“A satisfação da curiosidade é uma das maiores fontes de felicidade na vida.”
Linus Pauling (1901-1994)
Ler O Aleph, de Jorge Luis Borges, é uma experiência que vai além da simples leitura de uma história. Borges parece escrever com uma biblioteca inteira ao seu lado, e em cada conto do livro traz referências literárias, filosóficas, históricas e culturais que desafiam o leitor a sair do texto e explorar outros caminhos. Para alguns, isso pode parecer uma dificuldade; para outros, é justamente o grande presente que sua obra oferece.
Existe uma ideia equivocada de que a cultura serve apenas para exibição intelectual. Em Borges, acontece o contrário. Quanto mais repertório o leitor possui, mais camadas da obra consegue perceber. Mas o mais interessante é que não é preciso chegar pronto ao livro. O próprio livro pode ser o caminho para essa formação. Quando encontramos uma referência desconhecida e paramos para pesquisá-la, abrimos uma porta que talvez nunca tivéssemos atravessado de outra forma.
Hoje, com o acesso imediato à informação, essa experiência se tornou ainda mais rica. Uma menção a um filósofo, a um poeta ou a um episódio histórico pode ser investigada em poucos minutos. E, pessoalmente, considero que fazer essa pesquisa durante a leitura torna a jornada mais viva. O livro deixa de ser apenas um objeto de entretenimento e passa a funcionar como um mapa para outros conhecimentos.
Ao final de O Aleph, talvez o leitor não tenha apenas acompanhado alguns exemplos de narrativas brilhantes. Talvez tenha conhecido novos autores, descoberto ideias, visitado épocas distantes e refletido sobre temas que antes lhe eram estranhos. Borges não entrega todas as respostas; ele desperta a curiosidade. E a curiosidade, quando levada a sério, transforma as pessoas.
Por isso, a grandeza de O Aleph não está apenas em sua invenção literária, mas também em sua capacidade de ampliar horizontes. O leitor verdadeiramente interessado sai do livro diferente de como entrou: um pouco mais culto, mesmo — sem qualquer receio em parecer pedante — um pouco mais atento ao mundo e, talvez, um pouco mais consciente da vastidão do conhecimento humano. Borges nos lembra que ler não é apenas receber uma história, mas participar de uma conversa que atravessa séculos.
Por Douglas Alfini Jr.
Douglas é autor das obras Crônicas do Invisível (2021), Âmbar Gris (2023), O Ufanista (2024) e Teratomaquia (2025):
Notas da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “The Gallery of Archduke Leopold Wilhelm in Brussels” (1651), de David Teniers, o Jovem (1610–1690).
Sobre a imagem e sua escolha:
A pintura retrata a coleção de obras de arte do arquiduque Leopoldo Guilherme da Áustria, cercada por dezenas de quadros reunidos em um mesmo espaço. Mais do que representar uma galeria, a obra sugere a ideia de que uma criação artística pode conduzir a muitas outras. Sua escolha para ilustrar este texto deve-se justamente à afinidade com a experiência proporcionada por O Aleph, de Borges: uma obra que, por meio de referências e associações, convida o leitor a ampliar continuamente seus horizontes culturais e intelectuais.























