Quatro pensamentos de Blaise Pascal sobre religião

Obra: "A Transfiguração" (1517-1520), de Rafael Sanzio (1483-1520).

Excertos da obra “Pensamentos“, de Blaise Pascal (1623 – 1662).

Pensamentos“ refere-se a uma coleção de fragmentos, notas e ensaios redigidos

pelo próprio matemático, físico, inventor, filósofo e teólogo francês. Pascal começou
a trabalhar nesses textos por volta de 1656, mas a obra nunca foi concluída devido à sua morte
prematura, em 1662. Postumamente, os manuscritos foram organizados e publicados por seus amigos e colaboradores.



A conduta de Deus, que dispõe todas as coisas com doçura, é pôr a religião no espírito pelas razões e no coração pela graça. Mas querer pô-la no coração e no espírito pela força e pelas ameaças não é pôr neles a religião, mas o terror. Começai por lastimar os incrédulos; eles são bastante infelizes. Não seria preciso injuriá-los, senão no caso em que isso servisse; mas isso lhes é prejudicial.

Toda a fé consiste em Jesus Cristo e em Adão; e toda a moral na concupiscência e na graça.




Toda a conduta das coisas deve ter por objeto o estabelecimento e a grandeza da religião; os homens devem ter, em si mesmos, sentimentos conformes ao que ela nos ensina; e, enfim, ela deve ser, de tal forma, o objeto e o centro para o qual tendem todas as coisas, que quem souber os seus princípios poderá explicar toda a natureza do homem em particular e toda a conduta do mundo em geral.

E, sobre esse fundamento, eles (os ímpios) tomam pé para blasfemar a religião cristã, porque a conhecem mal. Imaginam que ela consiste simplesmente na adoração de um Deus considerado como grande, poderoso e eterno, o que é propriamente o deísmo, quase tão afastado da religião cristã quanto o ateísmo, que lhe é totalmente contrário. E daí concluem que não veem que todas as coisas concorrem para o estabelecimento deste ponto: que Deus não se manifesta aos homens com toda a evidência que lhe seria possível.

Blaise PascalMas que, daí, concluam o que quiserem contra o deísmo, nada concluirão contra a religião cristã, que consiste propriamente no mistério do Redentor, o qual, unindo em si as duas naturezas — a divina e a humana —, retirou os homens da corrupção do pecado para reconciliá-los com Deus em sua pessoa divina.

Ela ensina, pois, a todos os homens estas duas verdades: que há um Deus de que os homens são capazes e que há uma corrupção na natureza que os torna indignos dele. Importa, igualmente, que os homens conheçam esses dois pontos; e é igualmente perigoso que o homem conheça Deus sem conhecer sua miséria, e conheça sua miséria sem conhecer o Redentor que pode curá-lo dela. Um só desses conhecimentos faz ou o orgulho dos filósofos que conheceram Deus e não sua miséria, ou o desespero dos ateus que conhecem sua miséria sem Redentor. E, assim como é igualmente da necessidade do homem conhecer esses dois pontos, é também igualmente da misericórdia de Deus fazer com que os conheçamos. A religião cristã o faz; é nisso que ela consiste. Examine-se a ordem do mundo sobre isso e veja-se se todas as coisas não tendem ao estabelecimento dos dois chefes dessa religião.




Há duas maneiras de persuadir as verdades da nossa religião: uma pela força da razão, outra pela autoridade de quem fala. Não nos servimos da última, mas da primeira. Não dizemos: “É preciso crer nisso, pois a Escritura que o diz é divina”; mas dizemos que é preciso crer por tal e tal razão, que são fracos argumentos, sendo a razão flexível a tudo.

(Os que parecem mais contrários à glória da religião não serão, por isso, inúteis para os outros. Faremos disso o primeiro argumento: que há alguma coisa de sobrenatural, pois uma cegueira dessa espécie não é uma coisa natural; e, se sua loucura os torna tão contrários ao próprio bem, ela servirá para garantir disso os outros, pelo horror de um exemplo tão deplorável e de uma loucura tão digna de compaixão.)




A dignidade do homem consistia, em sua inocência, em dominar as criaturas e aproveitar-se delas; mas hoje consiste em separar-se delas e sujeitar-se a elas.


Por Blaise Pascal (1623 – 1662).
Trechos da obra Pensamentos.


Nota da editoria:

Imagem da capa: “A Transfiguração” (1517 – 1520), de Rafael Sanzio (1483 – 1520).


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