Vida é um projeto?

obra “Vanitas Still-life with a Portrait of a Young”, criada pelo pintor holandês David Bailly (1584 – 1657) em 1651.

“Ouso dizer que nada no mundo contribui tão efetivamente para a sobrevivência,
mesmo nas piores condições, como saber que a vida da gente tem um sentido.”,
Viktor Emil Frankl (1905 – 1997): neuropsiquiatra austríaco.



Uma das características mais marcantes da vida moderna é a sua evanescência diária. Não somente somos nós mesmos que envelhecemos, mas tudo a nossa volta desbota e perde a graça em questão de pouco tempo.

Nada é feito para durar. “No futuro, todos serão famosos por 15 minutos”, dizia Warhol, numa evocação à Wilde, acertadamente. Não que Warhol fosse um gênio, mas simplesmente que ele sabia para que lado o vento soprava, e deixou-se levar.

Tudo à nossa volta é efêmero. Os assuntos são efêmeros. Os produtos são efêmeros. O sentido de eternidade da raça humana parece ter sido varrido da existência. Não buscamos o eterno, o belo em si mesmo, o sublime, mas o “up-to-date”, o que é “trendy” e todos os termos racionalmente ocos que enchem as vitrinas culturais da atualidade.

A explicação oficialmente aceita para este estado é que o homem percebeu no século XIX que não era mais um reflexo da imagem de Deus, mas simples produto de uma “evolução” (ou upgrade de fábrica) da matéria, igualzinho aos ratos, chimpanzés e tatus-bola. A partir deste ponto o homem deixa de olhar para a eternidade como seu porto de chegada e passa a combater os ponteiros do relógio contra seu curto reinado temporal.

A modernidade centra-se nestas duas vertentes: O conceito de “evolução”, concluindo que o que é mais novo é melhor, pois é mais avançado em termos evolucionistas. O conceito de evolução é transportado sem filtros para dentro da cultura e pronto. As bases da alta cultura foram derrotadas.

Ultima Ceia, por Andrea Del CastagnoA técnica passa a ser a base “cultural” da modernidade. A ciência é o novo Prometeu que roubou para o ser humano o dom do conhecimento, e com o conhecimento o homem pode construir sua própria felicidade, sem intercessão divina. Não mais interessa conceitos antigos e démodées como “moral” ou “justiça”, o que é mais novo é o melhor. Ponto final.

Segunda fase: passa-se às gerações mais jovens o controle da cultura. Na metade dos anos 50, surge nos Estados Unidos o protótipo da cultura jovem que irá estabelecer-se pelo resto do mundo. Nos anos 60 é radicalizado ao máximo. “Não confio em ninguém com mais de trinta anos” é o mote da época.

Terceira fase: o modernismo “morre”. Afinal a ciência não pode, ela mesma, garantir “paz e segurança”. O século inaugurado pelo signo da modernidade encerra com o saldo de duas guerras mundiais seguidas. Mas o homem não desiste. Ao invés de voltar e reconhecer o erro, inventa a “pós-modernidade”, que é simplesmente a negação da racionalidade e da própria existência por assim dizer.

O resultado disso é que a Vida agora é simples vida. Efêmera e volátil, sem grandes esperanças, caótica, darwiniana luta do mais forte, agora transfigurada pelo “mais moderno”: vença quem tiver o I-Phone 5.

Mas eu não concordo. O ser humano não é uma mosca drosófila gigante. Viver para simplesmente sentir o que pode ser sentido, “aproveitar” o que cada época nos proporciona, não deve ser nosso único objetivo. Nosso real objetivo é a eternidade. Por que somos eternos, no sentido de que nada, nem ninguém que  tenha existido pode virar “nada”. Mesmo que não estejamos mais aqui para testemunhar, nossa história estará. Por isso que a Vida tem de ter um projeto. E ela tem. A nossa grande missão é aprender sobre ela.


Escrito por Luís Afonso Assumpção.
Publicado originalmente no website Mídia Sem Máscara, em 9 de outubro de 2012.


Nota do editor:

A imagem associada a esta postagem ilustra recorte da obra “Vanitas Still-life with a Portrait of a Young”, criada pelo pintor holandês David Bailly (1584 – 1657) em 1651.


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