“Para que não se possa abusar do poder, é preciso que, pela disposição das coisas, o poder freie o poder.”
Montesquieu (1689-1755), Do Espírito das Leis, Livro XI, capítulo 4 (1748).
O que as urnas de outubro tornaram conhecido, na operosidade das máquinas, não é diferente do que vimos nos longos corredores e filas de votação, Brasil afora. Era o povo, consciente de que seu voto deveria proclamar um basta! Era necessário e só o povo poderia efetivá-lo, jogando a água fria das urnas nas quatro patas de barro do poderoso belzebu: sigilos, silêncios, censura e sanções.
“Supremo é o povo”, proclamavam algumas faixas em recentes manifestações. Naquilo que chamei de “supremo tribunal do cidadão e sua consciência” era impossível não sentir — em cada zona eleitoral, seção de votação ou cabine — as teclas sendo digitadas para expressar a convicção de um eleitor proferindo, democraticamente, seu veredicto. Do lado oposto, sentavam-se pessoas de carne e osso, indivíduos reais, sendo julgados pelos próprios excessos cometidos no manuseio do tabuleiro político. Nunca antes presenciei algo assim.
Aquela eleição, a já histórica eleição de 2026, apenas num viés secundário julgou políticos, parlamentares e governantes. Em sua essência, julgou julgadores! Julgou juízes. Julgou votos monocráticos. Julgou precedentes e jurisprudências. Julgou casos reais, injustiças reais, abusos reais. Julgou blindagens e casuísmos, julgou inquéritos sem fim neste mundo. Para salvar o futuro, julgou o passado.
Tantasfizeram os autoproclamados “supremos”, que agora tanto faz: de livre vontade, ocuparam o epicentro de um imenso universo de decisões e consequências. No dia 4, todo voto popular arrastava consigo uma convicção sobre — digamos assim — os excessos de autoestima e as estratégias políticas majoritárias no Supremo Tribunal Federal destes últimos anos.
O poder, seja qual for seu tipo ou fonte, quando escapa dos controles usuais, se torna uma droga a exigir overdoses crescentes. Uma vez construída a narrativa era preciso seguir em frente. Quanto mais instáveis se revelassem seus fundamentos, mais recorrentes eram a coerção, a imposição do medo e as violações de direitos humanos. Infelizmente, vimos isso acontecer e, assim, qual patas do cavalo de Átila, a brutalidade foi deixando vítimas pelo caminho. Os autores, calorosamente aplaudidos em ambientes fechados, mal podiam sair às ruas. Daí os jatinhos, como cobiçados meios de transporte. Daí o conforto da hotelaria internacional, como aprazível lugar de estar. Daí as derrotas políticas que o dia 4 de outubro, simetricamente, impôs aos controladores dos ambientes controlados.
Os meios de Inteligência Artificial disponíveis ao usuário brasileiro não têm registro histórico de anomalia semelhante à que aconteceu no Brasil. Ministros de uma Suprema Corte ou Tribunal Constitucional assumindo o protagonismo do jogo político, atropelando preceitos, códigos, regimentos e legislação consolidada no país? Impondo obediência aos poderes políticos do Estado com o intuito de preservar o próprio poder de mando, se auto proteger e se blindar? Não, isso só no Brasil.
Eis aí outra exclusividade nacional, punhado de jabuticabas, colhidas na safra de 2026, para Lula levar a Trump em próxima visita.
Por Percival Puggina.
Publicado no website do autor, em 11 de outubro de 2026.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “Os últimos momentos do imperador Maximiliano do México” (1882), de Jean-Paul Laurens (1838–1921).
Sobre a imagem:
A pintura retrata os momentos finais de Maximiliano I, imperador do México, deposto, condenado à morte e executado em 1867, após a queda do Segundo Império Mexicano.
A obra evoca a fragilidade do poder e a possibilidade de que aqueles que um dia exerceram a autoridade acabem submetidos ao julgamento de seus próprios atos. Sua relação com o artigo é, portanto, simbólica: ambos remetem à ideia de que o poder não é absoluto e de que seus detentores também estão sujeitos às consequências de suas decisões.














































