“Nada é mais poderoso do que uma ideia cujo tempo chegou.”
Victor Hugo (1802-1885)
A densidade das obras de Olavo de Carvalho impressiona: comumente em poucos parágrafos encontram-se acervos com verdades atemporais, e didaticamente remetentes a uma coletânea de valiosos aprendizados. Para ilustrar essa riqueza, convidamos os leitores da Cultura de Fato a acompanharem, em sequência, pequenos trechos do capítulo introdutório de O Jardim das Aflições, aos quais acrescentamos comentários elaborados por nossa conta e risco. Desde já, advertimos que a obra é muito mais ampla e complexa do que o conteúdo aqui reproduzido.
As ideias moldam a sociedade, mesmo quando poucos as conhecem
O hábito brasileiro de olhar as manifestações culturais como um adorno supérfluo impede de enxergar as tremendas consequências práticas que as ideias filosóficas, mesmo difundindo-se apenas num estreito círculo de intelectuais, podem desencadear sobre a vida de milhões de pessoas que nunca ouviram falar delas e que, se ouvissem, não as compreenderiam. Ora, nada se parece mais a um adorno exterior, a um inócuo passatempo botânico de nefelibatas, do que uma conferência sobre o Jardim de Epicuro no estilo floreado de Motta Pessanha. No entender do superficialismo brasileiro, só mesmo a um doido varrido como eu ocorreria ver ali algo de mortalmente sério e perigoso. Mas, por olhos doidos ou sãos, o que vi estava lá, escondidinho e letal sob as flores. Posso provar isto, mas não vou fazê-lo na Introdução porque o faço no restante do livro.
Página 27
A tese central do trecho acima é que transformações históricas não começam necessariamente nas ruas ou nas urnas, mas frequentemente em círculos intelectuais reduzidos. Filosofias, teorias e visões de mundo elaboradas por poucos acabam, mais tarde, por influenciar milhões de pessoas.
Portanto, livros, conferências e correntes filosóficas mesmo que possam parecer assuntos distantes da vida cotidiana, frequentemente acabam influenciando milhões de pessoas.
Vale mencionar: O Jardim das Aflições nasceu após o impacto causado em Olavo de Carvalho por uma conferência de José Américo Motta Pessanha sobre Epicuro. O “inócuo passatempo botânico de nefelibatas” ocorreu no MASP.
O erro é simples; a correção é trabalhosa
Para liquidar de vez com a objeção, permito-me citar o único autor do qual posso me gabar de ter lido tudo quanto escreveu, e pelo qual nutro uma certa estima mista de melancolia e decepção: eu mesmo. “Uma lei constitutiva da mente humana — disse esse autor em A Nova Era e a Revolução Cultural — concede ao erro o privilégio de poder ser mais breve do que a sua retificação.”
Página 27
Olavo permanece atual em tempos de redes sociais, manchetes rápidas e informações virais. Explicar um equívoco pode exigir páginas inteiras; produzi-lo, por vezes, requer apenas uma frase.
A atualidade não é a mesma coisa que importância
Há aqui os esboços de uma interpretação global da história cultural do Ocidente moderno, que seria talvez melhor apresentada se em forma sistemática e fora de qualquer contexto polêmico. Essas ideias são a origem primeira e a meta do trabalho, que somente pelo valor ou desvalor delas admite ser julgado, e não pela importância muita ou pouca dos fatos, locais e momentâneos, que deram ocasião e pretexto ao seu aparecimento.
Página 27
O trecho convida à reflexão sobre como acontecimentos passageiros podem revelar questões permanentes da natureza humana, da cultura ou da civilização.
Testemunho intelectual e desapego às próprias opiniões
[…] Meu propósito não é mudar o rumo da História, mas atestar que nem todos estavam dormindo enquanto a História mudava de rumo. Não escrevi este livro pensando em seus efeitos políticos possíveis, mas simplesmente em esclarecer um pequeno círculo de amigos e leitores que desejam ser esclarecidos e me julgam capaz de ajudá-los nisso.
Nem mesmo pretendo mudar a opinião de quem goste da sua. Hoje em dia as pessoas criam opiniões como animais de estimação, sucedâneos do afeto humano. Quanto às minhas, trato-as a pão e água, ginástica sueca e chibatadas,levando muitas delas à morte por definhamento, a outras estrangulando no berço ou esmagando-as a golpes de fatos que as desmentem: fico com as que sobrevivem.
Página 27 e 28
O primeiro parágrafo acima expressa uma ideia clássica: a do intelectual como testemunha de seu tempo. O segundo sugere que, muitas vezes, as pessoas não defendem uma ideia por considerá-la verdadeira, mas porque desenvolveram em relação a ela um apego de natureza emocional.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “Corner of a Library” (1711), de Jan van der Heyden (1637-1712).
Sobre a imagem e sua escolha: A pintura retrata um canto de biblioteca repleto de livros e instrumentos de estudo, evocando a atmosfera silenciosa em que o conhecimento é preservado, transmitido e aprofundado ao longo das gerações. A escolha procura simbolizar a importância da cultura e das ideias na formação das sociedades, tema central dos excertos de O Jardim das Aflições aqui apresentados.










