Mitos sobre ricos e pobres

Recorte da obra: "The Money Changers" (c. 1548), por Marinus van Reymerswaele (c. 1490 – c. 1546).

Os fatos são coisas teimosas.
John Adams (1735-1826)



Há uma diferença fundamental entre procurar a verdade e ganhar pontos numa competição. Na política, a verdade é estritamente opcional e isso, também, parece ser verdade em parte da mídia.

Muito do que se fala sobre a renda dos americanos é dito para ganhar pontos. Por exemplo, repete-se infindavelmente que a renda média da família americana não tem crescido significativamente por décadas e que os salários estão, na realidade, se reduzindo.

Isso é muito útil na competição. Você pode imaginar a letra da música: a economia está estagnada, o “sonho americano” se tornou um pesadelo, nossos melhores dias já se foram, etc.

O fato de que as conclusões são completamente falsas não prejudica o “estilo musical” de ninguém. Autores de best-sellers amealham os lucros da “situação calamitosa” escrevendo tais coisas. Políticos mostram toda a sua compaixão prometendo nos resgatar do desastre econômico. Aqueles que querem se mostrar moderninhos desdenhando a sociedade americana, ficam contentes pelos pontos ganhos.

Um livro intitulado Myths of Rich and Poor (Mitos sobre Ricos e Pobres) de W. Michael Cox e Richard Alm expõe tal nonsense fraudulento. Apesar das estatísticas que mostram os salários reais descendo a ladeira, de alguma forma os americanos nunca consumiram tanto e nunca tiveram tantos bens.

Até 1970, por exemplo, somente um terço dos domicílios americanos tinha aquecimento central e ar condicionado, enquanto mais de quatro quintos tinham ambos em 1990. Além disso, as residências eram mais de um terço maior.

Um pouco mais de um quarto dos domicílios americanos tinha máquina de lavar pratos em 1970, enquanto mais da metade tinha tal eletrodoméstico em 1990. Somente 34% dos domicílios tinham televisão em cores em 1970, contra 98% em 1990.

Como isso pode acontecer com salários decrescentes? Estamos nos endividando cada vez mais? De fato, a riqueza líquida dos americanos mais que dobrou durante aqueles anos.

Havia algum tipo de Harry Houdini econômico que fazia tais mágicas?

Não. Na verdade, muito da retórica da competição envolve interpretações estatísticas fraudulentas. Os salários são apenas parte da compensação total — e uma proporção crescente da compensação total tem tomado a forma de benefícios indiretos. A compensação total está aumentando enquanto que os salários reais estão diminuindo.

Mesmo o declínio dos salários reais deve ser considerado um grão de areia. Eles são calculados tomando-se os salários em dinheiro e ajustando-os pelo índice de preços ao consumidor.

Somente um economista pode achar estimulante um índice de preços. O resto dos mortais, muito provavelmente, não prestará muita atenção a isso. Contudo, um índice de preços impreciso é parte do aparente declínio dos salários reais.

Quando o índice de preços diz que a inflação é de 3% ao ano, pode ser que ele esteja, mais provavelmente, entre 1,5 e 2%. Como todo mundo que já pagou um financiamento sabe, a diferença de um ponto percentual pode fazer muita diferença num período de décadas.

As estimativas dos economistas do quanto o índice de preços exagera a inflação vão da estimativa de um ponto percentual feita pelo ex-presidente do Federal Reserve, 1 Alan Greenspan, à estimativa de 1,5% feita por Michael Boskin, ex-presidente do Council of Economic Advisers to the President.2

Mesmo se considerarmos a menor estimativa de um ponto percentual, num período de 25 anos, ela subestima a renda americana real em aproximadamente US$ 9.000,00. Em outras palavras, um casal de trabalhadores terá sua renda subestima em quase 18 pratas, usando-se o índice de preços ao consumidor para corrigir a inflação.

Não admira que as estatísticas de renda pareçam tão ruins, mesmo quando o padrão de vida esteja se elevando e os americanos tenham a maior riqueza líquida da história. Nada é mais fácil que virar a realidade de cabeça para baixo, especialmente se você estiver tentando ganhar pontos, ao invés de se aproximar da verdade.

Meu comentário ao livro acima citado foi reproduzido em sua capa:“Cox e Alm merecem uma medalha por trazer alguma sanidade a um assunto onde a insanidade é o padrão.”

Se fazer a prosperidade crescente de uma sociedade parecer um desastroso declínio não é insanidade, o que mais é?


Por Thomas Sowell.
Publicado no website Mídia Sem Máscara, em 11 de maio de 2006.
Texto original, em inglês, publicado em tsowell.com.


Notas:

  1. Banco Central americano. (N. do T.) Subir
  2. Conselho de Consultores Econômicos do Presidente. (N. do T.) Subir

Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “The money changers”(c. 1548), de Marinus van Reymerswaele (c. 1490 – c. 1546).



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