“O conservadorismo advém de um sentimento que toda pessoa madura compartilha com facilidade:
a consciência de que as coisas admiráveis são facilmente destruídas, mas não são facilmente criadas.”
Roger Scruton (1944 – 2020)
Ninguém jamais iniciou uma guerra para impor uma causa conservadora, nem promoveu uma revolução para implantar um “sistema” conservador. Seria porque o conservadorismo carece de causa, doutrina ou proposta?
No século XX, diversas bandeiras agitaram as sociedades. Multidões lutaram pelo socialismo, comunismo, fascismo, nazismo, nacionalismos e até pelo liberalismo. Mas ninguém foi às barricadas pelo conservadorismo. Isso ocorre, provavelmente, porque ele não se apresenta como um sistema fechado. Como observa Roger Scruton, “o argumento não é a ocupação favorita dos conservadores”, pois eles costumam ver “perigo no pensamento abstrato”.
Todavia, diante da ameaça de tantas ideologias fundamentadas em manuais e dogmas, os conservadores viram-se obrigados a improvisar, acabando por expressar suas crenças em uma “linguagem conciliatória e vaga”. O problema é que o mundo moderno não busca nuances; ele anseia por utopias, soluções definitivas e sistemas perfeitos. Por isso, chegou-se a dizer que a política conservadora sequer existe e que seu pensamento não passa de uma quimera.
Mentes habituadas a raciocinar apenas em termos de “propostas e ação” identificaram no conservadorismo somente a reação, rebaixando-o a uma categoria intelectual inferior. Scruton, porém, embora reconheça que a essência conservadora é muitas vezes “inarticulada e cética”, ressalta que ela possui uma “consciência da complexidade das coisas humanas e uma adesão a valores que não podem ser compreendidos pela clareza abstrata da teoria utópica”.
Para o filósofo, essa postura não impede que a atitude conservadora e a doutrina que a sustenta sejam sistemáticas e razoáveis. Ele defende que é perfeitamente possível — e necessário — delinear uma doutrina conservadora, sob o risco de que, sem ela, o movimento perca seu apelo intelectual.
A mente moderna encara a sociedade como uma construção artificial, fruto exclusivo da racionalidade e do planejamento humano. Para dialogar com esse mundo, o conservadorismo precisa ser capaz de propor algo concreto e apresentar-se de forma organizada. Scruton estava convencido de que o conservadorismo é plenamente capaz de realizar essa tarefa.
Por Fabio Blanco.
Publicado no canal do Telegram do autor, em 22 de dezembro de 2025.
Fabio Blanco também é o responsável pelo portal filosofiaintegral.com.br, e seu wesite fabioblanco.com.br.
Notas da editoria:
Gostaríamos de ter nomeado este artigo da mesma forma que o autor, com o título “A necessidade de uma doutrina conservadora” e o subtítulo “Por que ninguém faz revoluções pelo conservadorismo”; porém, por questões técnicas, foi necessário excluir o subtítulo. ![]()
A imagem da capa é um recorte da obra “Liberdade armada com o cetro da razão derrubando a ignorância e o fanatismo” (1793), de Louis-Simon Boizot (1743 – 1809). ![]()











































