G. K. Chesterton: um trecho da obra “O que há de errado com o mundo”

Obra: "Metamorfose de Narciso" (1937), de Salvador Dalí (1904 - 1989).

Trecho do tópico “O Erro Médico”, do primeiro capítulo da obra “O que há de errado com o mundo”, de G. K. Chesterton.
Baseado no original “What’s Wrong with the World”, em domínio público e disponibilizada pelo Project Gutenberg
.



Um livro de investigação sociológica moderna tem uma estrutura rigidamente definida. Começa, habitualmente, com uma análise, com estatísticas, com tabelas de população, com a constatação da diminuição da criminalidade entre os congregacionalistas e o aumento da histeria entre os policiais, com toda sorte de fatos apurados. Termina com um capítulo que costuma intitular-se “a solução”. Se “a solução” nunca chega a ser encontrada, isso se deve quase exclusivamente a esse método científico, cuidadoso e sólido, pois esse esquema médico de pergunta e resposta é uma tolice — a primeira grande tolice da sociologia. Sempre força a determinar a doença antes de encontrar a cura, quando a própria definição e dignidade do homem exige, na verdade, que, em questões sociais, encontremos a cura antes da doença.

Essa é uma das cinquenta falácias surgidas da compulsão moderna por metáforas biológicas ou corporais. É conveniente falar do “Organismo Social”, assim como é conveniente falar do “Leão Britânico”. Mas a Grã‑Bretanha não é mais um organismo do que um leão. A partir do momento em que atribuímos a uma nação a unidade e a simplicidade de um animal, começamos a pensar de forma selvagem. Não é porque todo homem é bípede que cinquenta homens formarão uma centopeia. Isso leva à aberração de sempre falar em “nações jovens” e “nações moribundas”, como se uma nação tivesse um prazo físico de vida. Assim, diriam que a Espanha entrou numa senilidade terminal — poderiam igualmente dizer que a Espanha está perdendo todos os dentes. Ou diriam que o Canadá não tardará a produzir uma literatura — o que seria como dizer que não tardará a crescer-lhe um bigode.

As nações são feitas de pessoas: a primeira geração pode ser fraca e a décima milésima, vigorosa. Empregam-se falácias semelhantes para justificar o crescimento de impérios como se fossem aumento de sabedoria ou graça — como se a expansão de um Estado fosse, em si, um sinal de saúde. Nem se dão ao trabalho de perguntar se o império está crescendo em altura juvenil ou em gordura senil.

Mas, de todas as falácias derivadas dessa fantasia médica, a pior é a que temos diante de nós: o hábito de descrever longamente uma doença social e, só depois, propor um remédio social. Em casos de colapso físico, começamos pela doença por uma razão clara: pode haver dúvida sobre como o corpo adoeceu, mas não há dúvida sobre o que é revigorá-lo. Nenhum médico sugere produzir um novo tipo de homem com nova disposição de membros. Um hospital pode mandar alguém para casa com uma perna a menos — mas nunca com uma a mais. A medicina se contenta com o corpo humano normal e apenas procura restaurá-lo.

A ciência social, ao contrário, não se contenta com a alma humana normal, e vive oferecendo todo tipo de alma ornamental. O reformador diz: “Estou cansado de ser puritano; quero ser pagão” ou “Além desta sombria provação do individualismo vejo o resplendente paraíso do coletivismo.” Mas nas doenças do corpo não existe esse tipo de idealismo divergente. O paciente pode ou não querer quinino, mas sem dúvida quer saúde. Ninguém diz: “estou cansado desta dor de cabeça, quero experimentar uma dor de dente”, ou “a única solução para esta gripe russa é um pouco de sarampo alemão”. No corpo, o ideal é fixo.

Nos problemas públicos, contudo, o impasse é outro: alguns anseiam por curas que outros considerariam as piores doenças. O Sr. Belloc dizia que não abriria mão da ideia de propriedade assim como não abriria mão dos próprios dentes. Já Bernard Shaw via a propriedade como uma dor de dente. Lord Milner quis sinceramente nos dar a eficiência alemã, e muitos a aceitariam como se fosse uma febre passageira. O Dr. Saleeby quer a eugenia; eu, pessoalmente, prefiro o reumatismo.

Esse é o fato dominante e espantoso do debate social moderno: a disputa não está apenas nas dificuldades, mas nos fins. Concordamos quanto ao mal; quanto ao bem, arrancaríamos os olhos uns aos outros. Todos reconhecem que uma aristocracia indolente é má — mas isso não implica que uma aristocracia ativa seja boa. Todos se indignam com um clero irreligioso — mas alguns se indignariam ainda mais com um clero verdadeiramente devoto. Todos ficam aflitos se o exército é fraco — inclusive os que ficariam horrorizados se ele fosse forte.

O caso social é exatamente o oposto do caso médico. Os médicos discordam sobre o que é a doença, mas concordam sobre o que é a saúde. Nós, ao contrário, concordamos que há algo errado com o mundo — mas metade de nós jamais aceitaria como “certo” o que a outra metade chama de saúde florescente. Os abusos públicos são tão evidentes que parecem gerar uma unanimidade entre pessoas generosas. Mas esquecemos que, embora concordemos sobre os abusos, podemos discordar violentamente sobre os usos.

O Sr. Cadbury e eu provavelmente concordaríamos quanto aos pubs perniciosos. Mas seria diante do pub decente que nossa briga começaria. Eis por que afirmo a inutilidade do método sociológico comum, que se contenta em dissecar a miséria ou catalogar a prostituição. Todos repudiamos a miséria abjeta, mas nem todos valorizamos a pobreza digna. Todos condenamos a prostituição, mas nem todos defendemos a pureza.

A única maneira de falar sobre o mal social é começar pelo ideal social. Todos temos consciência da loucura nacional — mas o que é a sanidade nacional?


A obra de G. K. Chesterton, What’s Wrong with the World, foi publicada em 1910.

Em março de 2013, a Editora Ecclesiae lançou uma edição em português
da obra intitulada O que há de errado com o mundo.


Nota da editoria:

Imagem da capa: “Metamorfose de Narciso” (1937), de Salvador Dalí (1904 – 1989).


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