Teratomaquia (parte II)

Obra sem título, do artista polonês Zdzisław Beksiński (1929 - 2005)

Na segunda e última parte, finalmente conheceremos o destino de todos os membros da expedição, bem como a natureza dos seres que habitam o planeta. Onde está, afinal, o Deus a quem tanto clama o nosso protagonista?



Àquela altura, já estavam sem comer e beber há dias. Surpreendentemente até para eles, porém, o pouco que conseguiam dormir parecia suficiente para que suas forças se renovassem. Como mortos-vivos, prosseguiam caminhando pelo nada absoluto durante o dia e temendo a tristeza assassina da noite escura.

Ele era o único que tinha fé. Falava constantemente com Deus, mesmo quando o gosto de sangue lhe subia pela garganta seca. Os outros dois não se opunham ao falatório à meia voz, como seriam obrigados por lei a fazê-lo em uma situação normal, mas também não estavam tão desvairados a ponto de acompanhá-lo. Foi assim que consideraram um enorme — mas nada além disso — golpe de sorte o amigo ter tropeçado, finalmente, em um pedaço de trilho de trem encoberto pela poeira. Era a orientação que tanto precisavam.

Um dia de caminhada pelos trilhos foi o suficiente para que chegassem até o que restara de uma das aldeias-célula. Estava completamente abandonada, mas ainda assim era um bom refúgio. Explorando as ruínas, tiveram enfim um motivo de alegria: um dos tanques de reutilização de água trazidos da Terra estava intacto. A reserva era pouca, mas dada a situação, era para eles como um verdadeiro oásis. Entre portas e armários cobertos de pó, encontraram ainda uma boa quantidade de enlatados.

Obra sem título, do artista polonês Zdzisław Beksiński (1929 - 2005)Fukuda, o mais faminto dos três, não perdeu tempo saciando a sede com um único gole d’água sequer; enquanto os outros bebiam e preparavam porções individuais de provisões, ele devorava latas e mais latas de comida. Após terem se alimentado com parcimônia e julgando-se protegidos dos perigos da noite graças ao teto sobre suas cabeças, os companheiros do matemático dormiram o sono mais pesado de suas vidas. Enquanto isso, escondido dos dois, o japonês engolia vorazmente mais um de inumeráveis copos de macarrão instantâneo.

Fukuda mudava de cor.

Sua pele ganhava um tom esverdeado; seu corpo inchava e seus braços e pernas pareciam querer alongar-se. Seus colegas, já em sono profundo, nada perceberam. O gênio japonês ia sendo tomado por uma volúpia diabólica e perdia sua racionalidade enquanto crescia. Já não cabia mais sob o teto quando, agachando-se com dificuldade, conseguiu deixar o aposento. Como uma fera que vai à caça, invadia todas as outras habitações à procura do que comer, crescendo sempre mais e mudando de aparência.

Quando o pouco encontrado havia sido devorado, Fukuda já era uma aberração gigantesca. A pele havia dado lugar a uma dura couraça verde-escuro, semelhante à de um crocodilo, e presas afiadas saltavam-lhe da boca. Ainda sedento, retornou ao abrigo, lembrando-se da refeição que lá dormia, mas os dois homens já haviam sido despertados pela marcha do monstro. Correram para outro abrigo, mas Fukuda, em sua nova forma, os farejava com facilidade e os perseguia, destruindo pelo caminho o que havia sobrado das ruínas da aldeia e despedaçando as poucas habitações ainda inteiras. Sem alternativa, tomaram o caminho de volta para o deserto e, mais de longe, puderam ver o ex-companheiro pisoteando toda a vila, raivoso, e farejando a rota que haviam tomado. Desesperados e vendo-se aparentemente sem escapatória, testemunharam uma intervenção inesperada.

Saltando repentinamente de um buraco numa rocha, surgiu a criatura disforme que agora encontravam pela terceira vez. Abriu a mesma boca terrível com a qual devorara a Dra. Cécille, rugindo contra Fukuda como um animal que tivesse seu habitat violado. Cego pela fome insaciável, Fukuda viu naquele ser uma opção de refeição ainda mais satisfatória e lançou-se contra ele, iniciando mais um embate catastrófico. Aproveitando-se da situação, os dois homens se afastaram dali. Continuaram seguindo os trilhos, mas sem avistar qualquer sinal de novas ruínas.

