“O fundamento da cultura é o ócio.”
Josef Pieper (1904-1997)
Não lembro o nome nem a fisionomia de um rapaz que trabalhou dois ou três meses ao meu lado. Mesmo assim, ele protagonizou uma cena que permanece cristalina em minha memória.
Tudo começou quando eu disse: “Estou atrasado e utilizando o transporte público”. Antes mesmo que eu pudesse completar a frase — “amanhã continuarei lhe auxiliando” —, ele literalmente saltou da cadeira e bradou em direção ao elevador: “Chefia, pode dar uma carona ao nosso amigo?”
O diretor assentiu com a cabeça, e meu inquieto colega completou: “Seu problema está solucionado. Ayrton é tão veloz na condução de seu Camaro amarelo quanto na direção de nossos sistemas” — por motivos óbvios, Ayrton não é o nome real. Aliás, talvez Rubinho fosse um pseudônimo mais apropriado.
Logo na saída do estacionamento, Ayrton, por intuição ou exibicionismo, mostrou-se ágil e entrou bruscamente à frente de outro veículo, que fui incapaz de reconhecer, pois não identifico automóveis por suas buzinas. Entretanto, como aquela avenida era (e ainda é) longa e repleta de semáforos, cerca de 300 metros depois paramos em um deles. Então notei que havíamos avançado à frente de uma Ford Belina cor-de-rosa — provavelmente um veículo 3×1 (três cilindros parados e um em funcionamento).
Demorou para que aquele semáforo substituísse o vermelho pelo verde. Assim que abriu, Ayrton tentou recuperar o tempo perdido, acelerando o suficiente para assustar um motoqueiro que distribuiu, inutilmente, diversos gestos obscenos. Meu motorista improvisado estava concentrado demais para observar gestos ou ouvir buzinas.
Poucos segundos depois, e antes de todos os demais veículos, chegamos ao próximo semáforo. Ele permaneceu fechado por tempo suficiente para que a Belina cor-de-rosa surgisse novamente ao nosso lado, desta vez ao meu lado. Foi nesse momento que pude observar, pela primeira vez, um garotinho de três ou quatro anos no banco traseiro. Ele contemplava os edifícios, os letreiros e as luzes da cidade com evidente fascínio.
Prestes a abrir, aquele que era o último semáforo antes do meu desembarque, Ayrton “acelerou fundo” sem sair do lugar, o que lhe rendeu mais uma repreensão. Desta vez, um agente de trânsito fez gestos com as mãos pedindo que tivesse calma. Não adiantou. Aliás, naquele ponto, como ele havia me pedido, avisei que desceria cerca de 200 metros adiante. Ainda assim, ele acabou parando muito depois do local indicado.
Confesso que, ao desembarcar, segurei a porta por longos dois ou três segundos além do necessário para que a Belina nos ultrapassasse — e ultrapassou. A sucata cor-de-rosa percorreu o mesmo trecho, no mesmo tempo e de forma mais segura que o luxuoso esportivo amarelo.
No dia seguinte, assim que cheguei ao escritório, meu companheiro — cujo nome teimo em não lembrar — perguntou: “Deu tempo?”. Respondi que sim, pois havia honrado meu compromisso. Então ele completou: “Ayrton entregará em seis meses um projeto que normalmente leva um ano. Simultaneamente, faz você chegar em dois minutos a um destino que normalmente levaria dez!”. Imediatamente lembrei-me da Belina, do garotinho e do som daquele veículo. Então disse que havia ressalvas e que conversaríamos depois de uma reunião da qual eu acabara de ser comunicado. Nesse momento, ele me surpreendeu ao desvirtuar a conversa, dizendo que havia arrumado outro trabalho e iria pedir demissão.
Nunca mais vi meu ex-colega anônimo que, na verdade, acabou sendo demitido. Aquela reunião tinha justamente o objetivo de comunicar sua dispensa.
Um desejou pedir demissão; o outro desejou demitir. Talvez porque fossem mais parecidos do que imaginavam. O primeiro dizia preferir o trabalho à sua “solidão doméstica”. O segundo afirmava, com orgulho, que preferia o escritório por nele não haver crianças chorando nem um “problema maior” chamado Lilian (nome fictício de sua esposa).
Entretanto, nenhum dos dois era comprometido com o trabalho e com a companhia em um sentido mais profundo (inclusive, possuíam currículos em empresas de ramos distintos e com períodos curtíssimos de permanência). Apesar disso, trabalhavam relativamente bem e frequentemente extrapolavam os horários, afinal, o serviço preenchia todos os “vazios” de suas vidas. E aquilo que preenche nossos “vazios” tem um nome.
Entretenimento.
Quando o entretenimento (que pode ser bom e necessário) passa a preencher todos os vazios da nossa existência, o limiar entre ele e o vício torna-se estreito. Afinal, nem todo vazio precisa ser preenchido: Aristóteles já reconhecia o ócio contemplativo como condição para a vida intelectual.
