Monocromatismo mental

Obra sem título, de Jack Mallon

Buscar os fundamentos de coerência (ou coesão) da realidade implica compreender, desde cedo, que essa coerência apenas se encontra em sua plenitude no mais alto nível metafísico, no campo da eternidade, ao passo que em nossa esfera ontológica, imiscuída no tempo, o real nos chega todo entremeado de contradições e desencaixes que só podem ser resolvidos, justamente, nesses níveis mais elevados.

Esta é, portanto, a razão pela qual o raciocínio esquemático, em blocos, “preto no branco”, que parece ter-se tornado condição obrigatória em nossos dias, é tão perigoso e tão lamentável. Tentar catalogar as pessoas em simples bandeiras e estereótipos, derivando todo o julgamento de suas obras apenas a partir do rótulo sob o qual tenham sido etiquetadas — e pior: esforçar-se por atuar um personagem que melhor externalize o estereótipo do grupo que se gostaria de representar —, desconsiderando completamente toda a complexidade, profundidade e nuances da alma humana, e toda a complexidade de uma dimensão ontológica na qual a plena resolução de todas as contradições e tensões simplesmente não pode acontecer, é colocar-se no caminho mais seguro para jamais compreender intimamente nada nem ninguém.

Não é por acaso que, no mais das vezes, os que adotam essa postura buscam revestir-se, como numa compensação retroativa, dos símbolos externos da autoridade moral e intelectual: são os “sábios aos próprios olhos” a respeito dos quais nos advertem as Sagradas Escrituras.


Por Daniel Marcondes.
O autor também está no YouTube e no Telegram.


Notas da editoria:

Imagem de capa por Jack Mallon.


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