Caminharam por três dias, agora um pouco mais aliviados em suas necessidades por aquilo que traziam da aldeia-célula. Um permanecia firme em suas convicções, agradecendo a Deus pela água e alimento que lhe enviara, e também por cada dia em que o sol lhe acordava e o fazia sentir-se vivo. O outro questionava em silêncio a fé ultrapassada do companheiro de jornada, julgando-a perda de tempo e, principalmente, de energia. Ainda assim, não expressava qualquer objeção. Depois de tudo o que haviam presenciado, o colega merecia este ato de complacência.

Conversavam pouco. As experiências que vivenciaram pareciam apequenar o interesse na vida humana. Nada que um pudesse dizer ao outro seria relevante, não mais do que as batalhas entre bestas que haviam testemunhado. Qual dos dois seria o próximo? O sono lhes fugia, dando lugar às dúvidas. Ambos agora tinham medo um do outro e de si próprios. Era impossível fugir em E2.



Continuando a caminhada pelos trilhos, tendo sobre eles o sol quente que lhes descamava a pele, seguiam sua busca por refúgio. Mesmo famintos e desidratados, parecia que só conheceriam a morte através da ira de um daqueles monstros.

Obra sem título, do artista polonês Zdzisław Beksiński (1929 - 2005)Já sem saber se era real ou não, avistaram ao longe uma forma claramente artificial sobre um trecho reto do caminho da ferrovia, algo que certamente não estava lá quando a mesma fora construída. Curiosos, apressaram o passo na esperança de que fosse uma espaçonave, quem sabe uma missão de resgate em busca de sobreviventes. Mas quando se aproximaram o suficiente, o que viram foi uma espécie de monumento de pedra, uma figura conhecida de suas lembranças do planeta natal. Tratava-se de uma réplica perfeita da famosa esfinge egípcia, imponente como a original. Parados em frente à magnânima construção, tentavam entender a razão de sua presença.

— Elas são guardiãs… – disse o professor Kalathesis, admirado, sem tirar os olhos da imagem. O outro, desconfiado, não disse nada. De repente, deu-se um tremor e um ruído intenso, como se uma montanha se movesse ou um rochedo fosse arrastado. Após alguns segundos de pânico, tudo cessou, e em seguida ouviu-se uma voz feminina que parecia vir dos confins do universo…

Eu sou Esfinge, guardiã de todo o conhecimento, deus criador e governante deste mundo. A vossa missão está encerrada. Por chegarem até aqui, sereis recompensados com a salvação: hei de proteger-vos daqueles que os perseguem, hei de alimentar-vos e saciar-vos a sede. Hei de vos dar abrigo, coroar-vos príncipes e, ainda mais, conceder-vos a resposta para toda dúvida. Colocarei em vossas mãos a chave da sabedoria, e ninguém, em todo o universo, há de ser mais sábio do que vós. Para isso, exijo apenas uma condição: que me reconheçais como ser supremo e todo poderoso, ajoelhando-vos perante minha face.

Neste momento, toda a incredulidade do professor caiu por terra. Diante da magnitude demonstrada por aquele ente encarnado em uma estátua de setenta metros, possuidor da mais sedutora das vozes, encheu-se de vivas imagens nas quais se via conhecedor da solução de todas as questões que por tantos anos perturbavam sua mente de homem da ciência. Entregou-se; ajoelhou na poeira, rendendo-se à proposta da esfinge.

— Não, professor! É um truque! — clamou o colega, ainda firme em suas crenças.

— Ajoelhe-se, tolo! Não vê que é a nossa chance de adquirir todo o conhecimento? Nada é mais importante do que conhecimento! Nada!

Um novo estrondo foi ouvido e uma tempestade de poeira pôde ser vista se formando na direção oposta. Entre as patas de leão da esfinge, os contornos de uma porta riscaram-se repentinamente e esta se abriu. Sem titubear, o professor levantou-se e foi ao encontro dela, ainda completamente extasiado pela oportunidade que lhe fora oferecida.

