O doutor da desconstrução: quem é Jacques Derrida?

Obra: "Jacques Derrida", por Mark Mckelvie.

Para fingir, eu realmente faço a coisa: eu, portanto, apenas finjo fingir.
Jacques Derrida (1930 – 2004)



Parece que as palavras, atualmente, trocam de significado todos os dias. Os termos “homem” e “mulher”, por exemplo, são agora entendidos como significando uma variedade de realidades mutuamente excludentes. O que era claro e simples tornou-se conflituoso e confuso. Como chegamos até aqui, por que isso importa e quem é o responsável?

Entra em cena o filósofo francês Jacques Derrida.

Jacques Derrida (1930 – 2004) nasceu na Argélia governada pela França. Lá recebeu uma educação francesa, antes de ingressar, em Paris, na École Normale Supérieure, escola de filosofia de elite, após o que lecionou filosofia em diversas instituições na França e nos Estados Unidos. Ele foi um escritor profícuo em uma ampla gama de assuntos, particularmente no campo da linguística e das teorias literárias. Além dos estudos literários, as ideias de Derrida impactaram estudos jurídicos, de história, teorias políticas e virtualmente todas as outras áreas das ciências humanas.

O que é a desconstrução?


Derrida ficou especialmente famoso por ter fundado, nos fins da década de 60, a escola filosófica da “desconstrução”, método de crítica a textos, à arte e às instituições políticas. Essa escola encontra, em qualquer amostra de linguagem, muitos duplos sentidos e contradições, até o ponto em que o texto “desconstrói” a si mesmo.

De acordo com Robert Dale Parker, em How to Interpret Literature: Critical Theory for Literary and Cultural Studies, “os desconstrucionistas acreditam em significados múltiplos. (…) Para um desconstrucionista, tudo é múltiplo, instável, e sem unidade (…) não é possível amarrar a linguagem”.

Uma importante influência sobre o trabalho de Derrida é a do linguista suíço Ferdinand de Saussure. Saussure propôs que as palavras não correspondam realmente às coisas, mas apenas a outras palavras no interior do sistema da linguagem. Os desconstrucionistas pegaram esta ideia e extrapolaram-na ainda mais. Como afirma Parker, “significados aparentemente singulares ou estáveis dão lugar a um interminável jogo de linguagem que os multiplica”. Em um cenário como este, as intenções de um autor são, em última análise, impossíveis de se conhecer, e certamente não podem estabilizar o sentido de um texto, que possui sua própria vida subversiva.

Derrida demonstra sua teoria desconstrucionista em sua própria escrita. Muitos filósofos e críticos literários modernos escrevem numa prosa imperscrutável, mas Derrida é o mestre. Ele tem o hábito de colocar termos chave entre aspas, implicando a instabilidade do significado da palavra. Ao ler um ensaio de Derrida, tem-se a impressão de que ele está piscando para você — talvez até zombando de você —, enquanto subverte o sentido de sua própria escrita em tempo real. A experiência nos causa uma primeira reação: desorientação — e acredito que este seja mesmo seu objetivo.

É claro que o sistema desconstrucionista cai por terra com uma pequena análise racional. Seu apelo depende do que eu chamaria “truque de mágica intelectual”. Isso porque se a desconstrução é verdadeira e toda afirmação é realmente uma contradição, gerando uma multiplicidade de significados, então a comunicação é simplesmente impossível. Ainda assim, de alguma forma, continuamos a nos comunicar.

Ademais, se a desconstrução é verdadeira, os próprios ensaios de Derrida são literalmente sem sentido. Eles provam o desconstrucionismo e o refutam ao mesmo tempo. Eles o explicam e o obscurecem ao mesmo tempo. Logo, seguindo os princípios do próprio sujeito, posso, se eu quiser, facilmente dizer que Derrida foi quem pôs um fim à filosofia da “desconstrução”, em vez de tê-la fundado.

Mais ainda, se os desconstrucionistas realmente acreditassem em suas próprias ideias, parariam de falar e de escrever. Se não podemos de fato conhecer as intenções de um autor, e se as palavras são muito escorregadias para ter qualquer significado confiável, então a comunicação é inútil.


