O valor das coisas

Obra "Roses on Antique Art Box", por Jeremiah J. White.

Olho para meus pais, para minha mulher, para meus filhos, e sinto o chão debaixo dos meus pés.
A vida passa e nós estamos em torno de uma mesa, almoçando esperanças, jantando emoções e ceando fatias da noite.
Paulo Bomfim (1926 – 2019)



Certo tempo atrás me foi contada uma história que, de tão interessante e cheia de camadas, volta e meia retorna à minha memória com um significado renovado. Não é uma história longa e cheia de personagens, e não há qualquer dificuldade em compreendê-la. Ao contrário, é uma história simples sobre um barão do café no interior de São Paulo, do tempo em que estes eram grandes magnatas dividindo a vida entre a sede de suas fazendas e os casarões da Avenida Paulista, onde desfilavam sua elegância em passeios de charrete com suas damas a tiracolo, enquanto sacas daquele pequeno fruto rendiam-lhes milhões e milhões, não muito longe dali. Pois bem; um desses barões, cujo nome desconheço, não vinha da linhagem cafeeira dos seus confrades milionários da vizinhança, e apesar de já ter nascido entre os pés de café, sempre soube da origem humilde de seu pai, agricultor visionário e único responsável pelo império que herdara.

Um dia, enquanto gastava seu dinheiro na capital, recebeu a visita de um mensageiro, que trazia a notícia de que sua fazenda havia sido alvo de um incêndio criminoso. Imediatamente, o barão viajou de volta à sede, a fim de saber o que havia acontecido realmente, e, quando lá chegou, o que encontrou foi um cenário de terra arrasada.

Os pés de café queimados ainda ardiam, e as cinzas exalavam o doce aroma do fruto agora em brasa, mas o dono de tudo aquilo pouco se importou. Sem perder tempo lamentando o estrago da plantação, correu para dentro de sua casa e, subindo as escadas rapidamente, ajoelhou-se ao lado da cama, retirando por debaixo dela uma caixinha de madeira. E que alívio sentiu ao vê-la intocada, em meio a toda aquela violação que sua propriedade sofrera! Chegou mesmo a abraçá-la, pressionando-a contra o peito.

Ali dentro não havia nenhum rubi, nenhuma esmeralda encontrada por um antepassado bandeirante ou coisa que o valha. O valor do que ali estava guardado, para um homem grato à vida que tinha, como era o caso, ia muito além das pepitas de ouro. Dentro da caixinha de madeira havia um ramo seco de café, que, mesmo preservado entre duas folhas de papel manteiga, ainda exalava um pouco de seu odor peculiar, que o barão fazia questão de experimentar, inspirando profundamente, a cada vez que o revisitava. Ainda em uma dessas folhas, quase apagado, mas não menos importante para ele, era possível ler um recado: “Não se esqueça de onde veio”.

Era o que dizia a frase escrita pelo pai ao presenteá-lo com o primeiro ramo de café que havia colhido em sua vida, semente original de toda aquela riqueza.

O barão tinha plena convicção do tamanho de sua fortuna. Sabia que o prejuízo daquele estrago não era algo à toa, mas que as perdas também faziam parte dos negócios. Trabalhando duro e com a experiência que já tinha no ramo, junto das reservas que havia se preocupado em guardar para uma ocasião como aquela, recomeçaria e se recuperaria a seu tempo. O que seria mesmo impossível de se conseguir outra vez, caso perdida, seria aquela demonstração do carinho de seu falecido pai, materializada naquele ramo preservado de café.

O barão não era de maneira alguma um sujeito materialista. Seu amor não estava depositado na caixinha de madeira, no ramo de café, e nem no recado escrito. Seu amor estava no gesto, na lembrança, na figura do pai querido que vivia apenas em sua memória, mas que se fazia presente a cada vez que abria a singela recordação. Aquela sensação era para ele muito mais gratificante do que o dinheiro que ganhava na lavoura agora perdida; afinal, sem aquele ramo, hoje transformado em símbolo, ele não teria nada.

Que vivemos todos num mundo a cada dia mais materialista é algo óbvio e indiscutível. Mas o materialismo de hoje é um materialismo diferente, evoluído em sua natureza egoísta. O materialista atual odeia até mesmo a própria matéria, despreza o palpável e dedica-se a amar um objeto irreal, virtual.

A realidade parece cada vez mais distante, transportada para dentro das telas, dos softwares, dos pendrives, das “nuvens”, afastando-nos mais e mais das boas lembranças e, principalmente, dos bons sentimentos, aqueles que de tão reais são capazes de fundir-se a um simples objeto, fazendo-o tornar-se algo de valor incalculável.

Os álbuns de fotografia desapareceram, trocados pelas pastas virtuais de um “smartphone”. Ninguém mais revisita os bons momentos, pois eles estão todos ali, no bolso, ao alcance das mãos a qualquer hora, figurando em alguma rede social (ou em várias). Quem é que saca o celular e reúne a família para mostrar os registros daquela viagem de anos atrás?

As pessoas sentem-se mais seguras ao transportar suas lembranças, deixando-as ao cuidado deste arquivo virtual, sem nem ao menos preocupar-se com a possibilidade de que, um dia, toda essa realidade paralela venha a ser simplesmente apagada. É assustador ter que explicar que suas coisas estão mais bem guardadas com você, enquanto neste outro mundo não estão realmente ao seu alcance, para ser devidamente aproveitadas, e, na verdade, nem mais lhe pertencem.

Será que o barão de nossa história teria hoje o mesmo sentimento que tinha ao segurar nas mãos o presente de seu pai, fosse este apenas mais um entre milhares de outros objetos aleatórios na memória artificial de um telefone celular? Tenho certeza de que não, pelo simples fato de que nada pode substituir o toque humano, a impressão do sentir e do viver.

A pergunta que fica, no fim das contas, é esta: quanto tempo ainda nos resta até que tudo tenha sido transportado a este novo mundo artificial do qual, aos poucos, fazemos parte cada vez mais? Não ficarei espantado se, em breve, precisarmos baixar algum aplicativo numa loja virtual para que possamos experienciar um sentimento qualquer, ou uma boa lembrança.

De minha parte, enquanto ainda posso, prefiro viver a experiência de contemplar um quadro pendurado na parede, ou folhear um álbum de fotografias antigas, tomando deles todas as boas sensações que dão sentido à sua existência real, assim mesmo como fazia o barão ao reviver o amor de seu pai através daquele simples ramo de café guardado numa caixinha de madeira…


Por Douglas Alfini Jr.
Douglas é autor das obras Crônicas do Invisível (2021) e Âmbar Gris (2023):


Notas da editoria:

Imagem de capa “Roses on Antique Art Box”, por Jeremiah J. White.

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