À medida que a grande nuvem se aproximava, o outro homem era cegado pelo pó e empurrado contra a porta, que agora se fechava lentamente. Parecia não ter alternativa a não ser acompanhar Kalathesis, que já havia entrado e desaparecido no interior da esfinge, mas resistiu. Ajoelhou-se de costas para a tempestade e, de olhos fechados, clamou por socorro.

— Ajuda-me, ó Pai, porque em ti confio.

A nuvem de poeira o atingiu em cheio e tudo ao redor escureceu. A porta se fechou completamente e a grande esfinge desapareceu nas trevas. Por longos minutos, o derradeiro sobrevivente da expedição permaneceu ajoelhado, esperando tudo passar. Quando o silêncio tomou conta outra vez, o deserto à sua frente estava calmo, e ele, de cabeça erguida, seguiu o caminho pela ferrovia.

Caminhou até encontrar um vagão cargueiro desgarrado do restante da máquina, mas ainda preso aos trilhos. Estava ainda intacto e oferecia espaço suficiente, até mesmo algum conforto. Ali pôde descansar e atravessar um período relativo de paz. Suas lembranças misturavam-se com os sonhos, os sonhos com a realidade, e a realidade parecia querer dissolver-se. Ninguém para conversar, ninguém que compreendesse, ninguém que houvesse testemunhado os mesmos acontecimentos que ele. Seu único ouvinte era Aquele a quem endereçava suas orações.



A escuridão acabara de cair em mais um dia como os outros, quando os primeiros passos foram ouvidos. Eram muitos e já estavam próximos, muito próximos. Pouco depois, o céu negro encheu-se dos urros de feras raivosas se digladiando. Pelo quê lutavam? Por espaço, por sobrevivência? Por medo? Erguendo a cabeça lentamente por um vão da porta entreaberta, pôde vê-los… estavam todos lá, em uma guerra brutal, constante, embolados como cobras em um ninho, mordendo-se e atacando-se com as armas que tinham.

— Teratomaquia… – disse em voz baixa, relembrando a palavra utilizada pelo professor Kalathesis e cujo significado desconhecia.

Temendo ser descoberto, abaixou-se novamente e retornou para dentro, selando a porta com uma grande trava que ainda funcionava, e como se uma súbita trégua fosse acordada entre as criaturas, os sons de batalha cessaram. O sobrevivente podia senti-las todas se aproximando para investigar o vagão. Sussurrando encolhido em um canto, de olhos fechados, apelou uma vez mais para as suas preces.

A noite negra foi ganhando rapidamente um tom acinzentado e o vento passou a soprar cada vez mais forte, até começar a fazer estremecer o vagão. O pó, empurrado pela força do vento, subiu tão alto que varreu dali todas as feras, mas o fez também com o vagão, que descarrilou dos trilhos e foi arremessado violentamente contra um pequeno desfiladeiro. Lá dentro, o homem segurava-se como podia enquanto sua habitação improvisada capotava várias e várias vezes até finalmente parar, toda amassada e virada de cabeça para baixo, diminuindo consideravelmente seu espaço interno.

Ele recuperou-se do golpe. Encontrou sua bolsa de provisões, na qual estavam sua garrafa d’água e alguns biscoitos agora triturados. Adaptou-se à nova realidade e aceitou sua condição. Manteve-se um homem de fé por dias incontáveis, grato pela resposta às suas orações, por ter sido livrado de perigos maiores, por ter sido sustentado até ali. Mas o tempo passou e os questionamentos, finalmente, vieram lhe assombrar.

Sentia que Deus não o escutava mais. Após algum tempo, chegou a desconfiar de que sua escassa porção de alimento e água, de alguma maneira, como que se multiplicava dia a dia, pois parecia não terminar quando já deveria tê-lo feito. Mas o que outrora veria como um puro milagre agora lhe parecia uma maldição — por que ainda estava vivo, afinal? Já não havia sofrido o bastante? Será que nem morrer poderia, naquele lugar desgraçado?

