Estatísticas “Aha” (Excerto da obra: “Os ungidos”, de Thomas Sowell)

Surprised stakeholders of a business, renaissance painting, oil painting in the dutch master style.

Sabíamos muitas coisas que mal éramos capazes de compreender.
Kenneth Fearing (1902 – 1961)1



Qualquer pessoa que examinar dados estatísticos o suficiente em algum momento vai encontrar números que parecem confirmar uma dada visão. Com frequência, o mesmo conjunto de dados contém outros números que parecem confirmar conclusões diametralmente opostas. O mesmo é verdade para “fatos” anedóticos. Por isso que evidência é diferente de meros dados, sejam eles numéricos ou verbais.

Evidência científica, por exemplo, vem da determinação sistemática — com antecedência — de quais observações empíricas em particular seriam encontradas se uma teoria fosse correta, comparado ao que seria encontrado se uma teoria alternativa estivesse correta. Apenas após a conclusão dessa cuidadosa e meticulosa análise é que se pode iniciar a busca por fatos que diferenciam as teorias concorrentes. Raramente essa abordagem é utilizada por aqueles que acreditam na visão dos ungidos. Normalmente, eles examinam estatísticas até encontrarem alguns números que se encaixam em suas pressuposições e, então, exclamam: “Aha!”. Outros com diferentes visões podem, é claro, fazer a mesma coisa, mas apenas aqueles com as visões predominantes têm chances de serem levados a sério quando usam esse raciocínio tão trêmulo. Esse é apenas um dos usos indevidos das estatísticas que passam sem serem contestadas, desde que as conclusões concordem com a visão dos ungidos.


Estatísticas “Aha”


Talvez o exemplo mais puro dos problemas do método “Aha!” é os conjuntos de estatísticas que, dentro deles mesmos, contêm números que vão completamente contra as conclusões que se chegam por outros números no mesmo conjunto. Isso não é tão raro quanto se espera.


Mortalidade Infantil e Cuidados Pré-Natais


Um estudo muito citado feito pelo National Center for Health Statistics (Centro Nacional de Estatísticas de Saúde) mostrou que (1) mulheres negras grávidas nos Estados Unidos da América receberam cuidados pré-natais com menor frequência do que mulheres brancas grávidas e que (2) a mortalidade infantil entre os negros era muito maior do que entre os brancos2. Reações do tipo “Aha!” na mídia foram imediatas, intensas e difundidas. Automaticamente se pressupõe que o primeiro fato era a causa do segundo, que isso demonstrava a negligência da sociedade norteamericana com as minorias, ou até racismo, e que o que se fazia necessário eram mais gastos governamentais em cuidados pré-natais. De acordo com um editorial do The New York Times, 1/4 das mortes infantis nos EUA seriam “facilmente evitáveis” e eram “atribuídas principalmente à falta de acesso a cuidados prénatais”. Fazia-se necessário um “aumento nos gastos federais em cuidado prénatal”3. O The Washington Post, de forma similar exigiu legislações para “fonecer assistência vital a mulheres grávidas que não têm condições de pagar por atendimento médico regular”4.

Capa da obra: " Os Ungidos: A fantasia das políticas sociais dos progressistas", de Thomas Sowell.No mesmíssimo relatório que mostrou disparidades raciais em mortalidade infantil — de fato, na mesma página — as estatísticas mostraram que (1) mexicanos-americanos receberam ainda menos cuidado pré-natal do que os negros e que (2) a taxa de mortalidade entre mexicanos-americanos não era maior do que entre os brancos5. Caso alguém estivesse seriamente interessado em testar a hipótese, a conclusão seria de que não foram os cuidados pré-natais os responsáveis pelas diferenças em mortalidade infantil entre os grupos. Aquela conclusão seria ainda mais bem justificada através de dados de mortalidade infantil entre os norteamericanos de ascendência chinesa, japonesa e filipina — todos estes receberam menos cuidados pré-natais do que os brancos e, mesmo assim, tiveram uma mortalidade infantil menor do que os brancos6. Entretanto, uma análise cuidadosa desses artigos na New England Journal of Medicine mostrou que tais afirmações são infundadas7. Entretanto, é claro que ninguém com a visão dos ungidos estava procurando por estes dados, logo, não houve nenhum “Aha!”.

