Neste artigo, G. K. Chesterton mostra que a família tem três inimigos: o capitalismo, que a corrói em nome do mercado; o comunismo, que a submete à ideologia; e o hitlerismo, que pretende defendê-la submetendo-a ao Estado.
Foi decerto por meio de uma ironia brilhante como um relâmpago que o sr. Aldous Huxley iluminou toda a paisagem repugnante de sua Utopia satírica — com a sua humanidade sintética, feita de homens e mulheres fabricados — com a velha citação romântica do “Admirável Mundo Novo.” A citação vem, como se bem sabe, daquele momento supremo da mágica da juventude, acalentada pela mágica da velhice, quando Miranda a maravilhosa torna-se, ante o primeiro amor, Miranda a maravilhar-se. Usá-la como o lema mesmo de um sistema que, tendo perdido toda a inocência, necessariamente haveria de perder todo o maravilhar-se, foi um toque de ironia devastadora. E, contudo, mal não fará lembrar que, quando comparado com outros mundos, em que se faz a mesma obra com menos vigor, se bem que com a mesma perversidade, a Utopia dos extremistas tem, com efeito, algo daquela integridade intelectual própria aos extremos, e mesmo aos extremos da loucura. Neste sentido, os dois adjetivos irônicos não são apenas irônicos. A horrível colmeia humana, ou inumana, descrita pelo sr. Huxley em seu romance, vive por certo em um mundo vil; em um mundo imundo e fundamentalmente infeliz. Mas o mundo vil é, também, num sentido, novo; e é, num sentido, valente 1. Haveria que se ter ao menos certo punhado de valentia, além de outro tanto de brutalidade, se se quisesse estabelecer algo assim no mundo dos fatos. Haveria que se ter alguma coragem, e mesmo algum autossacrifício, a fim de se estabelecer algo tão completamente repugnante.
Mas se está a obrar o mesmo noutros mundos que não são particularmente novos, e tampouco valentes. Há pessoas de um outro tipo, muito mais comum e convencional, que, não contentes com tentar criar um tal paraíso de covardia, tentam criá-lo por meio de uma conspiração de covardes. A atitude que têm para com a Família e a tradição de suas virtudes cristãs é a atitude de homens dispostos a ferir, mas não a golpear; ou a enfraquecer e minar, conquanto não se lhes peça para abrir fogo ou lutar em campo aberto. E estes constituem muito mais da metade, ou quase dois terços, dos que escrevem nos jornais capitalistas mais respeitáveis e convencionais. Nunca será demais repetir: o que destruiu a Família no mundo moderno foi o capitalismo. Sem dúvida, poderia ter sido o comunismo, se o comunismo algum dia houvesse tido uma chance fora daquele deserto semi-mongol onde de fato floresce. Mas, na medida em que é de nós que se está a falar, o que tem desfeito lares e encorajado divórcios, o que tratou as antigas virtudes domésticas com desprezo cada vez maior e mais à vista, é a época e o poder do capitalismo. Foi o capitalismo que forçou uma contenda moral e uma competição comercial entre os sexos; que destruiu a influência dos pais em favor da influência do patrão; que arrastou os homens para fora de suas casas a fim de que procurassem emprego; que os fez viver perto de suas fábricas e firmas em vez de perto de suas famílias; e, acima de tudo, que encorajou, por razões comerciais, um desfile de publicidade e novidades espalhafatosas que são, por sua própria natureza, a morte de tudo a que nossos pais e mães chamavam dignidade e modéstia. Quem, num ímpeto e tumulto de bárbaros, deitou abaixo e pisoteou a antiga estátua romana de Verecundia, não foi o bolchevique; foram o chefe, o publicitário, o vendedor e o propagandista. Mas, como quem faz a coisa são tais homens, é claro que a fazem à sua própria maneira nebulosa e confusa; por meio de todos os truques irresponsáveis de suas sugestões abomináveis e de sua psicologia imunda. Fazem-na, por exemplo, por meio da ridicularização perpétua das antigas virtudes e limitações vitorianas que, não estando mais aqui, dificilmente poderão dar-lhes resposta. Fazem-na mais por imagens do que por palavras impressas; pois às palavras há que se dar algum sentido, e pode-se responsabilizar um homem por havê-las impressas. Alardeiam-se efígies hirtas e horrendas de mulheres usando crinolinas e as toucas mais pavorosas, como se não pudesse ter havido mais nada para se ver quando Maud veio até o jardim e foi saudada por tal música. Felizmente, os amigos de Maud, que teriam desafiado o jornalista e o fotógrafo a um duelo, estão todos mortos; e estes ridicularizadores do vitorianismo fazem questão de só bater em cachorros mortos. Alguns de seus caricaturistas, ousadíssimos, chegaram mesmo a atacar uma antiga cabine de banho como se ela fosse uma metralhadora.