Os terrores e lamentos noturnos cercavam o vagão. As bestas o visitavam, pareciam chamar por ele, perturbavam seu sono e o apavoravam constantemente. Por vezes ensaiou abandonar o abrigo e partir outra vez sem destino, mas agora já estava fraco demais, e não apenas fisicamente. Sua distração eram aquelas estranhas recordações dos eventos bizarros que presenciara. Na solidão do vagão, pôde pensar mais detidamente sobre eles, conectando tudo o que vira com aquilo que conhecia da vida pessoal de cada membro da expedição. Ainda assim, levou algum tempo até que encontrasse a única explicação que lhe parecia plausível para a peculiaridade daqueles seres. Tratavam-se da materialização dos pecados e demônios de cada um, apresentados sob os mais variados elementos simbólicos de seu imaginário, misturando memórias, imagens infantis e fantasias folclóricas. O que os olhos cheios de tristeza de Aaronson contemplaram naquele gigante impiedoso foi a imagem que fazia do pai que tanto o agredira na infância e que ele tanto odiara e jamais perdoada… Cécille experimentou um arrependimento infinito e o amor tardio pelo filho que abortara, ao vê-lo como um descomunal amontoado de carne humana despedaçada… a gula, o egoísmo e a soberba fizeram com que o solitário Fukuda perdesse aquilo que mais lhe fazia sentir-se superior aos outros — a razão — diante de uma paixão descontrolada por algo tão banal quanto a comida… a apostasia de um homem de tamanha erudição como era o professor Kalathesis foi capaz de iludi-lo e transformá-lo no mais cego e orgulhoso dos ignorantes…

Obra sem título, do artista polonês Zdzisław Beksiński (1929 - 2005)E assim, pensando nessas coisas, o sobrevivente levava os dias. Fizera um voto de silêncio: mesmo quando sua reserva de alimentos finalmente chegou ao fim, estava decidido a não mais pedir. A fé de tantos anos o impedia de blasfemar, mas continuar agradecendo por aquela vida sofrida e miserável já estava além de suas capacidades. Sua relação íntima com Deus estava rompida, sua compreensão de tudo aquilo era nula. Veio a noite mais uma vez.

Ao ouvir novamente, lá fora, o confronto entre as bestas que tanto o amedrontavam, tomou a decisão de encará-las de frente. Se a fome, a sede e as doenças daquele mundo não lhe queriam matar de uma vez, os monstros o fariam, e ele descansaria, enfim, tal como os companheiros que agora invejava. Abriu a porta do vagão e saiu, um tanto cambaleante.

— Estou aqui, Senhor! Onde está o meu fim? Por que só eu não tenho um carrasco? — gritou a plenos pulmões. As criaturas responderam como ele esperava, correndo vorazmente em sua direção, todas ao mesmo tempo. Segundos antes de ser atingido, porém, ele quebraria seu voto de silêncio.

Não foi uma visão, não foi uma voz vinda do alto. O homem não viu nem ouviu, mas teve a certeza de que Ele estava presente e respondia sua prece, como fizera em todas as ocasiões anteriores. Não soube quanto tempo durou, se um minuto ou um ano, mas acordou no meio daquele nada, sozinho, sem monstro nenhum ao redor, sabendo apenas que Deus o havia respondido, à Sua maneira, diretamente no mais profundo de sua alma.

Não deverias estar aqui, filho meu. Por que deixaste a casa que fundei para ti? Eu, que tudo fiz, fiz também este planeta, mas não para vós… como poderia o homem encontrar a paz onde meu Santo Espírito não habita? Vai. Vai e não fraquejes, que tua fé será recompensada. Não te esqueças de que foi ela que te livraste da espada de teu carrasco.

E então um fogo desceu dos céus. Com as mãos, o sobrevivente protegia os olhos contra a intensa claridade que o cegava.

IGNIS RAEDA II era o que se lia na inscrição da grande espaçonave de resgate que pousava no deserto.


Por Douglas Alfini Jr.

O autor tem como principais influências os clássicos do romance e da literatura fantástica, bem como o cinema western. É graduado em história. A obra Crônicas do Invisível (2021) é seu livro de estreia.


Nota da editoria:

As imagens exibidas ao longo do texto, assim como na capa, são obras do artista polonês Zdzislaw Beksinski (1929 – 2005).


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