O mal não é um ser

Obra: "Fallen angel" (1872), por Odilon Redon (1840 - 1916).

Os dois erros de compreensão mais comuns a respeito do mal, e que tornam esse problema
ainda mais difícil, são: (1) a tendência das pessoas de perceberem o mal como um ser;
e (2) a confusão entre dois tipos muito diferentes de mal, o físico e o moral.

Excerto da obra: Manual de Defesa da fé: Apologética Cristã, por Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.



O mal não é um ser, uma coisa, uma substância ou uma entidade. Essa foi a grande descoberta de Agostinho (em Confissões) que o libertou do dualismo maniqueísta (baseado no conflito entre dois princípios opostos: o bem e o mal). Agostinho percebeu que todos os seres são bons metafisicamente, ou ontologicamente, ou em sua existência. E existem duas categorias de seres: o Criador e os criados. Deus mesmo havia dito que Ele é bom e que tudo que havia criado era bom (Gênesis 1). E isso inclui todos os seres existentes.

Se o mal fosse um ser, o problema do mal seria insolúvel, porque: 1) Deus o teria criado, logo Ele não seria totalmente bondoso; ou 2) Deus não o teria criado — o que não faria dele o Criador todo- poderoso de todas as coisas.

Entretanto, o mal também não é uma coisa. As coisas não são malignas em si próprias. Por exemplo, uma espada em si mesma não é maligna. Maléfica poderá ser a forma como ela é usada, manejada. Então, onde está o mal? Está na vontade, na escolha, na intenção, na ação da alma, que traz uma ordem errada para o mundo físico por meio de ações nocivas aos seres e às coisas.

Lúcifer, ao ser criado por Deus, era bom. Mas tornou-se ruim. Se ele não tivesse possuído uma grande bondade ontológica (a bondade em sua existência), se não tivesse sido dotado com uma mente e uma vontade poderosas, talvez ele nunca teria se tornado tão moralmente corrupto quanto é atualmente. “Os lírios que apodrecem têm um cheiro muito pior do que o das ervas daninhas”. Corruptio optimi péssima, “a corrupção das melhores coisas produz as piores coisas”. Para sermos moralmente ruins, primeiro temos de ser ontologicamente bons.

Até mesmo o mal físico não é uma coisa. A falta de força num membro paralisado é um mal físico, mas não é algo como outro membro do corpo. A cegueira é um mal físico, mas também não é um olho, por exemplo. A catarata que causa o mal, em si própria, não é o mal; o mal está no que a catarata acarreta: o comprometimento da visão.

Então, o mal seria algo meramente subjetivo? Uma fantasia ou uma ilusão? Não porque, se fosse apenas uma ilusão subjetiva, o fato de temermos essa mera ilusão seria um mal verdadeiro. Como disse Agostinho: “Portanto, ou o mal que tememos é real, ou o fato de que o tememos é maligno”.

O mal é real, mas não é uma coisa real. Ele não é subjetivo, mas também não é uma substância. Agostinho definiu o mal como o amor desordenado, uma vontade desordenada. É um relacionamento errado, uma inconformidade entre nossa vontade e a vontade de Deus. Deus não criou o mal; nós o fizemos. Essa é a mensagem óbvia presente em Gênesis 1 e 3, onde vemos o relato da criação de Deus e o do pecado da humanidade.

Uma vez que tenhamos percebido essa mensagem, esta se mostra tão simples e óbvia, que normaímente lidamos com ela de maneira displicente. Entretanto, sem a mesma, certamente acolhería­ mos uma das duas heresias muito populares: 1) a idéia de que nós, e não Deus, somos os criadores do bem — a negação de Gênesis 1; ou (2) a idéia de que Deus, e não nós, é o criador do mal — a negação de Gênesis 3. (O idealismo panteísta da Nova Era combina essas duas heresias.)


Há dois tipos de mal: o moral e o físico


A segunda confusão básica a respeito do mal é o fracasso das pessoas em distinguir entre o mal moral e o mal físico, o pecado e o sofrimento, o mal que realizamos e o mal que sofremos passivamente, o mal que desejamos livremente e o mal que vai contra a nossa vontade, o mal pelo qual somos diretamente responsáveis e aquele pelo qual não somos.

Precisamos apresentar duas explanações diferentes para esses dois tipos de males, para explicar tanto sua causa como sua cura. A origem do pecado está no livre-arbítrio humano. A origem imediata do sofrimento é a natureza humana, ou melhor, o relacionamento entre nós e a nossa natureza. Podemos dar uma topada com o pé em algum lugar, pegar pneumonia ou morrer afogados. Portanto, Deus não é responsável pelo pecado, mas aparentemente tem responsabilidade pela causa do sofrimento — a menos que o sofrimento também tenha origem no pecado do ser humano. É isso que faz o relato em Gênesis 3. Sem explicar como, a Bíblia nos diz que os espinhos e abrolhos, o suor do rosto [o cansaço, o enfado] e as dores de parto são todos resultado de nosso pecado.


Excerto da obra: Manual de Defesa da fé: Apologética Cristã,
escrita por Peter Kreeft e Ronald K. Tacelli.

(Central Gospel, ISBN 978-8576890652).


Nota da editoria:

Imagem da capa: “Fallen angel” (1872), por Odilon Redon (1840 – 1916).


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