É coisa muito conveniente, pois, atacar as cabines de banho, já que não há cabines de banho a se atacar. Contrabalançam, então, tais coisas com fotografias da Garota Moderna em vários estágios do movimento nudista; e se fiam em que qualquer coisa tão obviamente vulgar por certo será popular. No mais, a Garota Moderna flutua num mar de sentimentalismo piegas; um tagarelar constante sobre a sua franqueza e viço, sobre a perfeita naturalidade de ela pintar o rosto e a sua coragem sem precedentes por não ter filhos. Dilui-se o todo numa hipocrisia enfadonha sobre a camaradagem, mil vezes mais sentimentalista do que o velho sentimento. Quando eu vejo a família a se afogar nestes pântanos de pieguice amorfa e fútil, sinto ímpetos de dizer “Deem-me os comunistas.” Antes ter as batalhas bolcheviques e o Admirável Mundo Novo a contemplar a antiga casa do homem ser carcomida, silenciosamente, pelos vermes da sensualidade secreta e do apetite individual. “O covarde o faz com um beijo; o valente, com uma espada.”
Mas há, curiosamente, ainda uma terceira coisa, que me parece ser ainda pior do que as outras duas. Não é o comunista a atacar a família ou o capitalista a traí-la; é a visão vasta e espantosa do hitlerista a defender a família. A fim de defender a independência da família, Hitler quer tornar todas as famílias dependentes dele e de seu Estado semissocialista; a fim de preservar a autoridade dos pais, Hitler haverá de dizer aos pais, autoritariamente, o que devem fazer. Manter a dignidade sagrada da vida doméstica é, para ele, despachar ordens peremptórias ao avô para que se levante às cinco da manhã e faça exercícios com halteres, ou à avó, para que vá marchar vinte milhas até um acampamento à cata de uma bandeira da suástica. Noutras palavras, ele parece interferir na vida familiar ainda mais do que o fazem os bolcheviques; e fá-lo em nome da santidade da família. Conquanto não seja coisa muito mais encorajadora do que as outras duas manifestações, é, ao menos, mais divertida.
Síntese editorial baseada em “Three Foes of the Family”, de G. K. Chesterton.
publicado em The Well and the Shallows (1935); Ignatius Press, 2006, pp. 111–113.
Notas:
- O título do livro, no original inglês, é “Brave New World”, ou seja, “Valente Mundo Novo”.

Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “Breaking Home Ties” (1890), por Thomas Hovenden (1840–1895).
Sobre a imagem e a relação com o texto:
A pintura representa o momento em que um jovem deixa o lar para buscar trabalho na cidade. A cena estabelece uma relação particularmente forte com a crítica de Chesterton ao capitalismo, a quem ele atribui, entre outras coisas, o afastamento dos homens de suas casas e famílias em busca de emprego. A obra não pretende representar literalmente os três inimigos da família apresentados pelo autor, mas evoca visualmente uma das formas pelas quais, segundo Chesterton, a vida moderna contribuiu para romper os antigos vínculos familiares.
















