“A educação sem valores, por mais útil que possa ser,
tende a transformar o homem em um demônio mais inteligente.”
C. S. Lewis (1898–1963)
Um dos tristes e perigosos sinais de nosso tempo é o grande número de pessoas fascinadas por palavras, sem sequer se preocuparem em observar as realidades que elas encobrem.
Uma dessas palavras cujo sentido raramente é questionado por muitas pessoas é “educação”. Mas “educação” pode abranger desde cursos de física nuclear até aulas de simples giro de bastão.
Infelizmente, uma parcela cada vez maior da educação americana — tanto nas escolas quanto nas faculdades e universidades — aproxima-se mais do extremo trivial do que do rigor da física nuclear. Até mesmo instituições respeitáveis vêm, cada vez mais, ensinando conteúdos que os alunos já deveriam ter aprendido no ensino médio.
Não há muitos estudantes sérios buscando cursos igualmente sérios. Se observarmos as áreas em que os estudantes americanos se especializam nas faculdades e universidades, veremos que elas se concentram fortemente no extremo menos rigoroso do espectro.
No que diz respeito à pós-graduação em áreas rigorosas, como matemática e ciências, é comum que estudantes estrangeiros obtenham mais desses diplomas nas universidades americanas do que os próprios americanos.
Uma manchete recente do Chronicle of Higher Education anunciava: “Mestrado em Inglês: vai cortar grama”. A matéria destacava um homem com esse título que acabou ingressando no ramo de paisagismo, devido à baixa demanda por profissionais com mestrado em inglês.
Um número excessivo de pessoas deixa até mesmo nossas instituições acadêmicas mais prestigiadas sem as habilidades necessárias para serem economicamente produtivas, nem o desenvolvimento intelectual necessário para se tornarem cidadãos e eleitores capazes de discernimento.
Estudantes podem se formar em algumas das instituições mais prestigiadas do país sem jamais aprender nada sobre ciência, matemática, economia ou qualquer outra área que os torne produtivos para a economia ou eleitores informados, capazes de enxergar além da retórica política.
Ao contrário, pessoas com esse tipo de “educação” costumam ser mais suscetíveis à demagogia do que a população em geral. E essa não é uma situação exclusiva dos Estados Unidos. Em diversos países, indivíduos formados em áreas mais leves têm sido fontes de instabilidade política e até mesmo de violência em massa.
Tampouco é este um fenômeno novo. Uma obra acadêmica sobre a história de Praga no século XIX mencionava os “bem instruídos, porém subempregados” jovens tchecos que fomentavam a polarização étnica — polarização essa que não apenas persistiu, como se intensificou no século XX, levando a trágicas consequências tanto para tchecos quanto para alemães.
Em outros países da Europa Central, entre as duas guerras mundiais, uma classe crescente de jovens recém-formados ressentia-se amargamente por ter de competir, nas universidades, com judeus mais qualificados e, na vida profissional, com judeus já estabelecidos nos negócios e nas profissões. Disso resultaram políticas antissemitas e episódios de violência.
Foi praticamente a mesma história na Ásia, onde minorias bem-sucedidas, como os chineses na Malásia, eram alvo do ressentimento de malaios recém-educados que não dispunham das qualificações acadêmicas nem das habilidades comerciais necessárias para competir com eles. Esses malaios exigiram — e obtiveram — leis e políticas fortemente discriminatórias contra os chineses.
Situações semelhantes se desenvolveram, em diferentes períodos, na Nigéria, Romênia, Sri Lanka, Hungria e Índia, entre outros países.
Em muitos países do Terceiro Mundo, formaram-se tantos diplomados desprovidos de habilidades relevantes que a expressão “os educados desempregados” tornou-se um clichê entre os estudiosos dessas sociedades. Isso não apenas se tornou um problema pessoal para indivíduos educados — ou parcialmente educados — sem a capacidade de atender às suas expectativas crescentes, também passou a representar um grave problema econômico e político para esses países.
Tais pessoas têm se revelado alvos ideais de demagogos que promovem a polarização e a discórdia. Nos Estados Unidos, ainda estamos nos estágios iniciais desse processo. Mas basta visitar campi universitários onde há departamentos inteiros dedicados a cursos menos rigorosos que pregam um sentimento de vitimização e ressentimento, e observar as consequências na polarização racial e étnica nessas instituições.
Há cursos de baixo rigor que permitem aos estudantes passar anos na faculdade sem se tornarem, de fato, educados.
Não precisamos de mais “investimento” governamental para gerar mais desse tipo de “educação”. Termos grandiosos como “investimento” não deveriam nos cegar para a realidade desagradável dos gastos políticos clientelistas.
Por Thomas Sowell.
Tradução Editoria Cultura de Fato.
Publicado em 9 de maio de 2011, originalmente em inglês e sob o título The ‘Education’ Mantra.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “The Village School” (aprox. 1670), de Jan Steen (1625/1626–1679).