Em uma reprise do padrão de justificativas para gastos governamentais na “guerra à pobreza”, foi afirmado que o dinheiro investido em cuidados pré-natais irá prevenir problemas de saúde custosos, assim sendo economizado no longo prazo. Muitos números foram lançados, afirmando que para cada dólar gasto em cuidado pré-natal haveria uma economia de US$ 1,70, US$ 2,57 ou US$ 3,38, dependendo de qual estudo acreditar. Marian Wright Edelman, do Children’s Defense Fund, por exemplo, usou a cifra de US$ 3,38 dólares7. Entretanto, uma análise cuidadosa desses artigos na New England Journal of Medicine mostrou que tais afirmações são infundadas8. O que é ainda mais surpreendente foi a resposta a essas descobertas impactantes:

A dra. Marie McCormick, diretora do Departamento de Saúde Materna e do Feto na Harvard School of Public Health, disse que era verdade que a “justificativa desses serviços, analisados por um ponto de vista de custo-benefício, não convence”, mas complementou que “as pessoas se reduziram a este tipo de ação” por políticos que relutam em investir dinheiro em serviços para os pobres9.

Em outras palavras, se eles tivessem contado a verdade, não teriam recebido a verba. Estatísticas inválidas servem ao propósito de permitir aos ungidos garantir a decisão dizendo ao público apenas o que ganhará apoio político


Excerto da obra: Os ungidos: a fantasia das políticas sociais progressistas, de Thomas Sowell.
Publicado pela LVM Editora, sob ISBN 978-6550520540.


Notas:

  1. Kenneth Fearing, “Andy and Jerry and Joe”, Andy and Jerry and Joe, Nova York: Random House, 1940, p. 7. Subir
  2. National Center of Health Statistics, Health, United States, 1990, Hyattsville, MD: U. S. Public Health Service, 1991, p. 41. Subir
  3. “More Babies Are Dying”, New York Times, 9/ago/1990, p. A22. Subir
  4. “Intantil Deaths”, Washington Posts, 13/mar/1990, p. A24. Subir
  5. National Center of Health Statistics, Health, United States, 1990, p. 41. Subir
  6. Ibid. Subir
  7. Marian Wright Edelman, “The Status of Children abd Out National Future”, Stanford Law Policy Review, primavera de 1989, p. 20. Um ensaio sobre Marian Wright Edelman e o Children’s Defense Fund na revista ew Yorker disse: “O C. D. F. foi capaz de mostrar que o aumento do serviço de saúde para crianças na verdade levou à diminuição dos custos do governo em contas de médicos e hospitais, mais adiante — um argumento econômico que se mostrou persuasivo no Congresso”, Calvin Thompkins, “A Service for Urgency”, New Yorker, 27/mar/1989, p. 70. Assim como em muitos outros casos, “persuasivo” não quer dizer exatamente preciso. Para mais exemplos críticos do Children’s Defense Fund, Jeva, “Children’s Crusade”, Reason, jun/1992, p. 32 – 35. Subir
  8. June Huntington e Frederick a. Connell, “For Every Dollar Spent — The Cost-Savings Argument for Prenatal Care”, New England Jounal of Medicine, vol. 331, nº 19, 10/nov;1994, p. 1303-07. Subir
  9. Gina Kolata, “Reassessing Costs of Prenatal Care”, New York Times, 10/nov/1994, p. 10. Subir

Nota da Editoria:

Imagem da capa: “Surprised stakeholders of a business”. Para mais detalhes, clique aqui.


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