Acabando com a escravidão

Recorte da obra: "The Slave Trade" (c. 1833), de François-Auguste Biard (1799-1882).

Se a escravidão não é errada, então nada é errado.
Abraham Lincoln (1809–1865)



Para mim, a coisa mais chocante sobre a longa história da escravidão — que abrangeu o mundo inteiro e todas as raças — é que ninguém de nenhum país antes do século XVIII questionava com seriedade se a escravidão era certa ou errada. No fim do século XVIII, esse questionamento começou a aparecer na civilização ocidental, mas não surgiu em nenhum outro lugar do mundo.

Parece tão óbvio hoje que, como disse Abraham Lincoln, se a escravidão não é errada, então nada é errado. Mas nenhum país do mundo cria nisso três séculos atrás.

Um surpreendente livro recém publicado — Bury the Chains de Adam Hochschild — mostra as origens históricas do primeiro movimento anti-escravidão do mundo, que começou com uma reunião de 12 homens profundamente religiosos na cidade de Londres em 1787.

O livro recria o próprio mundo diferente daquele tempo, quando a escravidão era tão comum que a maioria das pessoas, de um modo ou de outro, nem ligava para isso. E também não ligavam para isso os principais líderes intelectuais, políticos e religiosos da Inglaterra ou de qualquer outro lugar do mundo.

Os 12 homens que formaram o primeiro movimento anti-escravidão do mundo viam sua tarefa como convencer as pessoas de seu país a pensar na questão da escravidão — a pensar nos fatos brutais e nas implicações morais desses fatos.

Eles achavam que seus esforços seriam suficientes para levar o público inglês — e no final até o próprio o Império Britânico — a ficar contra a escravidão. Embora a ideia deles fosse bem simples, foi exatamente isso o que aconteceu. Não aconteceu rapidamente e não aconteceu sem esbarrões com opositores insensíveis, pois na época os britânicos eram os maiores comerciantes de escravos do mundo e tal comércio criou grupos ricos e politicamente poderosos que defendiam a escravidão.

Apesar disso, o movimento anti-escravidão persistiu durante décadas de lutas e derrotas no Parlamento britânico até que acabaram obtendo uma proibição ao comércio internacional de escravos, e no fim uma proibição à própria escravidão em todo o Império Britânico.

Ainda mais impressionante, a Inglaterra se encarregou sozinha, como a principal potência naval do mundo, de policiar outras nações na questão da proibição ao comércio de escravos. Interceptando e abordando os navios de outros países em alto mar em busca de escravos, os britânicos se tornaram e permaneceram por mais de um século os policiais do mundo em seus esforços de dar uma basta no comércio de escravos.

Bury the Chains apresenta essa história incrível só até a época da proibição da escravidão no Império Britânico. Esperamos apenas que Adam Hochschild ou outro escritor prepare um livro igualmente dramático e convincente sobre a saga da luta mundial contra a escravidão.

Contudo, as chances não parecem boas. O primeiro movimento anti-escravidão foi liderado por pessoas que hoje seriam chamadas de “direita religiosa” e seu movimento foi criado por homens de negócios conservadores. Além disso, o que destruiu a escravidão nas nações não ocidentais foi o imperialismo ocidental.

Nada poderia ser mais chocante e discordante da visão dos intelectuais de hoje do que o fato de que foram homens de negócios, dedicados líderes religiosos e imperialistas ocidentais que juntos destruíram a escravidão no mundo inteiro. Mas como tal fato não se encaixa na visão desses intelectuais, é como se para eles tudo isso nunca tivesse ocorrido.

Os conceitos anti-escravidão acabaram se espalhando por toda a civilização ocidental, uma luta que se tornou mundial, colocando o Ocidente contra africanos, árabes, asiáticos e praticamente o mundo inteiro fora do Ocidente, que ainda não viam nada de errado na escravidão. Mas os imperialistas do Ocidente foram os primeiros a possuir armas a base de pólvora, dando-lhes a vantagem de eliminar a escravidão no Ocidente e em outros países.

Em comentário sobre Bury the Chains, o jornal New York Times tentou insinuar que a proibição ao comércio internacional de escravos de alguma forma serviu aos interesses próprios dos britânicos. Mas John Stuart Mill, que viveu naquela época, disse que os britânicos “durante os últimos 50 anos vêm gastando somas anuais iguais aos ganhos de um pequeno reino em seus esforços para bloquear a costa africana, em favor de um objetivo no qual não só não tínhamos nenhum interesse, mas que também era contrário aos nossos interesses financeiros”.


Por Thomas Sowell.
Tradução de Júlio Severo (1969–2021).
Publicado originalmente no website Mídia Sem Máscara, em 22 de fevereiro de 2005.


Nota da editoria:

A imagem da capa é um recorte da obra: “The Slave Trade” (c. 1833), de François-Auguste Biard (1799-1882).

Sobre a imagem e sua escolha:
A pintura foi selecionada por seu caráter documental e por sua capacidade de representar, de forma direta, a realidade histórica do tráfico negreiro. Em vez de recorrer a uma idealização simbólica, Biard constrói uma cena de forte apelo narrativo, na qual a violência do sistema escravista aparece integrada ao cotidiano de uma época em que tal prática ainda era amplamente aceita ou naturalizada.




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