Entre ideias, fatos e ironias: março de 2026

Obra: "Piano", de kikooyou. Detalhes em: https://www.etsy.com/pt/listing/666345020/pintura-de-piano-de-casa-interior

* Acesse apanhados de outros períodos. Links disponíveis no término desta postagem.



Sumário


  1. O pianista Ramsey Lewis (artes/música)
  2. Trechos do romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (artes/literatura)
  3. Gasolina Trans (artes/humor)
  4. O Brasil “já” está em 1984 (política)
  5. O burro, de G. K. Chesterton (cristianismo)
  6. Love Is Blue, por Paul Mauriat (artes/músicas)
  7. Notícias cantadas (artes/humor)



1. O pianista Ramsey Lewis Subir


O pianista de jazz Ramsey Lewis (1935–2022) frequentemente incorporava às suas composições elementos do gospel, do soul e até mesmo da música erudita. No vídeo, a composição Spiritual oferece uma boa demonstração dessa mistura.

Na performance, que dura mais de 20 minutos, um dos motivos do título torna-se evidente: o “estado de espírito” da música se transforma diversas vezes ao longo da execução. Vale prestar atenção ao diálogo entre o piano e o baixo (10min:48s) e, mais tarde, entre o piano e a bateria (17min:09s) — interações desse tipo eram outra forte característica de Lewis.

Por fim, é válido lembrar que o músico foi fortemente influenciado por sua fé cristã.


Ramsey Lewis & His Electric Band, em 6 de junho de 2011 (Jazz San Javier)
Ramsey Lewis, piano; Tim Gant, teclado; Henry Johnson, guitarra; Joshua Ramos, baixo; e, Charles Heath, bateria.

Clique aqui e ouça novamente a mesma música, desta vez tocada com a Orquestra Filarmônica de James Mack, e atente ao momento 1:55, quando ocorre uma interessante alternância da linguagem erudita para o jazz.

Publicado em nosso canal do Telegram, em 6 de março de 2026.




2. Trechos do romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley Subir


No romance Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, a sociedade é organizada de modo a eliminar o sofrimento humano por meio basicamente do condicionamento psicológico, do consumo constante e de uma droga chamada ‘soma’ que garante bem-estar. Em troca (sem que a grande maioria saiba) abre-se mão da liberdade individual, da profundidade emocional, da arte e da busca por sentido.

O trecho a seguir apresenta o confronto entre duas visões de mundo: de um lado, o Administrador, que representa essa sociedade e defende a estabilidade e a felicidade garantida; de outro, o “Selvagem”, um homem criado fora desse sistema, que questiona o custo dessa aparente perfeição.

Observação:

Abaixo, em negrito e itálico estão as falas do Administrador (Mustafá Mond); em itálico, as do “Selvagem” (John).

“Toda descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva: até a ciência deve, às vezes, ser tratada como um inimigo possível.”

Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.

Em suma — disse Mustafá Mond — o senhor reclama o direito de ser infeliz.

Pois bem, seja — retrucou o Selvagem em tom de desafio. — Eu reclamo o direito de ser infeliz.

Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifoide…

A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade.

É preciso escolher entre a felicidade e aquilo que antigamente se chamava a grande arte.

Nós sacrificamos a grande arte. Temos, em seu lugar, os filmes sensíveis e o órgão de perfumes.

A felicidade nunca é grandiosa.

“— Então o senhor acha que não existe um Deus?

— Ao contrário, penso que muito provavelmente existe.


Publicado em nosso canal do Telegram, em 29 de março de 2026.




3. Gasolina Trans Subir


Gasolina Trans

Publicado em nosso canal do Telegram, em 18 de março de 2026.




4. O Brasil “já” está em 1984 Subir


Sei que o assunto Vorcaro está quente, mas ontem eu tomei conhecimento de algo bizarro, que acabou passando batido justamente porque aconteceu quando iniciou o escândalo Master.

O Governo Federal emitiu uma portaria em novembro passado, determinando que os hotéis coletem e informem a ele, por meio de uma plataforma digital, os dados dos hóspedes que ingressaram no estabelecimento. Ou seja, brasileiros e estrangeiros viajantes receberão vigilância estatal permanente e em tempo real.

Onde uma pessoa resolve dormir, com quem e quando é um dado eminentemente privado, assim como seus deslocamentos. Diz respeito à esfera da privacidade, da intimidade. O Estado não tem que saber. O cidadão tem o direito de se deslocar sem ter que dar satisfações ao governo sobre onde está dormindo.

A Portaria 41/2025 do Ministério do Turismo vai entrar em vigor no próximo dia 20 de abril. É inconstitucional. Encaminhe essa informação ao seu parlamentar, para que dê tempo de essa patifaria comunista cair. Comento tudo aqui: https://youtu.be/855cl2igdfI?si=qQJ9w_7js7pUOBxt.


Por Ludmila Lins Grilo.
Publicado no X da autora, em 5 de março de 2026.




5. O burro, de G. K. Chesterton Subir


Quando os peixes voavam e as florestas
Moviam-se e espinheiros davam figos,
Num momento em que a lua era de sangue,
Eu decerto nasci: tempos antigos.

Com uma cabeça enorme e um grito ascoso
E orelhas — duas asas aberrantes —,
Sou a paródia mesma do demônio
Por entre todos mais quadrupedantes.

A andrajosa escumalha deste mundo,
Cuja perversidade não tem fim,
Escarnece-me, bate-me, esfomeia-me,
E eu guardo o meu segredo para mim.

Estultos! Eu também tive uma hora,
Distante e doce e minha — uma hora ardente:
Bradava a multidão à minha volta
E espalhava-me palmas pela frente.


Nota da Editoria Cultura de Fato:

Chesterton sugere que aquilo que é considerado insignificante pode ser escolhido para um propósito divino. O poema implica uma crítica ao orgulho humano ao mostrar que um ser desprezado foi instrumento de um momento sagrado, revelando que o julgamento baseado apenas na aparência é limitado. Por isso, no início, o autor apresenta um mundo invertido (“peixes voavam”, “espinheiros davam figos”), criando a ideia de suspensão da ordem comum, como se o evento central — um animal humilde associado ao divino — pertencesse a uma realidade que desafia a percepção ordinária.


Por G. K. Chesterton (1874-1936).
Publicado em 29 de março de 2026 (Domingo de Ramos),
no canal do Telegram Autores da Terra de Santa Cruz.




6. Love Is Blue, por Paul Mauriat Subir


Love Is Blue foi composta por André Popp (1924–2014), com letra original em francês de Pierre Cour (1916–1987). A canção tornou-se mundialmente famosa com a versão instrumental de Paul Mauriat (1925–2006).

Este gênero musical, conhecido como easy listening (“música ligeira”, em Portugal, e “música instrumental”, no Brasil), está praticamente extinto.



Para saber mais e ouvir músicas similares, acesse:
https://culturadefato.com.br/a-musica-ligeira-esta-praticamente-morta/.

Publicado em nosso canal do Telegram, em 18 de março de 2026.




7. Notícias cantadas Subir


Em janeiro, apresentamos um vídeo que reúne todas as notícias — de ontem, de hoje e de amanhã — exatamente como são divulgadas pela grande mídia, inclusive em suas expressões e trejeitos. Hoje, em 37 segundos, antecipamos o essencial daquilo que, no próximo mês, será apresentado como informação política.



Trecho de Knick Knach, por Bobby McFerrin
Publicado em nosso canal do Telegram, em 16 de março de 2026.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra “Piano”, de Kikooyou. Para mais detalhes, clique aqui.




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