Santo Agostinho e o Cogito de Descartes

Obra: "Suplicando" (1876), de Sir Lawrence Alma-Tadema (1836 - 1912).

“Não haverá, entre um espírito que abarrota de invenções alheias e outro que inventa por si próprio, a mesma diferença que vai de um recipiente que se enche de água à fonte que a fornece?”
Honoré de Balzac (1799 – 1850)

* Notas da editoria



Nós aprendemos que o conceito de Cogito — “eu penso, logo existo” — é de Descartes, mas trata-se de uma meia verdade. Em boa verdade, o conceito de Cogito é de Santo Agostinho, embora elaborado de uma forma ligeiramente diferente: dizia Santo Agostinho que “eu duvido, logo existo”.

“No entanto, ¿quem quereria duvidar que existe, se lembra, compreende, deseja, pensa, sabe e julga? E que, mesmo quando se duvida de tudo o resto, não deve ter dúvidas acerca disto. Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido. Porque a dúvida só é possível se eu existo.” — (Confissões).

O que é extraordinário é que nas aulas de filosofia do ensino secundário se fale do Cogito de Descartes e não se refira o fato de que, de certa maneira, Descartes plagiou Santo Agostinho. Parece que os meus professores fizeram de propósito: riscaram Santo Agostinho do mapa. Ou então, desconheciam a origem do “cogito, ergo sum”. Só mais tarde me apercebi do plágio de Descartes.

Santo Agostinho parte da dúvida: se eu duvido, descubro no meu pensamento aquilo que já sabia desde sempre: eu existo, e tenho a certeza absoluta de que existo.

Se eu quisesse provar diretamente — e de uma forma concludente, a mim próprio ou a outrem — o fato de eu existir, não poderia fazê-lo. Poderia beliscar-me, ou dar umas bofetadas a mim próprio; mas, teria também que provar que as percepções sensoriais, que decorrem do beliscão ou da bofetada, garantem absolutamente a verdade — porque também posso sonhar os beliscões ou as bofetadas. E se quisesse provar a minha existência com a ajuda de silogismos lógicos, ou através de provas abstratas, teria que provar, em primeiro lugar, a sua verdade — e nunca mais chegaria ao fim, na tentativa de prova.

Santo Agostinho demonstrou o seguinte: eu tenho uma certeza de mim próprio que não pode ser provada, mas que está profundamente enraizada em mim, e nessa certeza posso confiar de um modo absoluto. Eu existo, e nada no mundo é mais certo do que esse fato. O fato de eu existir é um absoluto sem prova, e é em si mesmo verificável pela minha experiência interior. Ou seja, estou em presença de uma experiência que antecede o pensamento.

Descartes inverteu o Cogito de Santo Agostinho: o Santo dizia que “eu existo, logo penso”, ao passo que Descartes dizia que “eu penso, logo existo”.

Segundo Santo Agostinho, antes de pensar, sei que existo. Este conhecimento, segundo o qual eu existo, logo penso, tem origem em mim mesmo, e para mim não há nada mais certo. Esta minha experiência de mim mesmo é diferente da minha experiência em relação às coisas que estão fora de mim: ela representa a última instância, para além da qual não é possível remontar, e a partir da qual se tornam possíveis todas as outras experiências da minha vida (o “X” de Kant).


Por Orlando Braga.
Originalmente publicado em 10 de agosto de 2013, no website do autor.


Notas da editoria:

Imagem de capa: “Suplicando” (1876), de Sir Lawrence Alma-Tadema (1836 – 1912). Subir com fundo cinza

Artigo minimamente modificado. A versão original foi escrita em português de Portugal, para acessá-la clique aqui. Subir com fundo cinza




Mais do autor:



Artigos relacionados

5 2 votos
Classificação
Inscrever-se
Notifique-me sobre
guest
0 Comentários
 mais antigos
mais recentes  mais votado
Comentários
Visualizar todos os comentários
0
Adoraríamos receber sua crítica. Por favor, escreva-a!!x