“A coisa mais difícil na vida é conhecer a si mesmo; a mais fácil é falar mal dos outros.”
Tales de Mileto (623/624 a. C. – 548/546 a. C.)
Não me lembro de alguém ter me feito o famoso questionamento: “Você sabe com quem está falando?”. No entanto, eu teria uma resposta concisa: “Não. Não sei nem mesmo quem sou”. Confuso? Permita-me esclarecer.
Considere-se uma pessoa moralmente elevada e, obviamente, que isso se reflita em suas escolhas literárias e musicais, no trato com executivos e moradores de rua, no ofício e em todos os demais aspectos de sua vida. Agora, medite: se seus pais fossem criminosos, ainda assim tais características lhe pertenceriam? Caso você tivesse nascido em região distinta, suas preferências gastronômicas e seu vestuário seriam iguais? Ao longo de sua vida, suas crenças e outras diretrizes sofreram mudanças?
Talvez, neste momento, você inicie uma busca pela própria identidade, exercitando “pinçar” seus aspectos menos sensíveis às mudanças e, muito provavelmente, detectará alguns — temperamento e certas tendências comumente (não necessariamente) apresentam relativa estabilidade, além, é claro, de diversos fatores biológicos.
Não é necessário estender tais análises para concluirmos que somos “produtos” inacabados até a morte — creiamos ou não em Deus. Fatores biológicos, culturais e, sobretudo, nossas próprias escolhas constantemente nos lapidam ou nos deterioram. Assim, a pergunta de maior relevância não é “quem sou?”, mas “como estou me construindo?”.
E, para minimamente nos reconhecermos — e nos “reconstruirmos” —, há práticas fundamentais de autoquestionamentos: quem sou eu quando não estou sob pressão? O que escolho quando tenho poder real de decisão? O que me sensibiliza? Exames de consciência também são fundamentais; tais indagações realizam uma verdadeira “autópsia” na própria ética, exemplificando: errei e depois busquei correção ou justificação? Escutei para compreender e auxiliar ou pela vaidade de responder? Mesmo sabendo que perderia algo tão importante, defendi com a veemência necessária? Por fim, verificar as próprias ações e reações é como consultar um GPS para descobrir onde estou e o quão distante meu destino está — ações revelam os valores escolhidos (destino); reações mostram o quanto esses valores já foram incorporados ao caráter (“onde estou”).
Enfim, precisamos mergulhar em nosso próprio ser e reconhecer que ali serão encontrados lixos e tesouros depositados, na maioria das vezes, por nossos méritos e deméritos, e que mantê-los ou excluí-los, no final das contas, não é um serviço passível de terceirização.
Entretanto, o mundo atual exala incentivos para desviarmos nossos olhares daquilo que realmente somos. As redes sociais exemplificam de modo claríssimo tal fato; nelas abundam exposições que visam suspender a realidade de seus autores. Mas também há contextos sutis e com efeitos impactantes na sociedade; por exemplo, os romances atuais, em oposição à realidade, quase sempre possuem um “final feliz”. Por fim, vamos ao fator que serviu como título deste escrito.
Uma pessoa que esteja há vinte anos fazendo terapia em grupo, duas vezes por semana e quatro horas por sessão, certamente carrega marcas positivas (e negativas) disso. Algo totalmente análogo ocorre com alguém que trabalhe o dobro de horas todos os dias e durante décadas — a diferença será que o paciente terá consciência disso, e o trabalhador, nem sempre.
Obviamente, trabalhar é preciso, dignificante, pode ser prazeroso, e empregadores são parceiros. Claro, há exceções, mas, como se diz popularmente, “exceções não são regras”. Dito isso, voltemos ao foco principal.
A maioria de nós já escutou algo como: “faremos um follow-up desse case depois da meeting”, ou seja, o uso desnecessário de palavras em inglês. Claro, há situações em que o uso de jargões ou termos específicos é primordial — um controlador de voo não diz “BP”, mas fala “bravo, papa”, pois trocar um “B” por “P” pode ser fatal. Todavia, substituir “reunião” por “meeting” raramente visa executar o trabalho com mais precisão; geralmente busca sinalizar status e pertencimento, parecer mais estratégico ou competente, ou até tornar a linguagem convenientemente ambígua — uma bela máscara sobre a realidade de si.
