Basta uma caneta azul

Recorte da obra: "The Burning of the Houses of Lords and Commons" (1834), de J. M. W. Turner (1775-1851).

Não remova uma cerca até saber por que ela foi colocada.
G. K. Chesterton (1874-1936)



Um querido ex-professor, em suas aulas, sempre procurava nos advertir que tudo nesta vida tem segundas intenções, mesmo um gentil “bom-dia”; o que não significa, necessariamente, que elas precisem ser más.

Pensando nisso, lembrei-me de uma passagem da obra “Ortodoxia”, de G. K. Chesterton, onde o autor nos conta uma historieta muito sugestiva, conhecida popularmente como “a parábola do poste”.

Conta-nos ele que, em uma cidadezinha qualquer, havia um poste de luz que seria removido pelas autoridades públicas e, para tanto, foi feita uma grande campanha para “esclarecer” a população sobre a importância da remoção deste trambolho barroco que atrapalhava a via pública e que, de acordo com os mesmos, era muito antiquado, desalinhado e, por isso, não ornava com os novos tempos.

Papo vai, papo vem, e a galera galerosa estava toda muito animada com a remoção do dito-cujo e, em meio a toda essa empolgação, eis que apareceu um frade franciscano, com seu surrado hábito cinza.

Ele se inscreveu para parlar. As autoridades, respeitosamente, lhe concederam a palavra. Então, ele foi até o púlpito e lembrou a todos que, antes de retirarmos o poste e destruí-lo, seria de fundamental importância que procurássemos refletir a respeito da luz. O que é a luz?

Ao ouvirem isso, as autoridades, os cidadãos presentes — e alienígenas que não foram convidados — começaram a vaiar o frade, enxotando-o dali, pois eles não tinham tempo para refletir sobre o que seria a luz, ou o que quer que fosse; e, após a sua retirada, o poste foi colocado abaixo, o que levou a galera ao delírio.

Passado algum tempo, as pessoas começaram a perceber que os maiores defensores da retirada do poste estavam interessados em ganhar algum com a venda do bronze que havia nele. Outros queriam que as ruas não mais fossem iluminadas para poderem, ao ar livre, praticar atos libidinosos e cometer crimes e delitos com maior tranquilidade.

Enfim, todos se tocaram de que realmente era necessário que tivessem parado para refletir a respeito da natureza da luz; e agora eles o farão, porém, irão fazer isso no escuro por ignorarem as tais das segundas intenções.

Bem, por isso, perguntamos: o que é a educação? O que ela é? Durante todo o correr do século XX, foram feitos incontáveis experimentos com base em teorias “inovadoras”, com o intento de melhorá-la e, em grande medida, quanto mais inovações foram sendo introduzidas (lá ele…), estranhos resultados foram sendo obtidos em médio e longo prazo.

Experimentos esses que continuam sendo empreendidos no século XXI, onde se chegou a realizar a façanha de a atual geração — os zoomers — ter um QI médio inferior ao da geração anterior; o chamado efeito Flynn reverso. Tudo isso, em grande medida, graças às teorias inovadoras que justificam e embasam as inúmeras decisões que foram e são tomadas por burocratas tão presunçosos quanto bem-intencionados — sempre bem-intencionados.

Boas intenções que nos levam a recordar o livro “As fronteiras da técnica”, de Gustavo Corção, onde o autor nos diz que a bomba nuclear não o assustava — nem um pouco. O que enchia o seu coração de medo era a caneta de um burocrata.

Pois é. Quantas e quantas insanidades foram perpetradas por uma caneta azul nas mãos de um burocrata bem-intencionado? Infelizmente, não foram poucas; e o estado em que se encontra a educação — e a deterioração da autoridade docente — apenas confirma esse medo, não é mesmo?


Por Dartagnan Zanela.
Originalmente publicado em 25 de junho de 2026, no blog do autor.
Dartagnan é professor e o autor da obra “Nas entranhas do leviatã” e outros livros.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “The Burning of the Houses of Lords and Commons, 16th October, 1834” (c. 1834-1835), de J. M. W. Turner (1775-1851).

Sobre a imagem e sua escolha:
A pintura retrata o incêndio que destruiu grande parte do antigo Palácio de Westminster, em Londres, na noite de 16 de outubro de 1834. Sua escolha, entretanto, não decorre do episódio histórico em si, mas de seu significado simbólico. Assim como um edifício construído ao longo de séculos pode ser consumido em poucas horas, instituições, tradições e valores também podem ser fragilizados por sucessivas decisões tomadas com excessiva confiança, insuficiente prudência ou sem a devida compreensão de sua própria finalidade.



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