De qualquer modo, verdade seja dita, Ayrton realmente entregou um importante projeto na metade do tempo requerido. Adequou um enorme sistema para atender a uma complexa resolução imposta por um órgão regulatório. Mas, infelizmente, depois que as mudanças foram implementadas, não só os novos recursos apresentaram constantes problemas, como também os antigos, inclusive rendendo uma multa para a companhia. Somente dois anos depois (atente: dois anos depois!) tudo se tornou estável, momento em que Ayrton já havia deixado a empresa havia pelo menos três meses.
Hoje percebo que Ayrton jamais estava atrasado; ele apenas não suportava “desperdiçar” um único segundo. Provavelmente porque todo vício transforma desejos em urgências. Somente anos depois descobri que o sociólogo Hartmut Rosa havia nomeado esse comportamento de “aceleração social”.
Exemplificando: certa vez, um coordenador percebeu que um funcionário recém-contratado demorou para localizar um botão em um dos principais sistemas, e imediatamente solicitou o reposicionamento desse componente. A alteração resolveu um problema pontual, mas criou outro muito maior, pois em telas pequenas e médias o botão passou a ficar pouco visível. Isso gerou uma nova urgência: a de redesenhar completamente aquela interface. O simples reposicionamento de um botão custou caro, consumiu horas de trabalho de cinco profissionais e exigiu tempo para que todos se habituassem ao novo padrão. Porém, mesmo diante de indagações, ninguém mais se lembrava daquilo que realmente havia originado toda aquela reformulação.
Como escrevi, conheci Hartmut Rosa tardiamente e, para piorar, somente recentemente tomei ciência da obra A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, na qual o filósofo explica o quanto fomos transformados em “sujeitos de desempenho” que se autoexploram e o quanto usamos o trabalho como palco de contínua validação.
Essa necessidade permanente de validação também contribui para que o trabalho acabe deixando de ser uma expressão de propósito e vocação e se transforme em entretenimento. E, quando isso acontece, não demora para que se transforme em dependência. Toda dependência exige doses sucessivas. Mas, se essas urgências nascem do vício, onde tais vícios se iniciam?
Foi justamente aquela criança que me fez perceber que esse problema antecede e ultrapassa a primeira carteira assinada. A Ford Belina parecia vinda de outro mundo. Não pelo estado de conservação, pela cor ou pelo barulho, mas porque detinha algo raríssimo: uma criança sem celular aproveitando sua ociosidade. Quem mais estaria naquele trânsito utilizando o tempo não para jogar nem para assistir a incontáveis vídeos curtíssimos e sem nenhuma relação uns com os outros? Em outras palavras, sem “gamificar” o período?
É desejável que propósito e vocação — do latim vocare, “chamar” — se casem. Dessa união, que pode envolver paixão, sacrifício e perseverança, nasce um bom filho: o trabalho. O entretenimento, porém, não pode ocupar o lugar de um dos cônjuges. Quando isso acontece, deixa de ser descanso e transforma-se em fuga. Passa a preencher o tédio, as frustrações, as dores e os vazios da vida. Como todo vício, essa fuga exige doses cada vez maiores e mais urgentes. É justamente aí que o trabalho deixa de ser um chamado e passa a funcionar como qualquer outro vício — custando caro para muitos e permanecendo imperceptível para a maioria. Por fim, a validação que antes brotava de uma existência dotada de sentido passa a ser medida apenas pela relação entre tempo e quantidade de tarefas.
Contemplar é, muitas vezes, o primeiro passo para desejar construir.
O problema é que é difícil desejar construir, gerenciar ou pilotar aquilo que nunca foi contemplado. Quem nunca observou o céu dificilmente se encantará pela astronomia; quem nunca acompanhou uma escavadeira operando talvez jamais se apaixone pela engenharia. Quem passa a infância contemplando apenas influenciadores pode acabar desejando tornar-se um deles. Poucos perguntam a si mesmos: influenciar para construir o quê? Produzir o quê? Mostrar qual obra? Afinal, não desejarão construir algo admirável; desejarão tornar-se admiráveis. É neste sentido que a Belina cor-de-rosa e o ocupante do banco traseiro pareciam vindos de outro mundo.
Isso me faz lembrar um escrito de G. K. Chesterton: “Não liberte o camelo do peso de sua corcova; talvez você o esteja fazendo deixar de ser camelo”. Igualmente, se nos libertarmos de nossas angústias, tédios, dores, medos, contemplações e tantos outros sentimentos, deixaremos de ser “seres humanos” e nos tornaremos objetos.
Por fim, encerro sem conseguir lembrar o nome daquele ex-funcionário nem sua fisionomia. Na verdade, não lembro sequer do rosto de Ayrton. Mas a Belina cor-de-rosa e a criança continuam inesquecíveis. Possivelmente porque, enquanto todos aceleravam, apenas aquela criança contemplava.
Por Eric M. Rabello.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “The Butterfly Hunter” (1840), por Carl Spitzweg (1808–1885).
Sobre a imagem e a relação com o texto:
À primeira vista, a pintura retrata apenas um excêntrico caçador de borboletas. Entretanto, como em muitas obras de Carl Spitzweg, a cena convida o observador a olhar além do aspecto pitoresco. Mais do que um homem em atividade, vê-se alguém cuja ação nasce da contemplação.




