Claro, adaptações são comumente necessárias no ambiente profissional e em diversos outros. Porém, adaptar-se não significa mutilar o “eu próprio” e esvanecer a “alma”. Um exemplo claríssimo de “desfazer-se de si” é a mudança consciente ou inconsciente do vestuário, o uso ou desuso de barba ou maquiagem, a troca de preferências e outras mudanças pessoais para forçar a proximidade com o gestor ou a equipe.
Agora, analise: o mundo corporativo é cada vez mais dinâmico e volátil. Deste modo, muitos que colocam a ascensão profissional como o único “motor” de suas vidas tornam-se orgulhosos por serem “análogos às águas”. Águas não trilham o próprio caminho e, quando em repouso, não possuem uma forma própria.
Também há situações em que, depois da mudança de posicionamento, ocorre a tentativa de alterar a realidade. Todos nós já presenciamos pessoas que ora defendem uma reestruturação em oposição a uma reconstrução, ora colocam a reconstrução como necessidade óbvia; em um momento elogiam a metodologia, em outro, a criticam. É claro que tais pessoas, em algum momento, acabarão sendo interrogadas por outros ou pela própria consciência: “Você não defendia o oposto?”. Então, inventam discursos para justificar suas incongruências. Tais situações o psicólogo Leon Festinger chamou de dissonância cognitiva, ou seja, o desconforto mental produzido por ações, pensamentos ou crenças que entram em contradição, colocando a pessoa em uma tensão na qual, para recompor a harmonia psicológica, o sujeito inventa justificativas e altera percepções.
Claro, a dissonância cognitiva não é algo exclusivo do campo profissional.
Por fim, aqueles que caem constantemente em dissonâncias cognitivas naturalmente serão detentores de grande irritação e cansaço, terão produtividade abaixo de suas reais capacidades e, obviamente, diluirão seu “eu próprio”.
Contudo, algumas empresas são verdadeiras “usinas” de dissonâncias cognitivas. Talvez você já tenha trabalhado em uma corporação que afirme: “somos uma família”, ou “valorizamos a colaboração”, ou ainda “trabalhamos em equipe”; porém, os funcionários percebem contradições e reduzem a dissonância concluindo: “aqui, o jogo real é político”. E o resultado final todos conhecemos: um ambiente tóxico. Entretanto, saiba que, no “mundo corporativo”, a dissonância cognitiva recebe outros nomes; por exemplo, o sociólogo Nils Brunsson a chama de “hipocrisia organizacional”.
A verdade é que todos nós somos profissionalmente substituíveis e, pessoalmente, incrivelmente insubstituíveis. Charles Chaplin foi preciso quando mencionou: “Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha. Isso porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa sós, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso”.
Haverá um dia em que nossas formas já não poderão ser modificadas; nesse dia, estaremos dentro de um caixão. Aliás, muitos dizem que o formato sextavado simboliza os seis dias da criação. Quando estiverem velando o seu corpo, o que dirão sobre você? “Ele corrigia bugs em softwares como ninguém”, ou “tinha uma visão infalível do mercado de ações”, ou “era um grande estrategista”. Ou será que, naquele momento, dirão o que você deixou de si para elas?
Enquanto nossas formas ainda puderem ser moldadas, devemos ser nós mesmos, porém desejando “amanhã” sermos pessoas melhores do que fomos hoje. Certamente, assim seremos melhores em muitos aspectos de nossas vidas; inclusive, profissionais mais íntegros, mais úteis e não profissionais disformes.
Por Eric M. Rabello.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “O Filho Pródigo entre os Porcos” (c. 1660–1670), por Bartolomé Esteban Murillo (1617–1682).
Sobre a imagem e a relação com o texto: a pintura retrata o momento de degradação e consciência do filho pródigo após afastar-se de seus valores e desperdiçar sua herança. Em meio à miséria, a figura percebe sua própria condição e inicia um movimento de retorno e reconstrução interior. A escolha da obra relaciona-se com a reflexão proposta no texto acerca das influências que moldam — ou deformam — o indivíduo ao longo da vida, especialmente quando a busca por pertencimento, status ou adaptação excessiva conduz ao distanciamento de si mesmo.


















