Pode a beleza salvar o mundo?

Obra: "Aleksandr Solzhenitsyn", por Harshaka Kumara

* Alexandr Solzhenitsyn, trechos de seu discurso para o Prêmio Nobel de Literatura, 1970



“Dostoievski, certo dia, lançou esta enigmática afirmação: ‘A beleza salvará o mundo’. Que tipo de declaração é esta? Por muito tempo julguei tratar-se de meras palavras. Como poderia ser possível? Quando foi que, no curso da história, sempre sedenta de sangue, a beleza salvou alguém de alguma coisa? Enobreceu, elevou, certamente — mas a quem salvou?

Há, porém, uma certa peculiaridade na essência da beleza, uma peculiaridade no status da arte: a persuasão de uma verdadeira obra de arte é completamente irrefutável, e faz render-se até mesmo os corações que mais fortemente se opõem.

É possível compor um discurso político aparentemente suave e elegante, um artigo impetuoso, um programa social ou um sistema filosófico com base tanto em um erro quanto em uma mentira. O que está oculto e distorcido não se tornará imediatamente evidente. (…) Mas as obras de arte que captam a verdade e a apresentam a nós como uma força viva — estas se nos apoderam, nos compelem, e ninguém, nem mesmo nas eras a por vir, haverá jamais de refutá-las.

Então, talvez aquela antiga trindade do Verdadeiro, Bom e Belo não seja apenas uma fórmula vazia e pálida, como pensávamos nos dias de nossa juventude autoconfiante e materialista. Se as copas dessas três árvores convergem, como sustentaram os estudiosos, mas os galhos muito flagrantes e diretos da Verdade e do Bem são esmagados, cortados e não se os permite continuar — então talvez os fantásticos, imprevisíveis e inesperados ramos da Beleza hão de abrir caminho e subir a este mesmo local, cumprindo assim o trabalho de todos os três.

Neste caso, a afirmação de Dostoievski, ‘a beleza salvará o mundo’, terá sido não uma simples frase descuidada, mas uma profecia. (…) E, neste caso, a arte e a literatura poderão ser realmente capazes de ajudar o mundo, hoje.”


A. Solzhenitsyn, trechos de seu discurso para o Prêmio Nobel de Literatura, 1970.
Traduzido por Daniel Marcondes. Publicado no canal do Telegram do tradutor em 3 de julho de 2023.


Notas da editoria:

Imagem da capa: “Aleksandr Solzhenitsyn”, por Harshaka Kumara.

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