Nota da editoria: Escrito durante a pandemia do COVID-19, válido até o dia do Juízo Final.
Não temos o controle, somos impotentes, frágeis demais, fracos, não somos capazes…
Esquece a autoajuda, o coaching e todas aquelas ideias de que podemos qualquer coisa, porque a realidade sempre disse o contrário e, em tempos de calamidade, ela grita de modo incontestável: você não é capaz!
Então, bem vindo à realidade! Você nunca teve, não tem e não terá o controle sobre as circunstâncias; nenhum controle sobre a vida… Antes e agora, você e eu sempre estivemos na mesma condição: impotentes.
Nosso drama não diz respeito apenas à possibilidade de morrer por causa de um vírus que, de repente, veio nos tirar a estabilidade. Mas, diz respeito à nossa condição que o vírus em nada alterou: somos mortais, sujeitos a todo tipo de sofrimento, agitados por desejos contraditórios, habitando um mundo sobre o qual não temos controle. Quem somos? De quem somos? Quem é o dono disso tudo? Para onde vamos? Qual o sentido da vida? Qual o propósito para o qual fomos feitos?
Esqueça toda aquela crendice sobre ser dono de si. “Meu corpo, minhas regras”?! Um simples vírus tem mais poder sobre seu corpo, sua família, seu país, economia e planeta do que você e toda a humanidade junta. De que serve a filosofia humanista acumulada para nos alienar da realidade sobre quem e de Quem somos, quando os fatos nos acordam aos berros?
O vírus não inventou a morte, apenas a colocou diante de nós de modo que não podemos passar sequer um dia sem vê-la repetidamente estampada por aí, como lembrete indelével de nossa finitude. O que fazer com esse incômodo lembrete que o noticiário insiste em ecoar quando boa parte de nossos entretenimentos — anestesia para nossas almas — nos foi tirada?
Não, isso não é um convite ao desespero. É um convite a buscar esperança onde possamos encontrar: fora de nós. E não adianta imaginarmos um deus qualquer para nos socorrer agora. Um deus qualquer é tão inútil quanto cruzar os dedos quando se precisa de um milagre. Ou encontramos o Deus real, ou estamos perdidos.
Só há esperança naquele que inventou a vida e tem o absoluto controle sobre cada evento da história. Tudo vem dele e existe para ele. Por que alguém desperdiçaria a existência sem buscar conhecê-lo com toda a sua força e todo o seu ser?
Aquele que teceu o Universo, criou desde os assustadores buracos negros até as flores mais delicadas, distribuiu a variedade de cores e fez o olho para se encantar com a beleza, não se revelaria às suas criaturas? Colocou a eternidade no coração humano para que não ficássemos satisfeitos com nada menos que Ele mesmo. É por ele que ansiamos profundamente quando construímos castelos de areia, nossos ídolos, nos quais depositamos esperança…
Quanta misericórdia ele tem para desmanchar castelos, derrubar ídolos, abrir nossos olhos a fim de o buscarmos!
Por Noeme Rodrigues de Souza Campos.
Publicado originalmente no website da Editora Ultimato, em 12 de abril de 2020.
Nota da editoria:
Imagem da capa: “Sand castle day”, por Sally Swatland.