ao que veio depois: tomar o ambiente cultural, mobilizar multidões, disseminar narrativas, destruir reputações e instrumentalizar a máquina pública. Refiro-me, em especial, às carreiras de Estado, ao imenso aparelho educacional do país, ao movimento sindical, aos movimentos sociais, à ampla parcela de minha amada Igreja Católica cativada pela Teologia da Libertação. Não há movimento conservador ou liberal capaz de algo minimamente próximo a isso.
O que acabei de descrever basta para justificar a radical reversão de previsões, cientificamente elaboradas pelos institutos de pesquisa? De onde saíram tantos milhões de lulistas em apenas três semanas? É uma pergunta séria, com respostas difíceis de sustentar ou contestar. A máquina é ruidosa ou silenciosa segundo a própria conveniência. Assim como não há previsibilidade, não há credibilidade, pois esta última se autodestruiu ao inutilizar os meios que poderiam ser usados para esclarecer, com autoridade, quaisquer dúvidas supervenientes.
A esquerda releu Gramsci e foi para a eleição. Usou, uníssona, todos os coelhos de sua cartola de anomalias. A direita ouviu falar dele e só aprendeu a culpá-lo, em vez de aproveitar do que, de realmente importante, ele ensinou sobre construção da hegemonia! Quantos dos nossos líderes partidários leram Olavo de Carvalho? Quantos levaram a sério o dever de casa? Quantos olharam além da primeira cerca? Agora, a direita parece dividir-se mais um pouco e põe em risco a futura presidência do Senado.
Por Percival Puggina.
Publicado no website do autor, em 1º de novembro de 2026.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “Os judeus lamentando no exílio” (c. 1832), de Eduard Bendemann (1811–1889).














