Influências e alvos da desconstrução


O que Derrida e seus seguidores estão realmente preocupados em desconstruir, pois, não é todo o pensamento, nem toda a linguagem (o que os deixaria sem emprego). Em lugar disso, a desconstrução “procura ‘desconstruir’ os (…) pressupostos tradicionais que infectam todas as histórias, bem como as ‘verdades’ filosóficas e religiosas”, como explica a Counterbalance Foundation.

Os discípulos de Derrida voltam-se para a ideia de que toda filosofia humana é uma máscara para variados tipos de tomada de poder. “O desconstrucionismo é baseado na premissa de que muito da história humana, ao buscar-se entender e, então, definir a realidade, levou a diversas formas de dominação — da natureza, das pessoas de cor, dos pobres, dos homossexuais etc”, de acordo com a Counterbalance Foundation.

Derrida menciona Hegel, Marx e Nietzsche como influências ao desconstrucionismo, tal como se vê, por exemplo, em seu livro Espectros de Marx. E ainda que Derrida não rotule o desconstrucionismo exatamente como um derivado do marxismo, ele também não nega plenamente esta sua genealogia, dizendo que o desconstrucionismo “permaneceu fiel a um certo espírito do marxismo”.

O que é este espírito do marxismo que Derrida incorpora? É, em seus próprios termos, um espírito “messiânico” de crítica e ataque, ou seja, o perpétuo criticismo de qualquer forma de dogmatismo ou verdade objetiva.

No fim, muitos intelectuais modernos acabam se entregando. Sua cruzada final é contra a noção de verdade ela mesma, ao menos contra qualquer verdade absoluta, particularmente religiosa. Para eles, essa verdade é tirânica e um alvo de seu non serviam.

Por que eles odeiam a verdade? A verdade é limitante, e exige humildade por parte de todos nós. A noção de verdade significa que precisamos conformar nossas mentes ao mundo, em vez de conformar o mundo às nossas mentes.

E a verdade traz, também, implicações morais e pessoais.

Revolução sexual


O niilismo da filosofia de Derrida leva a certos caminhos morais alarmantes: se nada é, tudo serve.

Em certa medida, temos aqui um cenário “o ovo ou a galinha”. Um filósofo cria um sistema metafísico (ou antimetafísico) de modo a justificar certos comportamentos imorais? Ou o sistema corrompe tanto a mente e a alma que a imoralidade segue-se naturalmente? Provavelmente um pouco dos dois.

De qualquer modo, no caso de Derrida, estou me referindo à questão da pedofilia. É um fato histórico que ele fez parte do grupo de intelectuais que assinaram uma petição pela legalização do sexo com crianças (sem qualquer surpresa, Michel Foucault e Jean-Paul Sartre também eram signatários1).

Não estou afirmando, é claro, que Derrida fosse um pedófilo. Mas é evidente que advogar pela descriminalização de coisas tão más quanto a pedofilia era parte necessária da revolucionária tentativa do filósofo de quebrar todas as distinções e limites, na vida tanto quanto na linguagem. Esses intelectuais desejaram desconstruir tudo o que herdaram da civilização ocidental, particularmente as estruturas da moralidade, e começaram pelas palavras.

Como afirma o filósofo Josef Pieper no livro Abuse of Language, Abuse of Power, “as palavras e a língua formam o meio que sustenta a existência comum do espírito humano como tal. (…) Se a palavra é corrompida, a própria existência humana não passará inatingida e imaculada”.

Estamos agora testemunhando os resultados dessa corrupção da linguagem.


Por Walker Larson.
Tradução: Daniel Marcondes.

A tradução foi originalmente publicada em 8 de janeiro de 2024,
no website do tradutor: https://danielmarcondes.substack.com/.

Para acessar o artigo original, em inglês, clique aqui.


Notas:

  1. Cf. meu artigo Vigiar e punir, estuprar e omitir. Entre os intelectuais famosos que assinaram a petição estiveram também Simone de Beauvoir (a cuja exploração sexual de menores parte do artigo é especialmente dedicada), Gilles Deleuze, Louis Althusser, Jean-François Lyotard, Françoise Dolto, Guy Hocquenghem e outros. — NT. Subir

Nota da editoria:

Imagem da capa: “Jacques Derrida”, por Mark Mckelvie.


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