“Vai e faz a mesma coisa”

Obra: "O bom samaritano" (entre 1660 e 1665), por Giovan Battista Langetti (1625 – 1676).

Para uma melhor compreensão do artigo, ouça na voz de Décio Neves,
o Evangelho de Jesus Cristo segundo Lucas (capítulo 10, versículos entre 25 e 37):



A parábola do Bom Samaritano é tão conhecida que podemos perder o sabor e o sentido que dela podemos tirar para a nossa vida. Sabemos bem que Jesus muda a ordem das coisas: não se trata de saber quem é o meu próximo, mas de saber fazer-me o próximo de qualquer pessoa. Assim, para o discípulo de Jesus, não há mais desconhecido, pois “todos sois irmãos”.

A parábola do Evangelho deste domingo situa-nos nessa estrada de cerca de 30 quilômetros entre a cidade santa de Jerusalém e o oásis de Jericó. Na época de Jesus, é uma estrada perigosa, sempre infestada de bandos armados. Ora “um homem” não identificado foi assaltado pelos bandidos e deixado caído na beira da estrada. Trata-se, portanto, e isso é que é necessário lembrar, de “um homem” ferido, abandonado, necessitado de ajuda.

Pela estrada passou, um samaritano. Trata-se de um desses que a religião tradicional de Israel considerava um inimigo, um infiel, longe da salvação e do amor de Deus… No entanto, foi ele que parou, sem medo de correr riscos ou de adiar os seus compromissos e interesses pessoais, que cuidou do ferido e que o salvou. Apesar de ser um herege, um excomungado, mostra ser alguém atento ao irmão necessitado, com o coração cheio de amor e, portanto, cheio de Deus.

Jesus conclui a parábola dizendo ao mestre da Lei que o interrogara: “então vai e faz o mesmo”. A verdadeira religião que conduz à vida plena passa pelo amor a Deus, traduzido em gestos concretos de amor pelo irmão — por todo o irmão, sem exceção.

A pergunta do mestre da Lei, não é uma pergunta acadêmica; é a pergunta que os homens do nosso tempo fazem todos os dias: “O que fazer para chegar à vida plena, à felicidade? Como dar, verdadeiramente, sentido à vida?” A resposta eterna é: “Faz de Deus o centro da tua vida, ama-O e ama também os outros irmãos”. Trata-se, portanto, de fazer com que o amor seja vivenciado como nos ensina a Leitura do Deuteronômio de hoje: para perceber o projeto de salvação, de liberdade e de felicidade que Deus tem para os homens, basta olhar para o nosso coração e para a nossa consciência; é aí que Deus nos fala e é aí que nós escutamos as suas propostas e as suas indicações. Precisamos estar disponíveis para escutar e para perceber — no meio das contraindicações que as nossas paixões nos apresentam — as sugestões, os apelos, os desafios de Deus. É por aqui que passa a nossa realização plena.

Panfleto Povo de Deus“E quem é o meu próximo?” Excelente questão a deste doutor da Lei à procura de uma boa receita “para ter a vida eterna”. Porém, não há resposta pré-estabelecida, nem nos lábios de Jesus, nem na Internet… “Amarás! Trata-se de ver em cada pessoa — sem exceção — um irmão e de lhe dar a mão sempre que ele necessitar. Qualquer pessoa ferida com quem nós cruzamos nos caminhos da vida tem direito ao nosso amor, à nossa misericórdia, ao nosso cuidado — seja ela branca ou negra, cristã ou de outra religião, pobre ou rica… A verdadeira religião que conduz à salvação passa por este amor sem limites. Amor que se traduz em cuidado, em proximidade, em abrir o coração ao outro para viver uma bondade que cure as feridas e sofrimentos do próximo. Toda pessoa torna-se próximo para mim, na medida em que eu a considero como um irmão. Sem dúvida, temos ainda muito que aprender e vivenciar para concretizar nas nossas vidas o ensinamento do Senhor! Mas Jesus vai ainda mais longe quando nos ensina que devemos amar a todos, e orar pe os nossos inimigos; a aqueles que nos fazem o mal, devemos responder com o bem; a aquele que nos agride, devemos responder com o perdão; e ao que nos ofendeu devemos dirigir-lhe palavras de perdão”.

Nesta cidade imensa, em cada canto, em cada casa, em cada apartamento, encontraremos pessoas que precisam desse cuidado, dessa proximidade, desse deixar-se tocar pela nossa compaixão na situação por que passa cada um desses irmãos. Não é tanto saber quem será o nosso próximo, mas sobretudo, de quem nos tornaremos próximos. De quem nos vamos aproximar concretamente para pôr em ação este convite a amar?


Escrito por Padre Carlos Alberto Doutel.
Excerto do suplemento do folheto litúrgico: “Povo de Deus, de 13 de julho de 2025.
Para acessar folhetos litúrgicos de outras datas, acesse o website da Arquidiocese de São Pauloclicando aqui.


Nota da editoria:

Imagem de capa “O bom samaritano” (entre 1660 e 1665), por Giovan Battista Langetti (1625 – 1676).


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