Relacionamentos sem Alma

Recorte da obra: "Room in New York" (1932), de Edward Hopper (1882-1967).

O ser humano se torna Eu pela relação com o Tu.”
Martin Buber (1878–1965)



Existem pessoas que vivem juntas há tempos, mas são completamente estranhas umas às outras. Trocam palavras, ideias, corpos, mas jamais compartilham suas almas. Conversam, passeiam, transam, têm filhos, negócios e até planos juntas, mas permanecem desconhecidas em suas essências.

Essas pessoas me lembram os protagonistas dos livros do Kafka: indivíduos encastelados em seu universo interior, vendo os outros e o mundo de maneira superficial, esquemática, instrumental. Pessoas que nunca se relacionam de verdade, mas apenas dão e recebem informações.

Falta-lhes aquela troca que pressupõe um verdadeiro relacionamento. Não existe uma intimidade que caracteriza o vínculo real. A presença que gera uma profunda conexão está ausente.

Perguntei a um colega: “Sua ex-esposa gostava de ir ao cinema?”. Ele, mesmo depois de ter vivido trinta anos com ela, me respondeu: “Não sei. Acho que sim”. Alguém que após décadas de “relacionamento” não tem certeza sequer sobre um gosto trivial de sua companheira não se relacionou com ela, apenas viveu do lado dela.

Os tempos modernos carregam essa característica: indivíduos fechados dentro de si mesmos, preocupados apenas com seus sentimentos, tratando os outros como estranhos, inacessíveis, misteriosos.

Talvez, por isso, meus alunos, quando peço para que travem contato com o público e interajam com ele, têm tanta dificuldade de fazer isso. Aproximar-se dos outros tornou-se uma exceção, quase um luxo. Uma simples troca de olhar já é um escândalo.

Alguns me dizem: “Mas não tenho intimidade com o outro, professor. Como fazer esse contato?”. Ao que respondo: “Mas isso não é sobre intimidade, é sobre a pressuposição da integridade do outro. Apenas peço que você considere que existe um ser humano ali. Um ser humano como você, com emoções, sentimentos, sensibilidades. Lembre-se disso! E dirija-se a ele considerando isso”.

Uma real comunicação exige essa entrega, essa interação, essa troca. Um verdadeiro relacionamento só acontece com presença e com uma alma acessando a outra. Afinal, não estamos sós neste mundo e o outro não é apenas um coadjuvante da nossa história.


Por Fabio Blanco.
Autor de As origens do mal e criador dos portais Filosofia Integral e fabioblanco.com.br.
Texto publicado originalmente em seu canal do Telegram em 21 de julho de 2026.


Nota da Editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “Room in New York” (1932), de Edward Hopper (1882–1967).




Mais do autor:



Artigos relacionados

0 0 votos
Classificação
Inscrever-se
Notifique-me sobre
guest
0 Comentários
 mais antigos
mais recentes  mais votado
0
Adoraríamos receber sua crítica. Por favor, escreva-a!!x